Último Passe 

2016-02-09
A guerra das classificações e a matemática de conveniência

O empate do Sporting com o Rio Ave, conjugado com a vitória do Benfica frente ao Belenenses, deu a primeira liderança da Liga partilhada envolvendo os grandes de Lisboa desde há uns dois anos. Na altura, ainda fazia eu parte da direção do Record, o caso deu origem à feroz guerra das classificações. Para mim, que não sigo carneiradas, mantenho a coerência e sei que a liderança que vale é a da última jornada e não a da 21ª, quem comanda agora a Liga é o Sporting e não o Benfica, como está no site oficial. E o mais divertido vai ser ver os fanáticos da aritmética de conveniência que me (nos) insultaram há dois anos mudarem de posição consoante os argumentos passaram a favorecer quem outrora desfavoreceram. Ou aqueles que há dois anos acharam que tínhamos razão virem agora chamar-me nomes porque se há uma classificação oficial os jornalistas têm mais é que a seguir de forma cega.

A situação explica-se facilmente. Em Dezembro de 2013, o empate do Sporting em casa com o Nacional – também 0-0, como agora – deu até uma liderança a três: FC Porto, Benfica e Sporting, todos com 33 pontos. Para a Liga, as regras são claras: o desempate faz-se por diferença de golos até à penúltima jornada e por confronto direto no final da prova. Pelas regras da Liga, o primeiro naquele mês de Dezembro era o Sporting, com diferença de 24 golos positivos, seguido de FC Porto (20) e Benfica (15); pelas do bom-senso, que foram aplicadas pelo Record, quem liderava era o FC Porto, que ganhara aos leões, seguido de Benfica, porque tinha empatado em Alvalade, e de Sporting, o mais fraco numa mini-Liga a três. Tal como agora é o Benfica quem lidera pelas regras da Liga, mas na verdade, o líder do bom-senso é o Sporting, que ganhou por 3-0 aos encarnados na Luz – a este propósito, cresce o meu respeito pelo zerozero.pt, que manteve a coerência na diferença.

As regras da Liga fazem pouco sentido. Imaginemos que Benfica e Sporting ganham todos os jogos até à última jornada, empatando de caminho no dérbi entre ambos, em Alvalade. Imaginemos ainda que os encarnados mantêm a vantagem na diferença de golos geral. Aí, o que sucederá é que, mesmo entrando para a última jornada em primeiro lugar – para a Liga – o Benfica pode até ganhar por 50-0 ao Nacional que a mesma Liga o despromoverá à segunda posição desde que o Sporting vença em Braga. Normal? A mim não me parece. Como não pareceu há dois anos, na altura em que a direção do Record de que fazia parte foi chamada a deliberar acerca de uma decisão tomada em outras núpcias por uma direção anterior – e que é em grande parte a atual – acabando por decidir manter as regras que aquele coletivo tomara.

Na altura, uma onda de contestação nasceu em Alvalade e chegou às imediações do Estádio da Luz, às instalções da Cofina. Houve condenações, imolações, tudo em crescendo à medida que o ruído vindo das redes sociais aumentava. Vinham de quem não é capaz de perceber que nem todos têm de seguir a carneirada e que as tomadas de posição, se são prévias aos acontecimentos, não podem ser acusadas de ser parciais quando se trata de os avaliar. Dois anos depois, cá estou, a manter a coerência e a dizer: para mim, quem vai à frente é o Sporting.