Último Passe 

2016-05-29
Vitória do génio sobre a organização

O resultado foi bom, a exibição não foi má, mas Portugal precisa de melhorar mais do que os 3-0 à Noruega deixam antever para poder fazer um Campeonato da Europa de grande nível. É verdade que faltaram Ronaldo, Nani e Pepe, mas a Noruega, que nem é um dos 24 qualificados para a fase final, ainda chegou para dividir o jogo com os portugueses durante uma boa meia-hora e para deixar a pairar no ar o espectro de um empate que só um livre superiormente executado por Raphael Guerreiro veio extinguir. Quaresma e Éder fizeram os outros dois golos de um ensaio que, pelo menos, permitirá seguir a preparação com tranquilidade e que, além disso, terá levado Fernando Santos a algumas conclusões. Umas mais satisfatórias do que as outras.

As boas primeiro? Danilo pode perfeitamente quebrar o galho como defesa-central, posição que ocupou na última meia-hora, em vez de Ricardo Carvalho, acertando sempre no tempo de entrada aos lances. João Mário continua a respirar classe e vai mesmo lançado para um excelente Europeu, como se percebeu no modo como serpenteava entre os adversários a criar desequilíbrios na direita. Anthony Lopes é uma alternativa muito credível a Rui Patrício nas redes e isso viu-se no modo como tirou a King o que podia ter sido o golo do empate, ainda na primeira parte. Adrien entrou bem, a dar dinâmica a um meio-campo que se tinha deixado adormecer pelo jogo pausado e depois direto dos noruegueses. Guerreiro bate bem livres e Quaresma é um génio, mesmo quando faz o contrário do que está no plano de jogo. Porque o primeiro golo português nasce tanto da inspiração do extremo do Besiktas como da constatação de que com ele é difícil pôr em prática a estratégia dos dois avançados móveis e mesmo assim ter gente na área.

Durante a transmissão televisiva lembrei-me da velha história de José Maria Pedroto, que um dia, num jogo do FC Porto, teria gritado a António Oliveira para que este soltasse a bola e, tendo este prosseguido com a jogada individual e feito golo, terá depois balbuciado algo como: “também está bem”. O lance do 1-0 de Portugal foi igual. Combinação entre João Mário e Cédric na direita e cruzamento para a área onde, face à tendência de Quaresma para abrir no flanco oposto, só estava Éder e chegava André Gomes. Os noruegueses repeliram a bola, esta chegou ao flanco oposto, onde Quaresma lhe pegou, saiu da frente de um defesa e chutou em arco para um golo de bandeira. Foi a vitória da inspiração sobre a organização e o prémio para 13 minutos de bom nível, nos quais Portugal teve quase sempre a bola e esteve bem, tanto em ataque posicional como, sobretudo, na pressão defensiva que permitia recuperar muitas vezes a iniciativa ainda bem dentro do meio-campo da Noruega. Instantes depois, Éder teve nos pés a oportunidade para o 2-0, mas como o avançado do Lille falhou o golo, o jogo entrou numa fase de indefinição e até de alguma supremacia norueguesa.

Os nórdicos começaram tímidos, sobretudo a explorar a profundidade dada pela velocidade de King ou a estampa física de Berisha, a sair da direita para o meio, mas na segunda parte aproveitaram o retraimento português para se assenhorearem do jogo, estando de forma consolidada mais perto do empate. Notou-se aí que João Moutinho está sem ritmo, não espantando que tenha sido o primeiro a sair quando Fernando Santos resolveu mexer. Com Adrien, o meio-campo de Portugal ganhou amplitude e foi numa falta ganha pelo médio à entrada da área e superiormente convertida por Raphael Guerreiro com um remate ao ângulo que, aos 65’, a seleção pôs termo à indefinição. Aos 2-0, os noruegueses desistiram e os portugueses descansaram. Fizeram ainda o terceiro golo, por Éder, a responder cinco minutos depois a mais uma combinação entre Cédric e João Mário com um remate na cara do guarda-redes. E até final o jogo não teve muitos motivos de interesse a não ser a avaliação do que Renato Sanches pode dar à equipa a partir de uma ala. O médio que o Benfica transferiu para o Bayern fez os últimos 18 minutos em vez de João Mário, sobre a meia-direita, e embora fique a sensação de que a meia-esquerda lhe convém mais, até pode lutar por um lugar de médio-ala com André Gomes, desde que aprenda taticamente as necessidades da posição.