Último Passe 

2016-05-11
Mitos, verdades e opiniões acerca de Renato Sanches

Um mérito ninguém tira a Renato Sanches: polarizou o país. Digam o que disserem acerca dele, ninguém lhe fica indiferente. Os benfiquistas acham que acima dele só estará Eusébio, mas os sportinguistas e os portistas – num fenómeno que, tal como a adoração benfiquista, também terá a sua explicação na área da psicanálise – não lhe descobrem sequer nível para jogar no Águias da Musgueira. Diga-se o que se disser, isso já é uma proeza. A transferência para o Bayern trouxe à tona uma série de mitos e de verdades acerca do “Bulo”. Vamos a eles.

Renato Sanches passa mal a bola – Não é verdade. Se há coisa que Renato Sanches faz bem é atacar. Com bola, no jeito “selvagem” que lhe identificou Rui Vitória, é extraordinário. Qualquer um é capaz de lhe ver a capacidade de explosão, a mudança de ritmo e de velocidade, que lhe permite queimar linhas em posse. Mas basta recorrer às estatísticas dos dois jogos com o Bayern – para não haver conversas acerca da sobre-valorização por parte da imprensa portuguesa ou da proteção feita pelos árbitros nacionais – para perceber que Renato não só tem uma excelente percentagem de acerto nos passes, como arrisca nos seus destinatários. Em Munique, acertou 20 dos 22 passes que tentou (91%) e o principal destinatário desses passes foi Jonas (seis passes). O jogo da segunda mão, na Luz, já lhe correu um pouco pior, com 19 passes certos em 24 (71%), mas isso terá tido sobretudo a ver com a ausência de Jonas, o que levou a que o jovem perdesse a sua principal referência de passe, entregando mais bolas a Fejsa (quatro passes).

Renato Sanches só dá porrada – Também não é verdade. É um jogador agressivo, sim senhores. Talvez até lhe tenham ficado a dever alguns cartões no campeonato nacional, sobretudo à conta da exuberância própria da juventude e das suas características. Mas não é um jogador especialmente faltoso. Recorramos de novo às estatísticas dos jogos com o Bayern, na Liga dos Campeões. Foram zero faltas cometidas na primeira mão, em Munique, e uma na segunda mão, na Luz. Uma falta em 180 minutos. E sem árbitros nomeados por Vítor Pereira.

Renato Sanches é o melhor médio do campeonato português – Outro mito. Não é. Renato Sanches foi fulcral na recuperação do Benfica, que sem ele não estaria em condições de ser campeão nacional. Mas não é ainda um jogador completo, sobretudo do ponto de vista tático. Sai muito da posição e, se é certo que os comportamentos sem bola não são alvo de escrutínio por parte dos adeptos comuns – que, sobretudo na TV, só olham para quem tem a bola nos pés – eles constituem 95% das ações de um futebolista. E Renato, nesse aspeto, é um risco defensivo, sobretudo para uma equipa que joga apenas com dois médios na zona central. Precisa de melhorar no jogo posicional, precisa de compreender melhor as necessidades da equipa do ponto de vista defensivo – e para isso Ancelotti pode ser de uma utilidade extrema – e se teve o sucesso que teve na Liga portuguesa isso fica a dever-se à fragilidade e à incapacidade da maior parte das equipas. Numa Liga mais competitiva, para aquela posição, escolheria primeiro Adrien Silva. Porque tem mais oito anos de experiência.

Renato Sanches deve ser titular da seleção – Não vejo como. Num enquadramento competitivo mais exigente, como será o do Campeonato da Europa, sobretudo se Fernando Santos decidir jogar em 4x4x2, Portugal não pode arriscar-se a jogar com Renato Sanches na zona central, correndo risco de ficar defensivamente exposto com frequência. O lugar é de João Moutinho e, se não for dele, será de Adrien. Renato pode aparecer como terceira opção, para jogos em que seja preciso atacar e não se preveja grande exigência defensiva ou para jogos em que o treinador opte por jogar com três ao meio. Essa, aliás, é a decisão fulcral na convocatória de Fernando Santos, porque se quer jogar em 4x4x2 vai precisar de quem seja capaz de jogar tanto ao meio como numa das alas – e André Gomes, ao contrário de Renato Sanches, pode fazê-lo. Sendo que só pelo sacrifício de um defesa central ou do ponta-de-lança haverá lugar para os dois.

Renato Sanches está sobrevalorizado – Não está. Porque quem compra está a pagar o que ele vale agora e também o que ele pode valer no futuro. Numa avaliação puramente subjetiva, eu diria que, neste momento, Renato valerá entre os 15 e os 20 milhões de euros. Mas nestas coisas paga-se o potencial. Quem mostra o que Renato mostra aos 18 anos, poderá mostrar muito mais quando tiver 23, 24 ou 25, porque agora vai ser submetido a treino de altíssimo rendimento e terá de crescer para continuar a jogar. Extremamente sobrevalorizados foram jogadores como João Cancelo, Ivan Cavaleiro e até, pelo que já tinham mostrado na altura, Bernardo Silva e André Gomes. Mas esses saíram para clubes do circuito-Gestifute (Valência e Mónaco). Com o Bayern, com o rigor e a exigência alemãs, as coisas mudam de figura. E não serve de nada aos “haters” irem agora para a página de Facebook do Bayern dizer que há melhor lá na rua deles. Isso é mesmo para ser levado a sério?

Renato Sanches tem a idade aldrabada – Duvido. Mas também não é particularmente importante para o caso, a não ser para estabelecer o preço ou punir legalmente que tenha cometido a ilegalidade (e isso pode sempre correr à margem da discussão presente). Claro que isso só pode ser definido com testes, mas olha-se para a cara dele e vê-se um miúdo. Não tenho dificuldade em acreditar que tem mesmo os 18 anos que apresenta no BI, mas repito: o Bayern contratou-o para jogar nos seniores e tendo em conta o que ele mostra em campo hoje. Claro que os alemães esperarão que Renato melhore e essa margem de progressão dependerá em muito da idade que ele tem neste momento. Mas ninguém paga 35 milhões de euros por uma esperança se não lhe vir condições para ser uma certeza no imediato.