Último Passe 

Crédito: FPF
2016-03-26
Noite má de Portugal e alvorada de novo modelo

Uma noite memorável do guarda-redes Stoyanov e o desacerto global dos portugueses na hora da finalização levaram a seleção nacional a perder por 1-0 com uma insípida Bulgária, em Leiria, no primeiro jogo de preparação para o Europeu de 2016. O resultado foi o pior de uma noite em que foi possível perceber como quer Fernando Santos resolver a questão do enquadramento de Ronaldo no onze. O selecionador quer um ataque feito de mobilidade total, um modelo que vai precisar de trabalho de aperfeiçoamento e que terá implicações na forma como a equipa se organiza defensivamente, mas que chegou para criar ocasiões de golo mais que suficientes para ganhar este jogo com tranquilidade: Portugal acabou com 27 remates contra quatro, com 54 ataques contra doze, com 19 cantos a três.

Este novo modelo prefigura ainda uma alteração identitária numa seleção que ultimamente se habituara a jogar muito atrás e que agora, talvez por ter a noção de que vai enfrentar muitas equipas com propensão para jogar na expectativa, parece querer meter mais ênfase na frente. Ronaldo e Nani, os dois pontas-de-lança móveis escalados por Santos, alternavam bem entre a busca dos corredores laterais – sempre chamando Rafa e João Mário, os dois médios-ala, a posições interiores –, a solicitação do passe em profundidade para o espaço nas costas da defesa búlgara ou o recuo em desmarcações de apoio para combinar com o meio-campo. Em resultado disso, os portugueses perderam várias ocasiões de golo cantado, incluindo um penalti, em que o CR7 permitiu a defesa de Stoyanov, a meio da segunda parte. O início de jogo, então, foi de alvoroço total, com oito situações de finalização nos primeiros dez minutos a provarem que o modelo pode funcionar. Mas da mesma forma que é importante não permitir que a depressão pelo resultado negativo tome conta da equipa, também não convém que se entre em euforia à conta do bom funcionamento do novo modelo.

Porque a questão é que ele nem sempre funcionou. Por um lado, a desorganização criativa à base da qual funciona o ataque tem repercussões no modo como a equipa defende, pois muitas vezes ela está desequilibrada no momento da perda. Via-se que Portugal metia muita gente na frente, que dava liberdade total a quem por lá andava – e a própria coordenação entre todos melhorará com o tempo de trabalho e a repetição – mas que depois sofria na transição defensiva, sobretudo se falhava a primeira zona de pressão. Essa pareceu ser a preocupação principal de Santos: a seleção procurava estancar cedo a saída de bola dos búlgaros, chegou mesmo a fazer várias recuperações altas, fruto da amplitude de movimentos de William Carvalho e Adrien Silva, os dois médios-centro, mas se não conseguia ganhar a bola logo ali permitia invariavelmente que se abrissem auto-estradas para rápidos ataques do adversário. Num deles apareceu o golo de Marcelinho, a dar vantagem à Bulgária.

Até final nunca mais Portugal teve momentos tão avassaladores como aqueles primeiros 15 minutos de jogo. Mas, apesar da quebra de rendimento de alguns jogadores à medida que o jogo avançava – Nani e João Mário pareceram perder concentração na segunda parte – continuou a criar várias situações para evitar a derrota. O sorriso desesperado de Ronaldo quando, já depois de ter perdido o penalti, viu Stoyanov negar-lhe mais um golo certo com uma defesa impossível, dizia tudo: não era noite de Portugal. Resta a Fernando Santos acreditar que pode ter sido a alvorada de um novo jogar.