Último Passe 

2015-12-29
Os milhões do futebol e a sua explicação

Os mais mil e trezentos milhões de euros injetados em três clubes de futebol pelas principais operadoras de TV por cabo nas últimas semanas vieram agitar o futebol nacional e merecem uma explicação. Ao mesmo tempo que os adeptos querem sobretudo ver escrito que o seu clube fez o melhor negócio dos três - seja ele qual for -, essa medição é o que menos me interessa, porque só é feita por quem vê o futebol como um exercício de culto da personalidade, seja ela a de Luís Filipe Vieira, de Pinto da Costa ou de Bruno de Carvalho. Mais interessante é perceber como é que isto foi possível e o que vai acontecer daqui para a frente.
É verdade que o panorama de rivalidade fortíssima entre os clubes, que está na génese das tais atitudes de confronto do adepto comum, ajudou a potenciar todos os negócios, porque contribuiu para o crescimento da concorrência: todas as operadoras temem o efeito de rejeição dos adeptos de um clube excluído. Mas a chave destes negócios esteve na decisão tomada há tempos pela autoridade da concorrência, quando impediu a entrada da PT no capital da Sport TV e impôs que os contratos existentes expirassem em 2018, matando a cláusula de preferência que eternizava o domínio exercido pela PPTV de Joaquim Oliveira no direitos de TV do futebol.
Se o aparecimento da concorrência e o desaparecimento do intermediário ajuda a explicar de onde veio o dinheiro, já me parece impossível definir quem dos três fez o melhor negócio, porque fruto da tal predisposição para o culto do líder, todos os clubes acabaram por meter mais e mais coisas nos contratos para poderem subir o montante final de cada contrato, que é o que faz manchetes nos jornais e motiva a discussão dos adeptos. Creio que os tempos da gestão irresponsável ds operadoras estão bem lá atrás e que tanto a Nos como a Altisse pagaram um justo valor, não pelo que os direitos valem agora mas sim pelo que poderão valer nos próximos dez anos, com a criação de novas plataformas e o aparecimento em Portugal de realidades como o Pay Per View.
Aliás, essa é uma das inquietações que me assaltam neste momento. É que se é mais ou menos claro que até 2018 - até os jogos do FC Porto passarem para a Altice - o futebol vai ficar concentrado na Sport TV, onde a Nos deverá querer meter o Benfica, a dúvida é acerca do que acontecerá depois. Quererá a Altice criar um novo canal de desporto - diz-se até que já está a negociar com outros clubes nesse sentido - para concorrer com a Sport TV? E com os valores que ambos estão a pagar aos clubes, poderão estes dois canais ser rentáveis a médio prazo, tendo só metade do futebol? É que, ainda por cima, apesar de a Liga de Proença estar a falhar o encontro com a história ao perder a oportunidade de centralizar pelo menos as negociações dos clubes além dos três grandes - se 17 jogos de um dos grandes em casa valem 400 milhões por dez anos, 45 jogos dos três fora de casa valerão seguramente mais de mil milhões - ainda há muito dinheiro a gastar para assegurar todo o futebol. E os pequenos têm de entender que nesta guerra não são de todo um verbo de encher.