Último Passe 

2016-06-14
Pouco Ronaldo e meio-campo geram falsa partida

Pouco Ronaldo, um meio-campo incapaz de entrar nas linhas do adversário, a incapacidade para ganhar uma bola aérea que fosse a Sigthórsson e falta de concentração e agressividade no ataque às segundas bolas levaram Portugal a uma falsa partida no Europeu de 2016. O empate com a Islândia, fruto de um golo de Nani e de outro de Birkir Bjarnason, não é grave, porque ainda há mais duas jornadas para trabalhar para a qualificação, mas veio deixar a nu algumas carências da equipa de Fernando Santos. A emendar já frente à Áustria, em Paris, num jogo que até face à derrota dos austríacos, de repente ganhou preponderância.

A questão Ronaldo não é das fáceis de resolver, porque não se trata de o trocar ou de o fazer jogar noutras funções. Ronaldo não jogou mal, simplesmente não fez a diferença: não conseguiu fazer uma arrancada imparável, não fez golo nos dois cabeceamentos perigosos de que dispôs nem nos livres que marcou. Fez um jogo de esforço, de entrega, mas sem brilho, com exceção talvez do lance em que, ainda com 0-0, trabalhou em cima de Saevarsson e cruzou para um remate de cabeça de Nani que o guarda-redes Halldórsson deteve. E isso o selecionador não só tem de aceitar como por certo o aceitará até melhor que o próprio Ronaldo. Mesmo estando sempre em jogo, o capitão português não só não assinalou o dia em que igualou as 127 internacionalizações recorde de Figo com uma vitória, como viu Nani suplantá-lo na luta pelo título de melhor em campo. O autor do golo português respondeu da melhor forma à oportunidade que Fernando Santos voltou a dar-lhe face à lesão de Quaresma e foi quem mais perto esteve de ampliar a marca, pelo que dificilmente perderá o lugar frente à Áustria.

Já quanto à incapacidade do meio-campo entrar nas linhas islandesas haverá certamente algo a fazer, tanto do ponto de vista tático como até da mudança de elementos. É verdade que a Islândia, até por força do futebol direto que praticava, pouco ou nada se desposicionava: no final, os portugueses tentaram 617 passes, contra 221 do adversário, o que significa que se empenhavam em combinações e jogadas de envolvimento, enquanto a Islândia se limitava a jogar direto em Sigthórsson, subindo depois como um bloco de concreto para atacar as sobras. A questão é que se a primeira bola, a que ia para o gigante número 9 do adversário, era inatingível – creio que ele terá ganho todas as bolas aéreas que disputou –, a segunda já não dependia de estatura: dependia de concentração e agressividade. E aí nem os quatro defesas de Portugal, nem Danilo – que Santos preferiu a William Carvalho, por dar mais capacidade no jogo aéreo e combatividade no ataque às segundas bolas – souberam impor-se aos islandeses.

Mesmo tendo feito uma primeira parte de nível médio-alto, Portugal nunca contou com todos os jogadores ao mesmo nível. O melhor período da equipa começou logo a seguir a uma primeira desatenção defensiva, aos 3’: Vieirinha estava projetado no ataque, Pepe foi disputar uma bola perto da linha lateral na zona de meio-campo sem a ganhar, o mesmo aconteceu a Danilo face a Gudmundsson já perto do bico da área, tendo que ser Rui Patrício a impedir que a Islândia fizesse logo ali um golo. A partir daí, porém, mesmo sem ter os dois laterais em noite-sim Portugal assentou o seu jogo. É verdade que Moutinho, não conseguia ganhar as costas a Gunnarsson e Sigurdsson, os dois médios-centro islandeses, e que João Mário, demasiado aberto na esquerda, também não era capaz de ganhar aquele espaço interior, mas os lances mais perigosos passaram a surgir na baliza islandesa. Nani, de cabeça, após o tal trabalho individual de Ronaldo, viu Haldorsson tirar-lhe o golo aos 21’; Ronaldo, também de cabeça, falhou o alvo aos 23’ e não acertou sequer na bola aos 26’, quando Pepe viu a aberta e o isolou face ao guarda-redes num passe longo. E quando Nani marcou, aos 31’, na sequência de uma boa combinação entre Vieirinha e André Gomes na direita, o problema parecia resolvido. Mas não.

O intervalo voltou a trazer a desconcentração à defesa portuguesa e, logo aos 50’, duas divididas seguidas perdidas pelos portugueses na direita do ataque islandês resultaram num cruzamento de Gudmundsson. O desentendimento entre Pepe – que seguiu Sigthorson – e Vieirinha, que estava demasiado dentro e não intercetou a bola, resultou num volei de Bjarnasson para dentro da baliza de Patrício. João Mário começava a entrar no jogo e a ativar as subidas de Raphael Guerreiro, mas apesar de voltar a ter quase sempre a bola, Portugal não conseguia criar tantos lances de perigo como na primeira parte. Só aos 63’, quando Vieirinha ganhou a linha de fundo e cruzou rasteiro, Nani esteve perto de marcar, não chegando a conseguir antecipar-se a Ragnar Sigurdsson no ataque à bola. Oito minutos depois, já com Renato Sanches em campo, na tentativa de ocupar o tal espaço entre as linhas defensivas islandesas, foi outra vez Nani quem, desviando de cabeça um livre, fez a bola passar a centímetros do poste.

À procura do golo, Santos chamou então Quaresma para ocupar o lugar de João Mário. Até final ainda substituiu André Gomes por Éder, colocando a equipa num 4x2x4, com Ronaldo e Éder ao meio, servidos por Nani e Quaresma nas alas. Mas nem assim, nem com a Islândia a abdicar até de jogar no ponta-de-lança, Portugal chegou ao golo. Quaresma (aos 78’), Pepe (após um canto, aos 82’) e Ronaldo (na sequência de um cruzamento de Nani, aos 85’) ainda ameaçaram, mas o empate já não se desfez, punindo o jogo menos conseguido do meio-campo português e algumas apostas perdidas: Danilo nunca impediu a construção direta da Islândia e pode ceder a vaga a William, que faz a equipa jogar mais; Moutinho e João Mário apareceram pouco entre as linhas islandesas e também não têm o lugar assegurado. Certo é que se Fernando Santos optar por chamar Quaresma à partida de Paris, o sacrificado não será certamente Nani, o melhor dos portugueses em Saint-Etiènne.