Último Passe 

2015-08-13
Afinal o que estava em causa nos SMS de Jorge Jesus

Jorge Jesus recusou-se a comentar a polémica dos SMS e isso não me deixou nada surpreso. Estranho seria que ele o fizesse. Assim sendo, nesta batalha do homem contra a estrutura, teremos de fazer uma opção. Ou continuamos nas mãos dos spin-doctors, da informação ou da contra-informação, consoante o lado da barricada que der mais jeito, ou então optamos pela independência. O segundo sempre foi e será o meu caminho, que spins nem nas montanhas-russas eu os faço. Não gosto. Deixam-me indisposto, dão-me a volta ao estômago.
Conheço Jorge Jesus há 20 anos, desde o tempo em que a ele lhe chamavam o "Cruijff da Reboleira" e eu comentava os jogos do campeonato espanhol na TVI. E em que quando nos víamos discutíamos os exercícios que o Barcelona fazia nos treinos, que ambos tínhamos podido ver in-loco E é com base nesse conhecimento que o digo: acredito que Jesus tenha mandado os SMS aos jogadores do Benfica. Mas já é com base numa vivência de quase três décadas ligado ao futebol profissional que acrescento: e qual é o problema se o tiver feito? 
Somos todos do tempo em que o futebol não era uma coisa tão asséptica que não admitia o recurso a truques como esse. Em que a rivalidade era uma coisa sadia, em que se podia "enganar" o adversário com expedientes deste género ou com truques ainda mais básicos, como era chamar à última hora um jogador que era dado como magoado para baralhar a estratégia do adversário. Em que o que seria estranho era ver diretores de jornal admitir que talvez fosse melhor combinar as palavras da manchete uns com os outros, de forma a evitar as repetições, tão inevitáveis como eram irritantes: sim, também fiz o título "Kataklinsmann"...
A questão é que para mim, Jorge Jesus é hoje exatamente o mesmo treinador que era há uns meses. Excessivo nos estratagemas e na forma de manter a ligação às antigas casas. É isso que me torna incompreendido tanto por benfiquistas (para quem ele deixou de ser perfeito e passou a ser a encarnação do mal) como por sportinguistas (que lhe criticavam os faux-pas mas agora o aceitam como estratega genial). A questão é que, juntos, eles são mais de oito milhões. Eu é que sou o anormal.