Último Passe 

2016-03-23
E se um dia Lopetegui treinar o Real Madrid

O regresso de Julen Lopetegui ao palco cénico do futebol espanhol, por via de uma entrevista à Marca, a falar do Real Madrid e do conhecimento que tem de boa parte do plantel de Zidane, não foi propriamente uma surpresa. O basco tem cartel em Espanha, pelo trabalho que por lá fez, levou o FC Porto aos quartos-de-final da Liga dos Campeões e não há-de ser por não ter sido campeão em Portugal que os espanhóis deixam de considerá-lo. Aliás, em boa verdade, não creio que Lopetegui seja mau treinador: já vi piores a dirigir o Real Madrid, clube ao qual os espanhóis dizem agora que ele pode chegar.

É certo que o FC Porto não ganhou nenhuma das duas últimas Ligas nem está bem colocado para ganhar a atual, mas o apuramento de responsabilidades não começa nem acaba no treinador. Se não forem campeões este ano, os dragões vão para o terceiro ano seguido sem ganhar a Liga – e para a segunda série de três anos sem lá chegar desde que Pinto da Costa se sentou na cadeira da presidência. A primeira, de 1999 a 2002, teve como treinadores Fernando Santos, Octávio Machado e José Mourinho, que foi também quem operou a revolução que levou o clube de volta a caminhos ganhadores. Desta vez, Paulo Fonseca e Julen Lopetegui já estão na lista negra, só faltando ver se José Peseiro a continua ou interrompe, mas tal como há década e meia a ideia que fica é a de que os treinadores não foram os mais culpados em dois dos três anos deste série.

Há dois anos, Paulo Fonseca, que está a fazer um excelente trabalho em Braga e virá a ser um nome incontornável da nova geração de treinadores portugueses – a par de Marco Silva – teve ao dispor um plantel fraco, demasiado fraco para as aspirações portistas. Não sendo fraco, o grupo deste ano é bastante desequilibrado, com excesso de opções e de concorrência para umas posições e falta de alternativas para outras – e aí alguém na SAD deve ser chamado a dar explicações. Resta justificar a época passada, na qual Lopetegui teve um grupo de luxo, aquele que ainda acho que era o melhor plantel da Liga. E perdeu-a para o Benfica. Não por falta de uma boa ideia de jogo, que isso o FC Porto também tinha.

O que faltou ao primeiro FC Porto de Lopetegui foi um treinador com mais conhecimento da realidade nacional e menos soberba, um treinador que não menosprezasse alguns dos quintais e algumas das equipas que jogam a Liga portuguesa e que valorizasse mais aquilo que Vítor Pereira, por exemplo, sempre teve como claro. O “Somos Porto” que o treinador de Espinho tantas vezes repetiu nunca entrou na cabeça do treinador basco e foi por isso que não conseguiu convencer os seus jogadores, por exemplo, que era mais importante ganhar na Choupana ao Nacional depois de o Benfica ter perdido com o Rio Ave em Vila do Conde do que fazer boa figura na eliminatória com o Bayern Munique.

O problema de Lopetegui foi ter treinado o FC Porto a pensar que estava no Real Madrid. E nisso os espanhóis são muito práticos: se ele alguma vez treinar o Real Madrid, o problema desaparece.