Estrela do FC Porto na década de 50, foi um dos homens mais importantes no renascimento que o clube ensaiou por essa altura. Os dragões impediram-no de sair para Itália e, depois, uma lesão grave impediu-o de ir mais longe na carreira.
2016-03-25

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1954

Chegou ao Porto como farol de esperança vindo de África e o mínimo que pode dizer-se é que confirmou tudo aquilo que dele se aguardava e muito mais. Extremo velocíssimo, impunha-se pelo faro de golo, próprio de quem em Angola tinha colado na testa o rótulo de avançado-centro. Autor do primeiro tento de uma equipa nacional em Wembley, foi nessa altura forçado a tomar uma de duas estradas: o FC Porto negou-lhe a transferência milionária para o Milan e ele sofreu a primeira lesão grave, que após um ano de paragem lhe roubou boa parte dos atributos físicos. Guardou para a história o facto de ter sido uma das figuras mais importantes no primeiro renascimento do FC Porto, na década de 50.

Carlos Duarte nasceu em Angola e por lá começou a mostrar dotes de goleador. Era esguio e veloz, o que fazia dele um avançado perigosíssimo. O fracasso portista no campeonato de 1952 levou a direção do clube a apontar baterias ao reforço da equipa, que se fez tanto no plano nacional (Teixeira, Cambalacho, Pedroto…) como em África, de onde vieram, de uma assentada, Albasini, Perdigão e Carlos Duarte. Conta-se que Carlos Duarte estava no barco, a caminho da “metrópole”, aquando da inauguração do Estádio das Antas, a 28 de Maio de 1952, e que ali terá ouvido o relato radiofónico do jogo, que os dragões perderam por 8-2 contra o Benfica. Pensou o pior. Afinal onde se ia meter? A verdade é que estava em construção uma excelente equipa e Carlos Duarte foi nela entrando aos poucos: estreou-se no campeonato a 12 de Outubro de 1952, com uma retumbante derrota em Setúbal (0-3), mas ao segundo jogo, a 7 de Dezembro, fez o primeiro golo, aproveitando um passe de Pedroto para abrir o marcador numa vitória por 4-0 sobre o Barreirense, nas Antas. Carlos Duarte viria a marcar sete golos nesse primeiro campeonato, com destaque para um hat-trick ao Estoril, aos quais somou mais dois na Taça de Portugal, prova na qual os portistas chegaram à final, perdendo por claros 5-0 com o Benfica.

O regresso de Hernâni, em 1953, veio dar uma nova dimensão ao futebol do FC Porto. Duarte, que com ele formava uma dupla que se entendia como que por sinais de fumo, foi um dos que mais se aproveitou disso para elevar o nível, terminando a época com dez golos, entre eles um hat-trick ao V. Guimarães, em Dezembro. Por essa altura já o angolano se estreara com a camisola de Portugal: Salvador do Carmo lançou-o no lugar de Hernâni a meio de um particular contra a África do Sul, a 22 de Novembro de 1953, que os portugueses ganharam por 3-1. Os dois anos que se seguiram, porém, com escassa utilização no FC Porto, representaram um recuo na sua carreira internacional, que só voltou a arrancar verdadeiramente em 1957, quando Tavares da Silva o incluiu no lote de jogadores com que atacou a qualificação para o Mundial da Suécia. Até lá, Carlos Duarte nunca se esquecera de como marcar golos – jogava era poucas vezes. Em 1955/56, contribuiu com sete golos para o título de campeão, festejado com um 3-0 em casa à Académica. Mesmo participando em apenas oito jogos, fez o hat-trick da ordem (num 10-1 ao Barreirense, em Março de 1956) e marcou pela primeira vez num clássico, ajudando na vitória por 3-1 sobre o Sporting no dia de ano novo. Na Taça de Portugal, só jogou a final, mas foi o suficiente para a erguer bem alto, depois da vitória por 2-0 sobre o Torreense, numa partida na qual assistiu o amigo Hernâni para o primeiro golo.

De volta às escolhas habituais depois do Verão de 1956, Carlos Duarte esteve no segundo jogo do FC Porto contra o Athletic Bilbau, na estreia da equipa na Taça dos Campeões Europeus, fazendo mais onze golos no campeonato que o FC Porto perdeu, por um ponto, para o Benfica, entre os quais um hat-trick à Académica e um em cada partida com o Sporting. De caminho, voltou à seleção, ainda que para protagonizar um caso bizarro: Tavares da Silva ia incluí-lo na equipa que, em Alvalade, em Janeiro de 1957, inaugurava frente à Irlanda do Norte os jogos noturnos da seleção nacional quando foi avisado de que o angolano não estava na lista de futebolistas inscritos pela FPF na FIFA. Assim sendo, só voltou mesmo à seleção na derrota contra a Itália em Milão (0-3), em Dezembro, que deixava Portugal fora do Mundial de 1958. Carlos Duarte entrava então na melhor fase da sua carreira. Foi preponderante no segundo lugar do FC Porto em 1957/58, com nove golos no campeonato (e pela primeira vez um ao Benfica), bem como na conquista da Taça de Portugal, ganha na final contra o Benfica com um golo de Hernâni (1-0), em cuja  caminhada marcou por três vezes. Em Março de 1958, fez o golo português na derrota contra a Inglaterra (2-1) em Wembley, fazendo luzir sobre si os holofotes da poderosa imprensa britânica, que o considerou melhor que Tom Finney. Quem não estava a dormir era o Milan, que logo fez chegar ao Porto a intenção de pagar 600 contos pelo jogador, que apesar da já longa carreira ainda só tinha 25 anos e muito para dar. Só que o FC Porto, que já pensava vender Jaburu, recusou, deixando Carlos Duarte a sonhar com a fama e o dinheiro que podia ter ganho.

Ainda assim, Carlos Duarte não virou a cara à luta, partindo para aquela que terá sido a sua melhor época de sempre. Fez 14 golos na vitória portista no campeonato de 1958/59, só sendo superado por Teixeira e Hernâni. E somou-lhes mais dez na Taça de Portugal, cuja final os portistas perderam para o Benfica, com expulsão de Carlos Duarte e do benfiquista Mário João no início da segunda parte. “A cada vez que tocava na bola era agredido”, lamentou-se depois o extremo angolano. Começava ali aquele que viria a ser o pior período da carreira do futebolista, que já somara a sétima (e última) internacionalização em Junho de 1959, contra a RDA, nas Antas, jogando numa vitória por 3-2 que permitia aos portugueses continuar no Europeu. De regresso de férias, partiu uma perna num choque com um jogador do Espanyol de Barcelona, em jogo particular, o que lhe roubou quase toda a época: só voltou à competição em Junho de 1960, na segunda partida dos quartos-de-final da Taça de Portugal contra o Barreirense. Dizia-se que a inatividade o tinha prejudicado, que já não era o mesmo jogador. Ainda assim, Carlos Duarte completou mais quatro épocas no FC Porto, fazendo parte da equipa que perdeu a final da Taça de Portugal de 1960/61, nas Antas, contra o Leixões (0-2).

Já não esteve na final de 1963/64, que o FC Porto perdeu para o Benfica, numa altura em que se dizia que as suas relações com Otto Glória, que entretanto chegara para treinar os dragões, não eram as melhores. Vestiu a camisola do FC Porto pela última vez a 19 de Abril de 1964, no fecho do campeonato, que os dragões fizeram ganhando por 1-0 ao Lusitano de Évora. Foi de férias para a Corunha e quis ficar a jogar por lá. Tal não lhe foi permitido, o que levou a que voltasse a Portugal, em Outubro, mas para jogar no Leixões, que era nesse ano treinado pelo seu amigo Pedroto. Ainda representou os leixonenses na Europa – derrota por 3-0 em Glasgow com o Celtic a 7 de Outubro, implicando a eliminação da Taça das Cidades com Feira – e fez um campeonato muito regular, com mais quatro golos. O último, marcou-o ao Sporting, a 28 de Março de 1965. Lançou a equipa para a recuperação de 1-3 para 3-3 mas, no ato, magoou-se no tendão de Aquiles e não voltou a poder jogar. Acabava ali o futebolista Carlos Duarte, um dos maiores no renascimento que o FC Porto ensaiou na década de 50.