Último Passe 

2015-12-01
Os rivais de Lisboa e os portugueses loucos por futebol

Quase todos crescemos a ouvir dizer que Portugal é um país louco por futebol. Vemos os programas acerca de futebol proliferarem nas televisões, as transmissões dos jogos de futebol baterem recordes de audiências. Mas depois chega-se à altura em que percebemos que a esmagadora maioria dos negócios à volta do futebol são deficitários. Os clubes precisam de vender jogadores para pagar salários, os jogadores precisam de emigrar, há jogos com menos de mil espectadores na nossa maior Liga…. Os jornais perdem vendas, não temos uma revista de grande circulação sobre futebol. Tentei durante anos pôr de pé esse projeto, que esbarrou sempre na mesma parede: as marcas não querem associar o nome ao futebol e já se sabe que sem publicidade não há revistas. Parece um contrassenso? Mas não é.

É que os portugueses não gostam de futebol. Gostam do escapismo que o futebol lhes permite, da possibilidade que têm de se insultar ao abrigo das rivalidades do futebol. Já todos ouvimos que os portugueses, na verdade, não gostam de futebol – gostam dos seus clubes, aprenderam a gostar da seleção em períodos de sucesso, mas gostam acima de tudo de odiar os clubes dos outros. Só assim se explica que passemos horas de televisão a discutir penaltis, foras-de-jogo, mãos na bola e bolas na mão, intencionalidades ou falta delas e depois não sejamos capazes de aceitar factos ou de debater técnica, tática, estratégia... Essa é, para todos nós, para todos vós, a parte aborrecida. Quando comecei a andar no futebol, antes de as televisões colonizarem as conferências de imprensa com os seus diretos, sempre na busca do “soundbyte”, ainda apareciam perguntas dessas. Depressa foram erradicadas porque não levavam a declarações bombásticas.

Por isso, um dia como o de hoje, com queixas do Benfica acerca do Sporting, com queixas do Sporting acerca do Benfica, é o máximo a que podem aspirar os “adeptos” de futebol. Comunicados e contra-comunicados, tiros nos pés e momentos flagrantes de auto-flagelação. Haja animação! O problema é que esta lógica das queixas permanentes – que está no sangue dos portugueses – é a génese de todos os problemas. Do défice à falta de patrocinadores, com passagem pela falta de liquidez. Simpatizo com as ideias de Bruno de Carvalho, como o vídeo-árbitro ou o ataque aos fundos de investimento, mas desagrada-me a vitimização e a pressão permanentes. Simpatizo as atuais ideias de Luís Filipe Vieira, como a discrição em defesa do negócio do futebol, mas aborrece-me que só tenha chegado a elas quando começou a ganhar mais vezes do que as que perdia. Simpatizei com a eleição de Pedro Proença, por ser alguém que conhece o futebol profissional de altíssimo rendimento por dentro, mas chateia-me que ainda não tenha posto mão no problema.

É que, no fundo, os portugueses não são loucos por futebol. São só loucos.