Último Passe 

2016-02-16
Rui Vitória dividido entre mudar ou evoluir

A possibilidade recentemente levantada de o Benfica vir a jogar frente ao Zenit com Gaitán atrás de um só ponta-de-lança é uma das respostas possíveis ao dilema que afeta Rui Vitória e que em larga medida já afetava Jorge Jesus antes dele. Um dilema que prova que uma equipa é muito mais aquilo que se são os seus jogadores do que o que querem os seus treinadores. Aliás, no caso deste Benfica, falar em problema pode ser um exagero um pelo menos uma visão parcelar de uma mesma realidade. Depende do lado da moeda que virmos. O que me leva a concluir que, mais do que mudar, o Benfica tem de evoluir. E evoluir nunca pode passar pela anulação do seu melhor jogador, que é Jonas.

Querem ver a coisa pelo lado mau? A jogar só com dois médios, mais ainda quando um deles é Renato Sanches, que sai muito da posição e a quem falta ainda, como é natural, experiência e capacidade tática no jogo sem bola, o Benfica destapa-se muito. Mas, se quer aproveitar Jonas, o Benfica tem de jogar com dois avançados e, obrigatoriamente, com dois médios, porque já se viu que, essencialmente por falta de efetividade de uma segunda zona de pressão, a possibilidade de fazer um dos alas (quase sempre Pizzi) derivar para o meio, em apoio aos médios-centro, pode resultar em falta de controlo da largura e em espaço a mais para os extremos do adversário entrarem em movimentos diagonais potencialmente letais. Pronto, agora vejamos a coisa pelo lado bom. Renato Sanches é uma máquina atacante e tem um pulmão inesgotável: com ele a carregar a equipa para a frente, o Benfica aumenta exponencialmente as possibilidades de desequilibrar no último terço. E Jonas, provavelmente o melhor jogador do último campeonato, pela capacidade técnica e de leitura de jogo, que o leva a tomar constantemente a melhor decisão tendo em conta aquilo de que a equipa necessita, não tem de ser visto como um problema, podendo, antes, ser uma solução.

Grande parte da explicação para o facto de este Benfica ser muito forte com os fracos e mais fraco com os fortes tem a ver com o DNA da equipa. O papel do treinador é o de mascarar os defeitos e exaltar as virtudes. Tanto Jonas como Renato têm virtudes e defeitos. A necessidade de jogar com dois avançados serve para mascarar o defeito de Jonas, que não é capaz de render o mesmo sem referências frontais, sem tabeladores próximos. A eventualidade de jogar com três médios servirá para disfarçar o defeito de Renato, para manter o corredor central sempre bem preenchido nos momentos em que ele dispara para desequilibrar. A solução seria fácil se a equipa pudesse jogar com 12. Não pode, pelo que a mim me parece que o remédio não está na mudança e sim na evolução de Renato, que ainda é um miúdo e tem tempo para se transformar num número oito de classe mundial. Se mudar agora em vez de esperar pela evolução, Rui Vitória estará possivelmente a aumentar as hipóteses que tem de ganhar o jogo – e tempo para si próprio – mas estará a impor limites ao crescimento do jovem mais promissor alguma vez saído das escolas do Seixal.

Ninguém disse que era uma decisão fácil…