Último Passe 

Crédito: FPF
2016-06-14
A correção de Santos e o negócio da UEFA

Quando alguém perguntou a Fernando Santos se já sabia o onze que ia colocar em jogo frente à Islândia, o selecionador nacional disse que sim. Depois de um par de segundos de pausa, corrigiu: “Quer dizer… Mais ou menos”. Mesmo que Santos a tenha justificado com o facto de ainda ter um treino pela frente, a blague diz-nos sobretudo uma coisa: que não há dúvidas na cabeça do técnico acerca da utilização de Quaresma. Ou tudo não passa de bluff, no que sinceramente não acredito, ou o facto de este ser apenas o primeiro jogo da fase final e de face às facilidades crescentes de apuramento – passam dois, eventualmente três – levará Santos a fugir do risco que ponderaria assumir se tudo se decidisse nestes 90 minutos. Sem Quaresma – é mais avisado pensar assim – reentra no onze Nani, que não oferece à equipa o brilhantismo individual do atacante do Besiktas mas até é coletiva e taticamente mais fiável. Foi com Nani e Ronaldo que o esquema dos dois atacantes móveis melhor funcionou, nos jogos com a Bulgária e a Bélgica, ainda que seja legítimo que se diga que este já não é o Nani de Março. Porque está em pior momento de forma e também porque a perda do lugar na hierarquia pode ter deixado mazelas psicológicas num jogador que, ainda por cima, é mais frágil mentalmente que o sempre crente Quaresma. A Nani resta pensar uma coisa como fator motivacional: nem sempre se tem uma segunda oportunidade de causar uma boa primeira impressão e ele vai tê-la.

 

Em St. Etiènne para ver o Euro? Cheguei hoje a St. Etiènne e estive já no Geuffroy-Guichard, um estádio que estava no meu imaginário desde que, em criança, quando começaram a chegar a Portugal as primeiras revistas Onze (assim mesmo, sem o sufixo Mondial), imaginava como jogaria a equipa de Robert Herbin, dito a “Esfinge”. O primeiro dia em França foi também o primeiro dia em que não vi um único jogo do Europeu. Entre a viagem, os procedimentos burocráticos para a recolha da acreditação, as conferências de imprensa de Lars Lagerback e Fernando Santos e a necessidade de sair para jantar, foram-se as três partidas do dia. Isto não é novidade para mim, ainda que fosse bem diferente há 24 anos, quando acompanhei no local o meu primeiro Europeu. Em 1992, na Suécia, havia só oito equipas, muito menos jornalistas, maior espaçamento entre os jogos e muito menos confusão para se chegar perto dos jogadores e treinadores, aos quais hoje só se chega por interposta pessoa e depois de recolher senhas para isto e passes para aquilo. Não é um lamento, é uma constatação. Quanto ao futebol, pelo resumo pareceu-me que a Espanha jogou bem e talvez seja mais favorita do que eu esperava. E que a Itália, sendo uma máquina terrivelmente concreta, é tão favorita como eu presumia – nunca se deve riscar uma seleção italiana enquanto ela não se riscar a si mesma. E, por fim, que a Bélgica é tão pouco favorita como eu calculava. Ainda que, pelo que pude ir vendo nas vezes que espreitei para o ecrã gigante no meio da confusão do restaurante em que jantei, se Marc Wilmots de repente conseguir pensar um pouco fora da caixa aquela equipa tem muito para melhorar.

 

E os golos que não aparecem. O Europeu tem trazido grandes golos, mas poucos golos. O resultado mais frequente é o 1-0. Reflexos de um futebol cada vez mais defensivo? Também. Mas a minha teoria é outra. É reflexo, sim, de uma preocupação excessiva da UEFA com o peso do negócio. É verdade que o alargamento da fase final para 24 países permitiu a chegada a França de mais equipas sem tanta qualidade, abrindo a porta às goleadas. Mas o facto de 16 dessas 24 equipas passarem à fase seguinte faz com que muitas das grandes nações do futebol encarem os primeiros jogos como mero aquecimento para um Europeu que, na realidade, só começa daqui a pouco mais de uma semana: há jogadores a meio-gás, outros a ganhar ritmo. A UEFA consegue assim manter mais gente ligada durante mais tempo à competição, faz crescer as audiências globais, o dinheiro gasto em tudo aquilo que anda à volta do futebol, mas está a tornar esta primeira fase um deserto em termos atacantes.