Último Passe 

2016-04-22
Lopetegui, o ambiente e os contratos

A resposta dada na RTP por Julen Lopetegui às declarações de Jorge Nuno Pinto da Costa acerca da situação que ainda o liga ao FC Porto mostrou que o treinador espanhol mudou mais do que a forma física – parece mais gordito, provavelmente por causa dos três meses de inatividade a que foi forçado pela demissão no Dragão. Mudou mesmo uma coisa fundamental: começa finalmente a perceber o que é ser FC Porto e de que é feito o futebol português. Se tivesse entendido antes, talvez ainda estivesse no clube.

Há um aspeto em que o treinador basco tem 100 por cento de razão. É que quando chegou a Portugal, o FC Porto tinha ficado a 13 pontos do Benfica; acabou o campeonato seguinte a três e com a desvantagem competitiva de ter estado na Champions até Abril; saiu do atual, a um jogo de terminar a primeira volta, empatado com os encarnados e a quatro pontos do Sporting; e, 14 jogos depois, os dragões estão a dez pontos do Sporting e a doze do Benfica. Além disso, se o FC Porto perdeu sete vezes nos 30 jogos de 2013/14, já foi derrotado apenas três vezes em 50 jogos com ele e entretanto cedeu mais cinco derrotas em 14 jogos, depois da sua saída. Olhando para os números, tem razão Lopetegui quando alega que foi um erro demiti-lo. Mas o futebol não são números. O futebol são títulos. E ele, nesse aspeto, prolongou aquilo que vinha sendo o falhanço do FC Porto – e que, é preciso dizê-lo, não melhorou depois da sua saída.

Porque falhou Lopetegui, então? Sempre tive a mesma opinião: Lopetegui chegou a Portugal com a sobranceria natural de quem vem de uma Liga superior e nunca procurou perceber bem o ambiente que o rodeia: basta ver que mesmo tendo estado ano e meio em Portugal e a dar uma entrevista à RTP, que é uma televisão portuguesa, e a uma jornalista portuguesa, para ser vista por portugueses, falou em castelhano. São detalhes? Sem dúvida. Mas não é um detalhe falhar na motivação dos seus jogadores, muitos deles também vindos de ambientes competitivos superiores, sempre que iam jogar a um daqueles “quintais” que são tão vulgares na nossa Liga. Como não é um detalhe não se ter preparado para lidar com a tal “fação” da claque portista onde teve origem a tal “contestação exagerada” após o empate com o Rio Ave. Então Lopetegui veio treinar o FC Porto e não se deu sequer ao trabalho de saber quem foi e como saiu Co Adriaanse do Dragão? Quando diz agora que finalmente começa a compreender essa tal “fação”, Lopetegui pretende enfatizar o que considera ser um processo de manipulação vindo de fora para dentro mas com origem no interior do clube, mas acaba por deixar bem à vista que não tinha feito o trabalho de casa no que respeita à compreensão do ambiente – “el entorno, señor Lopetegui, si es que me entiende” – do qual (também) dependia o seu sucesso.

Aliás, não foi só isso que Lopetegui não entendeu logo à primeira: também lhe faltou perceber que, em Portugal, mercado pequeno, quando um clube quer ver-se livre de um treinador, o mais normal é que, para voltar a trabalhar e não ficar com o nome sujo no mercado, esse treinador abdique de receber o que falta do contrato. Tantas vezes ouvi essa história! Aqui, no entanto, quando diz que nem precisa de dois segundos para resolver o assunto, que as negociações foram feitas na altura de assinar o contrato e que depois disso tudo o que as partes têm a fazer é cumpri-lo, é Lopetegui quem tem razão. Neste aspeto, sim, os nossos dirigentes deviam aprender com ele.