Último Passe 

2016-02-02
Os fundos e a valorização de Imbula

A transferência de Gianelli Imbula do FC Porto para o Stoke City, por 24 milhões de euros – mais 15 por cento de uma futura mais-valia – foi a grande novidade do último dia de mercado no futebol português. O negócio pode ser apresentado como uma espécie de milagre da multiplicação dos pães e já foi mencionado por muito boa gente como a prova acabada de que as faculdades de Pinto da Costa não só estão intactas como têm vindo a ser aprimoradas. Não duvido disso. Mas se o caso Imbula prova alguma coisa é algo bem diferente e tem a ver com a gestão que os fundos de investimento fazem dos seus ativos. Uma gestão paralela à dos clubes.

Não é fácil explicar de forma razoável como é que um jogador que nunca lutou por títulos e que já não era um adolescente – tinha cinco épocas a jogar com regularidade nos seniores em França – chegou ao FC Porto a valer 20 milhões de euros. Mas mais difícil ainda se torna encontrar uma boa justificação para que, após seis meses num ambiente diferente, nos quais não conseguiu impor-se como titular indiscutível de uma equipa que neste momento é de classe média europeia, o seu passe valorize 20 por cento. A única explicação plausível chama-se Doyen. A Doyen, cujos representantes andaram em reuniões com o FC Porto à altura da aquisição e que pode ter participado na operação, precisa de proteger os seus investimentos, o que faz inflacionando os valores dos jogadores que tem em carteira. Sai a ganhar o FC Porto? Depende.

Neste caso, é evidente que sai a ganhar o FC Porto. Como saem a ganhar nas vendas todos os clubes que são capazes de manter boas relações com os fundos de investimento. De repente, vejo apenas um problema, que é a necessidade de manter boas relações com os fundos de investimento, pois sem essas boas relações a venda já não será tão facilitada. É que essas boas relações passam também por comprar, num patamar abaixo, quem esses fundos querem que se compre, ao preço que eles querem fazer. Foi assim que Imbula chegou ao FC Porto por 20 milhões. Ou, numa operação muito parecida mas com outros protagonistas, que Raul Jiménez também se valorizou brutalmente: foi adquirido pelo Atlético de Madrid ao América por 10 milhões de euros, passou um ano no banco e viu depois o Benfica comprar 50 por cento do seu passe por 9 milhões. Se Jiménez justificar esse investimento, o problema fica resolvido; se não justificar, vai ser precisa a boa vontade de quem patrocinou a compra para ele seguir para outras paragens sem perdas. Como aconteceu com o guarda-redes Roberto, outro grande conhecedor da rota Manzanares-Luz.

É por tudo isto ser tão difuso que não aceito a tese de que os fundos de investimento fazem falta ao futebol português. E são os valores praticados nestas operações que me levam a concluir que não é verdade que os clubes portugueses precisem destes fundos para chegar ao verdadeiro talento. Porque se é claro que, em parceria com os fundos, vendem caro, geralmente são obrigados a comprar igualmente caro, porque a influência dos fundos inflaciona o mercado. E no fim quem sai a ganhar são sempre os mesmos. Com um problema acrescido: é que ninguém sabe bem quem eles são nem onde têm o dinheiro.