Último Passe 

2016-03-23
Das acusações de Cruz à indiferença do futebol

É impossível que o futebol português passe completamente ao lado das acusações feitas por Carlos Cruz no que respeita à alegada compra de votos por parte da candidatura portuguesa à organização do Euro’2004. E no entanto é isso que está a acontecer. Um dia depois de essas acusações terem sido tornadas públicas, na pré-publicação da autobiografia do ex-apresentador de televisão, pelo jornal “A Bola”, não há notícias de seguimento nem há reações oficiais, da Federação, dos clubes, da UEFA, da polícia... Nada. E isso incomoda-me.

Carlos Cruz pode ter caído em desgraça quando foi condenado por alegados abusos sexuais a menores, no processo Casa Pia, mas não deixou de ser um dos principais responsáveis pelo sucesso da candidatura portuguesa, um dos principais executivos na empreitada que trouxe o Campeonato da Europa para os estádios nacionais. Lembro-me de entrevistar Cruz, naquele tempo, e de ele mandar vir uns pregos para comer durante a conversa, porque o desdobramento em reuniões atrás de reuniões não lhe deixava sequer tempo para almoçar. Portanto, se há coisa de que Cruz não pode ser acusado é de não ter estado por dentro das coisas, de não saber do que fala. E, bem ou mal intencionado, ele acusa claramente Gilberto Madaíl e José Sócrates de terem comprado votos a presidentes de federações estrangeiras, com envelopes recheados com dinheiro.

Se o que Cruz escreveu foi verdade, isso cabe à polícia investigar. Tendo em conta o que se sabe hoje acerca da forma como se ganham e perdem organizações deste calibre, não me custa admitir que a história possa ter um fundo de verdade. Mas para já, o que queria mesmo era ter a certeza do normal funcionamento das instituições e de ser informado para além do que fez Jonas nos treinos da seleção do Brasil, do que disse Gaitán acerca do futuro do Benfica, se Peseiro sente o FC Porto e se os jornais turcos dizem que o Sporting está interessado em Raul Meireles. São tempos estranhos, estes que vivemos.