Último Passe 

Crédito: FPF
2016-07-06
Vitória nos golos e no futebol a cumprir promessa de Santos

Quando Fernando Santos dizia que só voltava a casa no dia 11 de Julho, depois da final do Europeu, estava a falar a sério. Portugal assegurou a qualificação para o jogo onde vai decidir-se a prova ao bater com inteira justiça o País de Gales por 2-0, com golos de Ronaldo e Nani, a coroar um jogo que só não foi defensivamente perfeito porque a equipa abanou durante uns dez minutos da primeira parte. Mas desta vez nem os que só conseguem ver tacanhez na equipa terão grande margem de manobra, uma vez que Portugal foi claramente a melhor equipa em campo, até do ponto de vista atacante, tendo desperdiçado pelo menos cinco ocasiões claras para construir um resultado mais amplo.

É verdade que o foco da equipa continuou a ser não deixar jogar o adversário. Que Fernando Santos construi o seu onze com a ideia firme de anular as principais armas de quem lhe surge pela frente. E, depois de o ter conseguido contra a Croácia, voltou a ser bem sucedido frente a Gales. O 4x4x2 de Fernando Santos, com recusa de pressionar a primeira fase de construção de Gales, tinha como maiores objetivos a anulação de Joe Allen por Adrien Silva, o médio-centro português, e o fecho das linhas de passe dos dois laterais galeses, Gunter e Taylor, através da colocação estratégica de Renato Sanches e João Mário entre eles e os jogadores dos quais mais dependia a criação, que eram Bale e King. Ora, com exceção de oito minutos da primeira parte (entre os 18’ e os 26’), nos quais os dois interiores portugueses perderam um pouco o posicionamento e Gales fez os seus três remates dos primeiros 45’, o plano resultou em pleno. O problema é que Portugal também não conseguia construir: eram raros os momentos de combinação entre os interiores e os seus laterais e os passes longos para Ronaldo esbarravam numa noite inesperadamente perfeita de Collins, que impedia a bola de lá chegar.

A primeira parte foi, por isso, demasiado morna e na verdade teve apenas uma situação de perigo verdadeiro: foi quando, aos 44’, Adrien Silva se desamarrou e foi à esquerda para cruzar para um cabeceamento de Ronaldo, em boa posição, sobre a barra. O jogo precisava de um golo para mudar e foi Portugal quem o fez. Já Quaresma, Moutinho e André Gomes aqueciam para dar mais chispa no meio-campo e no ataque quando, ao terceiro canto português, João Mário bateu pela primeira vez curto, para Raphael Guerreiro. O lateral cruzou de forma perfeita e Ronaldo aproveitou o atraso da chegada da bola à zona de definição para se superiorizar à defesa galesa e cabecear para o 1-0. O jogo ia mudar, mas antes que Gales pudesse reagir, os portugueses fizeram o 2-0, após um bom movimento ofensivo, coroado com um remate de fora da área de Ronaldo. A bola parecia ir fraca e em direção às mãos de Hennessey, mas Nani apercebeu-se disso e desviou-a do alcance do guarda-redes galês, fazendo o 2-0. Havia 37 minutos por jogar, mas a urgência de Gales poderia abrir caminho ao ampliar da vantagem.

Coleman meteu risco no jogo. Primeiro, trocou o médio mais defensivo, Ledley, por um segundo ponta-de-lança, Vokes, que foi jogar para perto de Robson-Kanu, transformando o sistema num 3x4x1x2, com Bale atrás dos dois avançados. A ideia manteve-se após a troca de Robson-Kanu por Church e acentuou-se a 25 minutos do final, quando Collins deu o lugar a Jonathan Williams. Aí, Gales passou a um 4x4x2, com Allen e Bale a pegarem no jogo alternadamente, Vokes e Church na frente e King e Williams nas alas. Santos, porém, não mudou a estrutura e limitou-se a refrescá-la: Renato Sanches cedeu a vaga a André Gomes, mais contido; Adrien foi trocado por Moutinho, que manteve a posição ao meio; e Nani abriu caminho à entrada de Quaresma. Portugal resistiu sempre a fazer entrar um terceiro central ou até a baixar Danilo no campo e continuou a ter as melhores situações para marcar. Primeiro, num contra-ataque aos 65’, no qual Nani forçou Hennessey a uma defesa incompleta e João Mário recargou de primeira rasar o poste, já com o guarda-redes caído. Depois, aos 70’, quando José Fonte cabeceou um canto de João Mário para nova defesa do guardião galês. Renato Sanches ainda perdeu esse mesmo 3-0 num contra-ataque em que Portugal teve superioridade numérica, mas no qual optou por chutar de fora da área (aos 73’, imediatamente antes de sair). Danilo, aos 78’ podia também ter ampliado a margem, quando aproveitou uma situação de pressão para se isolar na cara do guardião galês e o viu deter-lhe o remate à segunda, já em cima da linha de golo. E por fim Ronaldo, isolado por André Gomes na meia-direita, viu a receção prejudicar-lhe a finalização, que saiu à rede lateral (aos 86’).

Nessa altura, porém, já os portugueses viam St. Denis ao longe. Gales caía muito no jogo direto para os pontas-de-lança, ganhando algumas bolas aéreas mas perdendo outras, e só se tornava perigoso quando Bale conseguia espaço. Dois remates de longe da estrela galesa (aos 77’ e aos 80’), ambos defendidos por Rui Patrício, representaram o último estertor de uma equipa que saiu deste Europeu merecidamente aplaudida de pé pelos adeptos mas que não chegou para contrariar a superioridade técnica, tática e sobretudo estratégica de Portugal.