Último Passe 

2015-12-27
Notas sobre o negócio do FC Porto com a Meo

O negócio feito pelo FC Porto com a Meo tem sido visto como uma resposta ao acordo entre o Benfica e a Nos, mas francamente essa é a parte que me parece menos interessante na notícia. Ainda que a generalidade dos adeptos veja o futebol como uma simples forma de medir virtudes – para poder dizer: “a minha é maior do que a tua” – aquilo que mais me interessa no negócio entre o FC Porto e a Meo são outras coisas. É, por exemplo, perceber quanto é que os mesmos adeptos que agora se digladiam para defender o negócio feito pelo seu presidente como melhor que o do rival terão de pagar para continuar a ver o futebol. Porque há um admirável mundo novo a desembrulhar-se à nossa frente e convém percebê-lo desde os primeiros tempos.

Interessa primeiro dizer que, tal como o Benfica, o FC Porto fez um excelente negócio e conseguiu assegurar uma importante fonte de financiamento para os próximos anos. Se um negócio é melhor do que o outro é difícil ou até impossível de dizer, porque o que foi vendido foram coisas diferentes e por isso mesmo incomparáveis, as do Benfica por 400 milhões, as do FC Porto por 457. Depois, interessa salientar que se confirma a entrada do futebol nacional num novo paradigma, em que o produtor de conteúdos vende diretamente às empresas aglutinadoras desses mesmos conteúdos, dispensando não apenas o intermediário que fez lei e ditou preços durante anos no futebol nacional, com isso exercendo influência política, mas fundamentalmente dispensando também os canais propriamente ditos.

Porque, mais do que perceber se este negócio torna a centralização dos direitos mais próxima ou total e absolutamente inviável, como à primeira vista parece, interessa perceber algo tão simples como: onde vão os jogos ser transmitidos? Os do Benfica na Sport TV (de Oliveira, portanto)? E os do FC Porto, onde? E o que quer a Meo? Melhorar a posição negocial? Quer os direitos para revender? Para lhe servirem de moeda de troca? E poderá a Sport TV aumentar o valor da assinatura sem ter os jogos do FC Porto em casa, mesmo que ganhe o Benfica e a Liga inglesa? E será que a Liga de Proença, que vai somando punhaladas nas costas, pode ainda vir à tona no final desta guerra? Vêm aí tempos animados.