Último Passe 

2016-05-31
Citius, altius, fortius? Ditius! Mais rico!

Citius, altius, fortius! Há alguma coisa na vida de um atleta que seja mais importante do que uns Jogos Olímpicos? Aparentemente não, a não ser que estejamos a falar de futebol. E a razão para esta diferença pode custar muito a muita gente, mas está na cara de quem quer vê-la: é que os Jogos Olímpicos são importantes sobretudo na medida em que garantem contratos milionários a quem leva medalhas de ouro para casa. Citius, altius, fortius? Ditius! Quem é como quem diz: mais rápido, mais alto, mais forte? Mais rico! É por isso que andarmos agora a carpir desgostos porque a seleção olímpica de futebol vai viajar para o Rio de Janeiro sem boa parte das suas estrelas soa tanto a hipocrisia.

A grande diferença entre o futebol e a generalidade das outras modalidades é que no futebol quem vai aos Jogo Olímpicos são os sub23. Cada seleção pode até reforçar aquela categoria etária com um trio de estrelas, mas o que vai jogar-se não deixa de ser um torneio que não é bem um Mundial de sub20 ou um Europeu de sub21, mas também não é um Mundial absoluto. Se o atletismo tem os seus campeonatos do Mundo e depois, de quatro em quatro anos, os Jogos Olímpicos, para celebrar os melhores, o futebol optou por uma via diferente. Porquê? Para não estragar o negócio que é o Mundial, um dos poucos eventos com mais visibilidade planetária do que os próprios Jogos Olímpicos. A FIFA, portanto, nunca quis dar ao Comité Olímpico Internacional a possibilidade de organizar um torneio verdadeiramente importante e o desprezo a que vota os Jogos Olímpicos vai ao ponto de nem sequer ter colocado as datas do torneio de 2016 na sua calendarização. O que no imediato vem provocar um conflito entre os que levam o olimpismo a sério e os que, olhando para a realidade, percebem que mais importante é um qualquer Benfica-V. Setúbal, um Tondela-FC Porto ou um Sporting-Chaves que venha a jogar-se naquele período.

O torneio olímpico de futebol começa, para os homens, a 4 de Agosto. Três dias depois joga-se a Supertaça entre Benfica e Sp. Braga. A 12 deve começar o campeonato nacional. A 16/17, o FC Porto terá a primeira mão da decisiva pré-eliminatória da Liga dos Campeões, jogando a segunda a 23 ou 24. E a 20, horas antes de no Rio se jogar pela medalha de ouro, os clubes portugueses estarão envolvidos na segunda jornada da Liga. Como a FIFA não incluiu os Jogos Olímpicos no calendário oficial, nenhum clube será obrigado a ceder jogadores, havendo neste momento na Federação Portuguesa de Futebol a ideia de chamar um lote restrito de cada clube, provavelmente nem os que mais jeito dariam à equipa, mas aqueles que os clubes não se importarão de ceder. Olhemos para o onze que esteve na final do último Europeu de sub21: José Sá; Esgaio, Illori, Paulo Oliveira e Guerreiro; William, Sérgio Oliveira e João Mário; Cavaleiro, Bernardo Silva e Ricardo. Agora juntemos-lhes nomes que nessa tarde estavam no banco, como Rafa, Iuri Medeiros, Cancelo, Ruben Neves ou Carlos Mané. E ainda valores entretanto revelados, mais jovens e por isso dentro da idade regulamentar, como Renato Sanches ou André Silva. Uma super-seleção, mesmo sem contar com a possibilidade de reforço com os tais jogadores extra-contingente sub23.

Neste momento, Rui Jorge não pode saber muito bem quem vai ter ou o que vai fazer quando tiver que convocar os homens que leva aos Jogos. Porque o trabalho fundamental não será dele, mas sim das relações públicas da FPF, dos dirigentes que hão-de conversar. O percurso desta equipa merecia outro tratamento, mas não é dos clubes portugueses. É da FIFA, que continua a não saber fazer uma coisa tão simples como um calendário.