Último Passe 

2016-01-04
Florentino e a crise anunciada no Real Madrid

Que a relação entre o Real Madrid e Rafa Benítez estava condenada ao fracasso, não era preciso ser muito dotado de perspicácia para o adivinhar. Ainda assim, o desfecho de hoje, com a demissão do treinador apresentado por Florentino Pérez para suceder a Carlo Ancelotti no Verão e a entrada imediata em funções de Zinedine Zidane veio demonstrar muito mais que a evidência de que Benítez não era o homem certo para o projeto. Demonstra o instinto de sobrevivência de Florentino, rápido no gatilho depois de perceber que se insistisse ainda podia levar com o ricochete. E demonstra ainda que o presidente já está tão convicto do erro cometido que cortou a cabeça ao treinador que tinha escolhido, mesmo quando o líder segue a apenas quatro pontos de distância – cinco se o Barcelona vencer o jogo em atraso com o Sp. Gijón.

O problema de Benítez não é de falta de conhecimento. É de excesso. Benítez é um daqueles treinadores que sabe tanto de futebol, vive tanto para o futebol, que fica fora da realidade em que estão os comuns mortais. Não é atrasado mental – é adiantado mental. E para o caso faz o mesmo efeito. Porque treinar uma grande equipa é muito mais do que saber de futebol, é muito mais do que montar uma equipa e adequá-la a uma ideia de jogo. É liderar homens, é articular egos. E, antes de falhar no resto, Rafa Benítez falhou nisso também, ao conseguir pôr contra ele a generalidade das fações existentes no complicado balneário madridista. De Sergio Ramos a Cristiano Ronaldo. De James Rodríguez aos jovens espanhóis como Isco ou Jesé. A situação tem algum paralelo com a de José Mourinho no Chelsea, mas também muitas diferenças – porque o Chelsea estava muito longe da liderança e em Londres não havia registo público de desinteligências.

Zidane chega do Real Madrid B para aglutinar boas vontades e salvar a Liga, o que não será fácil. Se o francês ganhará o direito a continuar depois do Verão ou se será substituído por mais um “galáctico” do banco vai depender também da forma como for capaz de colocar a equipa a jogar. Porque – e aí está a parte premonitória – não era difícil adivinhar que a ideia de jogo de Benítez tinha pouco ou nada a ver com as caraterísticas dos jogadores que ele tinha à disposição. É verdade que se uma equipa marca dez golos ao Rayo Vallecano e zero ao Málaga, tem uma média de cinco golos nesses dois desafios. Mas deixa pontos pelo caminho. E este Real Madrid tem sido totalmente bipolar, alternando jogos em que abre a barragem goleadora com outros em que embatuca e não sai do zero. Mudar isso é o primeiro desafio de Zidane.