Último Passe 

2016-05-05
O homem da mala, a Liga e a polícia

Não sei se o Sporting tem um agente a passear-se pelo país com uma mala cheia de dinheiro para incentivar os adversários do Benfica a tirarem pontos ao líder do campeonato. Se tem, acho mal. Como acharei mal se o mesmo se passar com o Benfica relativamente aos adversários do Sporting. Como achei mal que, no passado, tenha havido ausências difíceis de explicar contra qualquer dos grandes ou contratações em alturas menos apropriadas, feitas por qualquer um deles. Se atribuídos por terceiros, os prémios para ganhar um jogo não são tão graves como os prémios para o perder, mas devem na mesma ser punidos, porque desvirtuam a lealdade da competição. Por isso mesmo acho muito bem que a Comissão de Inquéritos da Liga abra um expediente para lidar com as suspeitas lançadas para o espectro mediático. Ainda que me pareça absolutamente impossível que venha a concluir seja o que for sem o auxílio da polícia.

O problema aqui, porém, resume-se àquilo a que se resumiu em todos os outros inquéritos que lidam com assuntos tão nebulosos: a prova. Foi estranho que o Marítimo tenha poupado a maioria dos jogadores que tinha à beira da suspensão na partida com o Estoril, para os ter contra o Benfica? Foi. Só que as vozes também se levantaram antes, quando o U. Madeira poupou os jogadores que tinha “à bica” contra o Sporting, de forma a garantir que os tinha na partida seguinte, perante a Académica, onde acabou por dar um passo decisivo em direção à manutenção. Sim, o Marítimo já não tem objetivos na Liga. Mas isso chega para dizer que não tem nenhuma razão para querer fazer boa figura ante o campeão nacional, no jogo com mais visibilidade de toda a época? A verdade é que as equipas, nesta altura do campeonato, poupam jogadores em alguns desafios. Devia Nelo Vingada fazê-lo antes de jogar com o Benfica? Claramente: não! Até para evitar a suspeita. O facto de o ter feito indicia, só por si, um ilícito? Claramente, também: não! Pelo menos até que esse ilícito seja provado.

Porque, vamos a ver se nos entendemos, a única diferença entre o que se passa este ano e o que se passou em anos anteriores no nosso campeonato tem a ver com o clima de suspeição generalizada provocado pelos programas de comentadores-engajados e pelo cada vez maior descaramento dos acusadores, que têm cada vez menos vergonha na cara. Façamos uma viagem ao passado. Foi estranho que Armando Sá, que era o melhor jogador do Rio Ave em 1999/00, tenha falhado o jogo com o Sporting (treinado pelo sogro, Augusto Inácio), na ponta final desse campeonato, em que os leões sprintavam com o FC Porto pelo título? Realmente, foi. Foi ilícito? Que se saiba, não! Estava lesionado. Foi estranho que Rui Duarte, que tinha apenas três amarelos em 29 jogos do campeonato de 2004/05, tenha provocado dois em 25 minutos, fazendo-se expulsar a meio da primeira parte do famoso Estoril-Benfica jogado no Algarve, onde os encarnados arrancaram para esse título nacional? Realmente, foi. Foi ilícito? Que se saiba, também não! Teve uma tarde destemperada.

Da mesma forma que, por si só, não houve ilícito no facto de André Horta ter falhado apenas um jogo por opção no campeonato do V. Setúbal – contra o Benfica –, no penalti cometido por Tonel no Sporting-Belenenses, no frango de Gudiño no Sporting-U. Madeira ou no corte em rosca de André Vilas Boas no Rio Ave-Benfica, permitindo o golo da vitória a Jiménez. Queremos ir ao fundo da questão? Vamos a isso! Mas não creio que seja através da Comissão de Inquéritos da Liga que lá chegaremos. E também não me parece normal que a cada decisão discutível de um treinador, a cada gesto técnico imperfeito, se chame a polícia. Porque se há um homem a correr o país com uma mala cheia de dinheiro para incentivar terceiros, não é bom que a necessidade de uma investigação seja travada por causa de uns quantos Pedros que passam a vida a gritar “Lobo!”