Último Passe 

2015-12-18
As batalhas de Bruno de Carvalho, a Liga e a realpolitik

A guerra que Bruno de Carvalho iniciou há quase três anos para tirar o Sporting do buraco para onde o qual o clube estava a cair é uma guerra sem quartel, com mil e uma batalhas e que cansa até de ouvir. Por sede de protagonismo, desconfiança nos que lhe estão mais próximos ou simples espírito de missão, o presidente do Sporting trava-as as todas na primeira pessoa do singular, tornando-se numa espécie de metralhadora falante. Depois, por simples questão de personalidade ou apelo ao populismo, extrema posições, arrastando as suas hostes com ele e afastando todos os outros daquele que de outra forma até poderia ser um caminho consensual – porque Bruno de Carvalho tem razão em muitas das guerras. Na verdade, Bruno de Carvalho não procura consensos, porque sabe que não é com eles que ganhará a guerra, e até tem uma noção segura do que mais interessa aqui: a realpolitik. O problema surge quando essa mesma realpolitik conflitua com o estilo de combate do presidente do Sporting, como no caso da abertura das inscrições dos reforços de Janeiro.

Bruno de Carvalho defende o vídeo-árbitro com razão total, mas só depois dos jogos em que o Sporting é prejudicado – é a realpolitik que o manda manter um silêncio conivente nos outros todos. Combate a entrada dos fundos de investimento no futebol, mais uma vez com razão absoluta, mas não só muda de ideias quando o dinheiro entra no Sporting, como convence os que estão nas suas trincheiras de que essa situação é radicalmente diferente – é a realpolitik a ditar leis. Quer manter o controlo do clube sobre a SAD, e por isso apela à boa-vontade da banca credora para alargar o prazo de conversão das VMOCs em ações, fazendo-o baseado na noção prática de que os bancos quererão sobretudo receber em dinheiro e não em ações de baixo valor facial – é mais uma vez a realpolitik, desta vez a melhorar-lhe a posição negocial.

É baseado numa noção prática das coisas que o presidente do Sporting abriu nova frente de batalha, desta vez contra a Liga, por causa da proibição da inscrição dos jogadores contratados no mercado de Janeiro antes da jornada de dia 2, onde há um Sporting-FC Porto que pode ser decisivo. Se já acho que não faz nenhum sentido que um espetáculo de lazer como o futebol pare numa época festiva, em que as famílias têm mais tempo livre e predisposição para assistir aos jogos, muito mais bizarro se torna que a Liga feche nos primeiros três dias após a reabertura do mercado, impedindo os clubes de utilizar os seus novos jogadores na primeira jornada do ano. Bruno de Carvalho tem, portanto, razão. Mas não vai ganhar a batalha extremando posições, deixando sequer implícito que a Liga esteja a defender os interesses do FC Porto, porque o Sporting tem reforços já contratados. Tal como nos erros dos árbitros, as coisas podem melhorar, mas não é preciso nenhuma teoria da conspiração para lá chegar. A Liga não aceita inscrições a 1 de Janeiro porque, inexplicavelmente, é uma instituição amadora a gerir uma atividade que movimenta milhões de euros. Essa é a realidade. A realpolitik tem de assentar nela.