Último Passe 

2016-06-01
Nuno agradece mas espera que Figo se engane

A apresentação de Nuno Espírito Santo como treinador do FC Porto podia dividir o público entre aqueles que lhe são indiferentes e os que vão pela enésima vez levantar um cenário de exigência máxima segundo o qual esta será – mais uma vez – a última oportunidade de Pinto da Costa para devolver o clube aos tempos de vitória. Neste aspeto, Figo deu uma ajuda. Se o novo treinador dos dragões pudesse escolher um presente para o dia do regresso, certamente não pediria nada diferente, pois o que o antigo Bola de Ouro disse veio transferir toda a pressão que ele podia sentir para cima do presidente.

Não é nada habitual ver alguém do futebol falar de forma tão desassombrada sobre outro agente do meio como Figo fez em relação a Pinto da Costa. Neste momento não é sequer importante tentar descobrir uma agenda nas palavras de Figo, ainda que certamente vá haver quem prefira centrar-se na ideia de que ele estava a ser uma mera correia de transmissão ou a repetir palavras que teria ouvido a amigos portistas – e também não é difícil perceber quais. Porque, na verdade, como depois disse o presidente portista, Figo “não faz parte da história do FC Porto” e, francamente, não vejo razão para de repente começar a ter opiniões sobre o que se passa no clube… A não ser o facto de lhe terem perguntado ou ainda outro – também nada despiciendo – de ter no futebol mundial um estatuto que o deixa indiferente ao que dele possam pensar os adeptos deste ou daquele clube. Figo está acima disso tudo. Não é inimputável mas está-se marimbando.

A questão é que Figo se limitou a repetir em voz alta aquilo que há anos dizem os adversários do FC Porto e do seu presidente. A teoria segundo a qual Pinto da Costa devia abandonar porque estava a ficar velho já data do início do século, desde que os erros cometidos com Otávio Machado depois dos campeonatos perdidos com Fernando Santos foram emendados pela aposta visionária em José Mourinho. A diferença é que hoje começa a haver portistas a dizer a mesma coisa, a centrar-se nas lutas internas em torno dos jogos de influências na SAD. E isso faz toda a diferença em relação ao último período de três épocas seguidas dos dragões sem ganharem um campeonato (de 2000 a 2002). A pressão mediática de ter de acabar com este período negro, sob pena de estarmos perante a evidência de um fim de ciclo hegemónico, estava em cima de Nuno Espírito Santo até Figo a transferir para Pinto da Costa.

O novo treinador podia até agradecer. Mas no fundo ansiará por que Figo esteja enganado. Porque na verdade o que depende dele é muito menos do que se pensa – e aí têm razão os indiferentes. Como estão as coisas, o FC Porto precisa sobretudo de acertar plenamente nos retoques que vai fazer no plantel e isso só será possível se o mercado for conduzido a pensar mais na equipa e menos no poder de cada um. Ao contrário do que tem sucedido, portanto.