Último Passe 

2015-11-18
O FC Porto, a seleção e uma realidade retorcida

Há algumas coisas que me custa compreender na seleção nacional, mas se houve uma que me pareceu clara, limpa e justa foi a divisão dos minutos de jogo entre os selecionados por Fernando Santos nos jogos com a Rússia e o Luxemburgo. Foi por isso com algum espanto que vi a reação enérgica do FC Porto à utilização dos seus três médios no segundo desafio. Pareceu-me desproporcionada e nada mais do que uma tentativa falhada de marcar a agenda num período em que anda por aí muita gente convencida de que os jogos e os campeonatos se ganham nos comunicados, nos boletins ou nas entrevistas dadas por quem não joga.

Não percebi, por exemplo, a convocatória de Fernando Santos – e já tinha escrito que preparar o Europeu e testar soluções para a parceria com Cristiano Ronaldo sem levar Cristiano Ronaldo é uma ideia difícil de justificar a não ser com a vontade de agradar ao Real Madrid. Como não tinha percebido outras ausências antes desta, essas com consequências que iam muito para lá da preparação de um jogo tão importante como o clássico de Espanha. Foi o caso, por exemplo, da não convocação de João Moutinho para o Mundial de 2010, da qual se queixou o Sporting, por entender que ela esteve na base da vontade de saída do clube revelada pelo jogador. Ou, agora, da relutância na chamada de Ruben Neves, de que se queixavam os portistas, alegando que ele já é titular e capitão de equipa e que há muito justificava a entrada no lote dos mais credenciados – e por isso mais valorizados.

Até por isso, por portistas e sportinguistas andarem constantemente a queixar-se da influência maléfica do Benfica ou de Jorge Mendes nas escolhas dos sucessivos selecionadores, me parece muito retorcido vir agora o boletim Dragões Diário queixar-se de que Fernando Santos andava a “poupar os jogadores do Sporting e do Benfica e a gastar os do FC Porto”. Sim, o FC Porto vai ter seis jogos em 19 dias e tanto Benfica como Sporting terão menos um. Mas o próximo encontro dos dragões tem um grau de dificuldade muito inferior ao de Benfica e Sporting: os dragões jogam com o Angrense horas antes do dérbi de Lisboa. E sim, André André foi o único titular nos dois jogos e o homem que somou mais minutos de jogo (143) nestes dias, mas João Mário jogou apenas menos 28 minutos e Gonçalo Guedes menos 29. E não devia sequer ser preciso lembrar que William Carvalho alinhou por mais nove minutos que Ruben Neves ou que Rui Patrício e Eliseu também estiveram mais tempo em campo que Danilo.

É que, por muito que as estruturas de comunicação se esforcem por torcer a realidade, está é bem simples de compreender. E explica-se assim: é melhor jogar na seleção do que não jogar.