Último Passe 

2016-06-23
Ronaldo decisivo salva equipa que ainda não convence

Uma exibição decisiva de Ronaldo, que tal como há quatro anos apareceu no Campeonato da Europa à terceira jornada, chegou a Portugal para empatar a três bolas com a Hungria e apurar-se para os oitavos-de-final do Euro’2016, onde a seleção nacional vai defrontar a Croácia. Autor de dois golos de grande execução e de uma assistência para o primeiro dos três tentos portugueses, marcado por Nani, Ronaldo fez a diferença numa tarde em que os portugueses puderam ainda ver os efeitos da sociedade entre João Mário e Renato Sanches a carrilar jogo para o meio-campo adversário, mas na qual a Fernando Santos terá sobrado uma dúvida: como poderá ter os dois miúdos ao mesmo tempo e não sofrer defensivamente? Na resolução desse dilema estará a chave de um Europeu no qual Portugal ainda não convenceu ninguém, mas onde teve a felicidade de calhar na metade certa do quadro, assegurando que só defrontará Espanha, Itália, Alemanha, França ou Inglaterra se chegar à final.

Pode parecer uma loucura estar a falar de final quando a seleção nacional teve de sofrer até para ser terceira classificada num grupo que apurou diretamente a Hungria e a Islândia. Ou quando ainda não ganhou uma única das três partidas que fez. No último dia do Grupo F, porém, o jogo foi mesmo de loucos. Mesmo antecipadamente apurada, a Hungria só desistiu de tentar ganhar nos últimos 20 minutos, quando se centrou mais na vontade de acabar o grupo como primeira classificada e fugir também aos favoritos. A precisar de ganhar para ser primeiro, mas sabendo que o empate lhe dava sempre a qualificação, Portugal também só resolveu meter o jogo no bolso nos últimos dez minutos, quando Fernando Santos substituiu Nani por Danilo, na tentativa de evitar uma surpresa desagradável. É que um quatro golo da Hungria mandava a equipa nacional para casa e, além de os dois golos que os húngaros fizeram na segunda parte já terem saído de livres com desvio na barreira, Rui Patrício ainda viu uma bola tabelar-lhe no poste direito que bem podia ter forçado a equipa a recuperar por uma quarta vez.

É que a história do jogo mostrou sempre a Hungria na frente e Portugal a ter de recuperar e depois a ver o seu ímpeto destruído por mais um golo húngaro. Enquanto Bernd Storck resolveu poupar os titulares que já tinham visto um cartão amarelo, assegurando dessa forma que os teria no jogo dos oitavos-de-final, Fernando Santos entrou perto daquela que tem sido para ele a equipa de gala. A exceção era a ausência de Raphael Guerreiro, que, lesionado, dava o lugar a Eliseu. André Gomes mantinha a vaga na esquerda de um meio-campo que, com a reentrada de João Mário para o lugar que tinha sido de Quaresma no jogo com a Áustria, regressava aos quatro elementos, enviando a equipa para o 4x4x2. O problema é que André Gomes pareceu limitado e nunca produziu tanto como nos primeiros jogos e William também baixou a sua influência, condenando Portugal a um jogo atacante mais lento – a isso não terá sido estranho o intenso calor de Lyon – e previsível. Daí que, apesar do domínio territorial português, não aparecessem ocasiões de golo na baliza de Kiraly. Portugal quase se limitava a rondar a área, a ganhar cantos e a chutar de fora da área. E foi a Hungria quem marcou primeiro, aos 19’, por Gera, na sequência de um canto de Dzsudzsak: Ronaldo cortou no ar, Nani completou o alívio para a entrada da área portuguesa, onde o médio húngaro apareceu a chutar sem hipóteses para Rui Patrício.

O golo húngaro afetou a produtividade da equipa portuguesa, que levou uns minutos a reentrar no jogo. A reação começou num livre de Ronaldo, que Kiraly teve de se esforçar para desviar para canto, aos 29’, mas só teve continuidade já bem perto do intervalo, quando o mesmo Ronaldo solicitou uma diagonal de Nani e este bateu Kiraly com um remate seco para o ângulo mais próximo. Com 45 minutos por jogar, Fernando Santos decidiu assumir o risco de ir à procura da vitória que garantisse o primeiro lugar do grupo e trocou Moutinho por Renato Sanches, mas antes que a alteração pudesse ter efeito, a Hungria voltou a marcar. Dzsudzsak bateu um livre perto da área, a bola desviou em André Gomes e traiu Rui Patrício, deixando Portugal outra vez fora dos oitavos-de-final. A reação portuguesa, desta vez, foi mais rápida. Três minutos depois, aos 50’, João Mário arrancou pela direita e cruzou para o ataque de Ronaldo à bola. Lang acompanhou bem o capitão português e ter-lhe-ia blocado o remate não tivesse Ronaldo inventado uma solução genial: deixou a bola passar e deu-lhe com o calcanhar do pé direito, deixando Kiraly colado ao solo. A espetacularidade do golo, somada à forma como João Mário e Renato Sanches combinavam na direita, parecia poder carregar a seleção para a vitória. Só que, cinco minutos depois, deu-se mais um episódio da Lei de Murphy: Dzsudzsak voltou a ter um livre, desta vez chutou contra a barreira, mas recuperou o ressalto e deu-lhe com alma, fazendo a bola resvalar em Ricardo Carvalho e trair o desamparado Rui Patrício.

O 3-2 anulava o efeito do golo de Ronaldo e da substituição e deixava Portugal outra vez a precisar de recuperar. Fernando Santos chamou então Quaresma, para o lugar do fatigado André Gomes e, com o segundo toque na bola – o primeiro tinha sido para marcar o canto – Quaresma cruzou para o bis de Ronaldo, desta vez de cabeça. Faltava meia-hora para o final da partida e Portugal lançou-se à procura da vitória. A ocasião mais flagrante de golo, porém, pertenceu à Hungria, quando Elek se isolou pela esquerda e chutou violentamente contra o poste da baliza de Rui Patrício. Se antes tivera azar na forma como sofreu os dois golos, desta vez a equipa nacional foi sortuda por não ter de procurar a recuperação por uma quarta vez. A jogar em 4x3x3, com Renato Sanches e João Mário à frente de William, e com Quaresma e Nani a ladear Ronaldo na frente, Portugal apresentava o seu onze mais ofensivo imaginável. O empate no outro jogo mandava os portugueses para o segundo lugar e a metade errada do quadro do sorteio e por isso a equipa ainda procurava o quarto golo. Ronaldo esteve por duas vezes perto do hat-trick, mas o que se via também era alguma tremedeira sempre que a Hungria subia até ao ataque. Por isso, mesmo já com os húngaros a jogar com uma linha de cinco atrás, Fernando Santos resolveu tapar o jogo à frente da sua área e substituir Nani por Danilo a nove minutos do fim.

O jogo acabou com os húngaros a recusarem sair para o meio-campo adversário e com a notícia do golo islandês na outra partida, a chutar Portugal do segundo para o terceiro lugar e para a metade mais desejada do quadro. Fernando Santos terá gostado do envolvimento atacante que a equipa conseguiu na segunda parte, com a associação de João Mário a Renato Sanches, mas não pode ter ficado satisfeito com os buracos que a equipa abriu a defender. A solução para o jogo com a Croácia terá de ser outra, provavelmente com Renato e João Mário nas alas, sacrificando André Gomes, e João Moutinho ou até Adrien à frente de William (caso o selecionador desista de recuperar Moutinho, como a substituição ao intervalo pode fazer prenunciar). Dúvidas haverá também acerca da condição de Ricardo Carvalho para um jogo que terá lugar já daqui a três dias – ele que já pareceu menos seguro hoje – como na lateral-esquerda, onde Eliseu não fez esquecer Raphael Guerreiro. O tempo para pensar e recuperar não é muito, mas uma coisa é certa: a Croácia é forte e será preciso muito mais Portugal do que o que se viu na primeira fase para seguir em frente.