Último Passe 

Crédito: UEFA
2016-07-01
Clareza e competência no final depois de início tremido

Um aproveitamento de 100 por cento nas grandes penalidades, a somar a um penalti defendido por Rui Patrício, permitiu a Portugal carimbar o apuramento para as meias-finais do Europeu, depois de mais um empate – o quinto – da equipa de Fernando Santos nesta fase final. Desta vez, o futebol jogado saldou-se por uma igualdade a um golo: os polacos marcaram logo a abrir, por Lewandowski, tendo os portugueses empatado por Renato Sanches quando Fernando Santos transmitiu alguma clareza tática para dentro do campo, ainda na primeira parte. Cristiano Ronaldo ainda perdeu um par de situações claras para fazer o segundo, mas não vacilou quando se tratou de liderar a equipa no desempate. Aí, além do capitão, Renato Sanches, João Moutinho, Nani e Quaresma também fizeram golo nas suas tentativas, tendo Rui Patrício detido o remate de Blaszczykowski da definição do 5-3 final.

Sem Raphael Guerreiro e André Gomes, Fernando Santos colocou finalmente na relva o meio-campo que o país em peso vinha pedindo, mas nem por isso a equipa entrou bem no jogo. Com Wiliam Carvalho atrás de Renato Sanches, Adrien Silva e João Mário, Portugal passou meia-hora numa indefinição tática da qual ninguém se salvava. Ora Cristiano e Nani abriam nas alas deixando a João Mário a missão de aparecer como falso ponta-de-lança; ora o capitão ficava no meio e era Adrien quem mais dele se aproximava, baixando Nani; ora a equipa se aproximava de um 4x3x3 com Adrien e Renato por dentro e João Mário a abrir como extremo... As combinações ofensivas não saíam e, pior do que isso, defensivamente a equipa parecia adormecida. Para cúmulo, a Polónia marcou logo aos 2’, num lance em que alguns portugueses não ficaram isentos de culpas: Cédric falhou a interceção de um passe que encontrou Grosicki na esquerda, este ganhou posição na linha de fundo e, beneficiando de um movimento de Milik, que arrastou os dois centrais portugueses em direção à baliza, deu a bola para a finalização fácil de Lewandowski, que se adiantou a William Carvalho graças a uma melhor e mais rápida leitura do lance.

Estava dado o mote para uma meia-hora na qual, mesmo tendo experimentado visar a baliza de Fabianski algumas vezes, Portugal podia ter deitado o jogo a perder, tanta era a desconcentração que a equipa mostrava e que se revelava na perda sucessiva de passes. As melhores ocasiões neste período foram polacas, nelas se contando um remate de Milik ao lado (aos 15’) e uma defesa de Rui Patrício a novo tiro de Lewandowski (aos 17’), mas sobretudo uma troca de passes no lado esquerdo do ataque polaco que, mesmo sem ter criado sensação clara de golo, deixou os portugueses como se fossem meros pinos de treino. Por volta da meia-hora, porém, Fernando Santos parece ter esclarecido as coisas com a equipa. Corrigidas as posições em campo, tendo Portugal assumido um 4x1x3x2 mais clássico, com Renato na direita, João Mário na esquerda e Adrien perto de William, a equipa assentou o jogo. E ato contínuo chegou ao golo, numa bela tabela de Renato com Nani, que o jovem médio concluiu com um remate de pé esquerdo para o fundo da baliza polaca. Houve alguma fortuna na forma como o remate desviou em Krychowiak, fugindo do guarda-redes, mas Portugal encarregar-se-ia nos minutos seguintes de mostrar que merecia essa sorte.

Abriu-se aí a melhor fase portuguesa no jogo. E em condições normais esta podia mesmo ter dado origem à primeira vitória portuguesa em 90 minutos. O meio-campo funcionava na forma como era capaz de tirar a bola da zona de pressão polaca e conduzir a equipa a ataques rápidos, como aquele em que Ronaldo se isolou sobre a esquerda e, quando tinha João Mário do outro lado, de baliza aberta, optou por rematar em vez de lhe dar a bola para o que se adivinhava viesse a ser uma conclusão fácil. O remate do capitão, no entanto, acertou na rede lateral (aos 56’). O mesmo Ronaldo acertou mal numa bola já dentro da área (aos 60’), tendo Adrien chutado de ressaca contra um adversário. E até Cédric, num disparo de fora da área, esteve à beira de desempatar (aos 64’). O cansaço de alguns elementos pôs termo a esta boa fase de Portugal. O sinal veio num desvio de Milik, que Rui Patrício deteve com categoria (aos 69’) ou no cartão amarelo mostrado a Adrien pela forma como travou, em falta, um contra-ataque polaco (aos 70’). Mas mesmo com o jogo mais dividido, os portugueses podiam perfeitamente ter ganho. Primeiro num raide de Pepe em que, para evitar que a bola chegasse a Ronaldo, Glik quase fez autogolo (aos 81’). Depois, já em período de compensação, quando João Moutinho (que substituíra Adrien) descobriu mesmo Ronaldo atrás da linha defensiva polaca, mas o capitão luso não foi capaz de desviar o passe alto em direção da baliza do desamparado Fabiánski.

O prolongamento foi marcado mais pelo medo de perder do que pela vontade de ganhar. Portugal já tinha lançado Quaresma em vez de João Mário, fazendo-o o jogar pela direita e derivando Renato para a esquerda. Percebendo o cansaço de William, mais uma vez o que mais estava a correr entre os jogadores lusos, Fernando Santos trocou-o então por Danilo, de forma a evitar que essa fadiga se refletisse em falta de cobertura defensiva aos centrais na contenção dos dois pontas-de-lança que Nawalka mantinha em campo e de testar já a solução para a meia-final, uma vez que William viu um amarelo que o afasta do jogo. Ainda assim, com a Polónia a beneficiar nesta fase de alguma falta de agressividade portuguesa no ataque às sobras e a encaminhar o jogo para mais perto da baliza de Rui Patrício, a melhor ocasião de golo pertenceu a Portugal, quando Ronaldo voltou a não acertar bem na bola, desta vez após ficar em boa posição no seguimento de um cruzamento de Eliseu (aos 93’). A verdade é que ninguém desempatou o jogo e este se decidiu mesmo nas grandes penalidades. E aí, 100% de frieza e competência dos marcadores portugueses, tendo Rui Patrício assinado a única defesa do desempate, quando caiu para a sua esquerda para ir buscar o remate de Blaszczykowski. Quaresma não vacilou na hora de bater o penalti decisivo e apurou Portugal para a sétima meia-final do seu historial (já lá tinha estado nos Mundiais de 1966 e 2006 e nos Europeus de 1984, 2000, 2004 e 2012).