Último Passe 

Crédito: UEFA
2016-06-28
Islândia ganha porque sabe ao que joga

Quando a Islândia ganhou à Inglaterra logo saíram da multidão uns quantos “especialistas” a dizer, com um sorriso irónico: “ah, e tal, afinal Portugal até fez um grande resultado com os islandeses”. Pois bem: isso é mentira. Portugal tem muito melhor equipa do que a Islândia e devia ter ganho à Islândia. Tal como a Inglaterra, aliás. Não ganharam, nem uns nem outros, por várias razões, quase todas relacionadas com a realidade islandesa. Porque a Islândia pode ser um país pequeno, com recursos muito limitados, desde logo no campo de recrutamento, mas tem uma grande vantagem sobre outras nações mais poderosas: sabe ao que joga.

Portugal, já o escrevi aqui, não tem a certeza acerca disso. Vive dividido entre realidades, uma da mais pura megalomania, que manda que queiramos impor o nosso jogo a quem quer que seja, outra de uma pequenez irritante, que nos conduz para um jogo de submissão e cinismo. Estamos entre os dois mundos. A Inglaterra está no primeiro, mesmo que tenha uma equipa demasiado inexperiente para ter sucesso. Mesmo encerrando na sua ideia de jogo contrassensos demasiado poderosos para poder ter sucesso. Faz algum sentido, por exemplo, jogar com três avançados e um “10” à frente de Rooney, o que automaticamente, em nome do equilíbrio da equipa, afasta este também das zonas de finalização? Faz algum sentido, ainda, fazer uma arma da capacidade dos laterais Walker e Rose para correrem todo o corredor e cruzarem se depois se joga com um ponta-de-lança como Kane, que se notabiliza sobretudo pela forma como sai da área? Funciona no Tottenham? É verdade, mas o Tottenham joga na Premier League. E isto é o Europeu, onde há ideias diferentes. Como a da Islândia, por exemplo.

E qual é a ideia da Islândia? A Islândia é a equipa mais coerente que está neste Europeu. Tem noção das suas debilidades e do que tem de bom. Sabe que não tem malabaristas, nem super-criativos, nem dribladores, que tem problemas até numa troca rápida de passes. Sabe também que é quase imbatível no ataque às bolas aéreas e na agressividade com que chega às segundas bolas que delas resultam. E não é preciso ser um génio de estratégia futebolística para se perceber como se deve jogar nestas condições: equipa junta atrás, duas linhas bem fechadas, bola longa para Sigthorsson e aposta na capacidade de Bodvarsson, Sigurdsson e Gunarsson para recomeçarem o processo mais à frente. Por fim, investimento total nas bolas paradas ofensivas. É minimal? Claro que sim. A Islândia nunca ganharia o prémio para a equipa com o futebol mais elaborado da competição, mas a verdade é que também nunca pensou sequer em concorrer.

Aqui chegados, é preciso reconhecer que, em condições normais, isto não chegaria. Afinal de contas a Islândia jogou sempre assim e nunca tinha sequer atingido uma fase final, quanto mais uns quartos-de-final, ganhando de caminho à Áustria e à Inglaterra (e eliminando a Holanda na fase de qualificação). É aqui que entra em grande força o trabalho de base. Fartos de serem os bombos da festa, os responsáveis pelo futebol na Islândia perceberam que o maior problema que tinham, maior mesmo que as limitações no campo de recrutamento, era a incapacidade para treinar e desenvolver jogadores. Pois se em oito de cada doze meses não se consegue jogar futebol, porque os campos estão gelados, como podem aparecer jogadores? No ano 2000, a Islândia começou a construir pavilhões gigantes, com campos de futebol de relva artificial lá dentro. Até a mais pequena aldeia piscatória tem um, o que permite aos miúdos locais jogar e treinar durante todo o ano em vez de fugirem para modalidades mas de acordo com o meio-ambiente. Depois, o país investiu muito em formação: tem hoje 600 treinadores de elite, um a cada 550 habitantes.

Por fim, foi só esperar. A Islândia vai provavelmente perder o jogo dos quartos-de-final com a França, mas a aventura que a trouxe até aqui já terá valido a pena, pela forma como alegrou tanta gente na ilha. E embora eles gostem de alimentar o mito de que só aqui chegaram porque são loucos, porque têm a atitude temerária dos vikings, há muito mais a justificar o que está a suceder. Trabalho e coerência, que se reflete em inteligência competitiva. Eis o segredo da Islândia.