Último Passe 

2015-12-21
O preto e o branco no caso Sporting-Doyen

O Sporting perdeu o caso Doyen/Rojo no Tribunal Arbitral do Desporto porque tinha de o perder, porque objetivamente desrespeitou um contrato assinado por responsáveis anteriores do clube. Bruno de Carvalho anuncia que vai recorrer e que continuará a lutar contra aquilo que considera ser um “subsistema opaco” no futebol porque tem de o fazer e porque objetivamente os fundos de investimento fazem mal ao futebol. Uma coisa não invalida a outra.

Primeiro, a decisão do tribunal. Sabendo bem o que estava a fazer, o Sporting firmou um acordo com a Doyen para a contratação de vários jogadores, um dos quais era Rojo. As premissas do acordo eram simples e similares às de outros acordos que outros clubes assinam com este e com outros fundos de investimento: os investidores entram com parte do capital necessário à contratação dos ativos e assumem parte do risco ou do lucro. Isto é, se o jogador fracassar – como está a ser o caso de Labyad, por exemplo – já não voltam a ver a cor do dinheiro; se se valorizar, recebem uma percentagem semelhante à do capital investido no valor de uma futura transação. Rojo valorizou-se, foi vendido ao Manchester United e mandava o contrato assinado pela direção anterior que o executivo de Bruno de Carvalho entregasse à Doyen a parte que lhe cabia do bolo. Não o fez e por isso foi agora condenado. Tanto quanto me parece, justamente.

Depois, as ações de Bruno de Carvalho. O Sporting não entregou à Doyen a parte que lhe cabia do lucro, em primeiro lugar, porque lhe dava jeito o capital. Como atravessava um período de vacas magras, em que o capital fazia muita falta, fez aquilo que na gíria se chama empurrar o problema com a barriga: usou o dinheiro primeiro, optando por pagar mais tarde, quando os cofres estivessem já mais forrados. Mas não foi só por isso. Pelo meio, Bruno de Carvalho assumiu uma guerra que também é justa e que merece continuar a ser travada. A verdade é que os fundos de investimento – todos eles – fazem mal ao futebol. Porque não se sabe de onde vem o dinheiro e no limite pode haver interesses comuns em equipas diferentes a manipular resultados ou transações inflacionadas ou deflacionadas para proceder à lavagem de capitais vindos de atividades criminosas. Porque abrem caminho a possibilidades de ingerência externa em decisões dos clubes, obrigando-os a comprar ou a vender quando não querem ou até indo ao ponto de estipular quem joga e quem fica de fora. E porque, por fim, ao abrigo da ilusão de estarem a proporcionar acesso a jogadores que de outra forma os clubes não poderiam contratar – sobretudo porque os próprios fundos inflacionam os valores dos passes – estão a contribuir para a descapitalização dos clubes, que qualquer dia já não são donos de nada. Por isso, Bruno de Carvalho faz bem em continuar a luta. Tanto quanto me parece, com razão.