Último Passe 

2016-03-24
Um cérebro brilhante a pensar futebol

Com a habilidade que se lhe reconhece para as palavras, o poeta uruguaio Eduardo Galeano veio um dia contestar que à seleção holandesa lhe chamassem “Laranja Mecânica”. Porque aquela “obra da imaginação, que desconcertava todos com as suas mudanças incessantes” não tinha “nada de mecânico”. E não tinha, de facto. Aqueles jogadores não eram máquinas, aquele futebol não era robotizado. O que aquela equipa e aquele futebol tinham era o que Johan Cruijff podia dar: cérebro. Porque, como dizia Cruijff, “o futebol joga-se com o cérebro”.

Johan Cruijff foi a mais espantosa mente que alguma vez pensou futebol. Era uma mente retorcida, que escolhia caminhos tortuosos para chegar onde queria, mas nunca deixou de ser brilhante e de “viver e morrer pelas suas próprias ideias”, como o próprio não se cansava de dizer acerca do que devia ser a cartilha maternal de um treinador. Algumas das suas ideias explicou-mas uma vez, numa rápida entrevista de uns dez minutos, feita a contragosto, quando o encostei a uma parede nas catacumbas de Camp Nou, depois de Ricard Maxencs, o já falecido ex-diretor de imprensa do Barça, me ter dito que se corresse por um certo corredor talvez ainda o apanhasse a caminho do carro. Eu lembrei-o de que estava em Barcelona há quase uma semana para falar com ele, ele acedeu e debitou aquilo que para ele deviam ser lugares-comuns mas que para mim foram os dez minutos em que mais aprendi sobre futebol até àquela data.

As ideias de Cruijff eram simples. Tão simples que parece impossível nunca terem ocorrido a toda a gente. Cá vai uma: “a bola é mais rápida que qualquer jogador e ainda por cima não se cansa”. Básico? Sem dúvida. Mas como o próprio Cruijff dizia, “a solução mais simples é sempre a mais eficaz”. “E muitas vezes a mais difícil de pôr em prática” – mas aí entra a parte do cérebro. O mais simples era, tanto naquele Ajax dos inícios dos anos 70, como foi depois na seleção holandesa ou no Barcelona que ele criou e que deixou de herança a Pep Guardiola, fazer girar a bola, manter a posse, jogar a dois toques com abertura permanente de linhas de passe através da formação de vários triângulos no campo.

Em tempos chamaram a isso “futebol total”, porque para o pôr em prática qualquer equipa tinha que extravasar os limites do sistema em que se dispunha no início dos jogos. E para isso era preciso criar uma dinâmica coletiva, uma dinâmica de adaptação constante, de perceção permanente do que mais convinha ao grupo. Se o mais importante era o lateral direito à procura do espaço no terreno do médio do outro lado, era isso que ele fazia. Desde que a equipa respeitasse sempre, como dizia Galeano, essa forma de “desorganização organizada” que lhe permitia ser harmoniosa. Isto é: desde que os seus componentes fossem inteligentes e que a ligá-los em campo estivesse o tal cérebro superior. E aí residia a diferença entre uma grande equipa e uma equipa armada em grande.

As equipas de Cruijff foram grandes, porque Cruijff era grande. Era grande a jogar, era grande a pensar, era grande nos afetos e nos ódios, também. Escolhia o campo e ia até ao fim. Foi assim no Ajax e no Barcelona, as suas duas paixões, onde exerceu magistérios de influência quando deixou de a ter em campo, como jogador ou treinador. E com isso formou um séquito de discípulos, que tanto têm dado ao futebol nos últimos anos. Porque todos têm bem presente a mais fundamental das ideias de Cruijff: o futebol joga-se com o cérebro. E o dele já não pensa, mas deixou marcas.