Era português, veio do Corinthians para o Sporting, mas só se afirmou na Académica. Goleador regular, viveu a sua época de ouro no V. Guimarães antes de se retirar para o Algarve.
2016-03-24

1 de 10
1970

Os cabelos longos, a disfarçar a calvície que lhe afetava o topo da cabeça, faziam-no ainda mais rápido do que era na verdade, porque esvoaçavam a cada movimentação, a cada vez que procurava terrenos que não os do típico avançado-centro. E Joaquim Rocha era rápido, fazia da velocidade e da capacidade de desmarcação, da facilidade com que caía nas faixas laterais para desequilibrar as armas fundamentais, mesmo tendo em conta que era um avançado com a técnica burilada com os melhores, no Brasil. Português de Castelo de Paiva, seguiu os pais e os tios na aventura da emigração para as terras de Vera Cruz, onde se fez jogador no poderoso Corinthians. Só veio para Portugal por causa do futebol e os 13 anos que passou na I Divisão, quase sempre coroados com golos, fizeram com que tivesse valido a pena.

Só num clube Joaquim Rocha não foi profissionalmente feliz: no Sporting. Chegou em 1971, com o cartão de visita que era a formação feita no Corinthians, onde tinha sido campeão infantil e chegara mesmo a alinhar em cinco jogos na equipa principal, três deles no campeonato paulista desse ano. Em Alvalade, porém, isso não lhe serviu de muito. Estreou-se com a equipa principal a 19 de Dezembro de 1971, entrando para o lugar de Nelson a meia-hora do fim de uma vitória leonina sobre o Tirsense, por 5-3, ainda a tempo de ver Yazalde completar o hat-trick que fez nesse jogo. Nem Fernando Vaz, nem Mário Lino, que o substituiu em Fevereiro, tinham dúvidas, face ao poderio do atacante argentino: Rocha limitava-se a jogos de reservas, tendo feito apenas três desafios como suplente utilizado na equipa principal durante toda a temporada. Na época seguinte, mais do mesmo: Ronnie Allen nem se lembrava que ele existia e Mário Lino, que substituiu o inglês na reta final da competição, só o chamou uma vez, na última jornada, porque resolveu poupar alguns titulares para a final da Taça de Portugal. Nem nesta competição, aliás, Joaquim Rocha fez sequer um minuto, o que o impediu de a considerar como conquista sua depois de os leões terem ganho na final ao V. Setúbal.

Nesse aspeto já lhe correu melhor a época de 1973/74: jogou dez minutos no campeonato, substituindo Marinho na reta final de um empate frente ao Boavista, no Bessa, em Janeiro, e fez mais dois minutos na Taça de Portugal, em vez de Paulo Rocha, na eliminatória frente ao V. Setúbal. Como o Sporting ganhou a dobradinha, Joaquim Rocha teve direito a dizer-se campeão de ambas as competições. Ainda assim, nem as três partidas que jogou na caminhada leonina até à meia-final da Taça das Taças (incluindo os dois jogos com o Magdeburg) o deixavam mais feliz. Ele queria jogar e no Sporting isso não seria fácil. Ainda foi suplente utilizado nas duas primeiras jornadas do campeonato de 1974/75, mas depois de mais um ano de ostracismo, no Inverno de 1975 para 1976 bateu com a porta e seguiu para Coimbra, onde integrou o plantel da Académica. Não foi fácil, essa mudança, pois Joaquim não era estudante e a Académica, que por esses tempos pós-revolução se chamava Académico, vivia tempos conturbados nos quais o futebol profissional não era nada bem aceite. Para que Rocha e Camilo, outro “futrica” que com ele foi de Alvalade para Coimbra, pudessem jogar de negro vestidos foi preciso a ratificação da Assembleia Delegada, órgão consultivo da direção.

E só a 8 de Fevereiro de 1976 Joaquim Rocha se estreou na equipa de José Crispim, num empate a zero com o Belenenses no Restelo. O primeiro dos cinco golos que ainda marcou nas últimas onze jornadas de campeonato fê-lo uma semana depois, na goleada em casa ao Farense, por 4-0. Até final da época ainda bisou nos 4-1 à CUF e teve o prazer de fazer um golo ao Sporting, em Alvalade, num jogo que o Académico empatou a três bolas, com três golos em 25 minutos, e que acabou com a substituição de Damas à meia-hora, ao que se dizia desestabilizado por causa dos convites do FC Porto e de Espanha. Aquela ponta final de época era um excelente cartão de visita para Joaquim Rocha, que na época seguinte foi um dos fundamentais na equipa que Juca levou até ao quinto lugar do campeonato: foram 13 golos no campeonato (mais um na Taça de Portugal), incluindo bis ao Belenenses, V. Guimarães e Leixões e mais um golo ao Sporting, na vitória por 2-1 em Coimbra. E se 1977/78 correu pior à Académica, que baixou para o oitavo lugar, valeu ainda mais golos a Joaquim Rocha, que desta vez chegou aos 15 tentos no campeonato, com bis a Boavista, Portimonense, V. Setúbal e Boavista e ainda o tradicional golo ao Sporting, ainda que desta vez numa derrota clara, por 5-1.

A regularidade com que ia fazendo golos fazia com que fosse falado. E como o contrato com a Académica estava a acabar, Joaquim Rocha podia ouvir propostas. Deixou-se seduzir pelo Académico de Viseu, que acabara de subir à I Divisão, mas o problema é que entretanto terá também assinado vínculos com o Belenenses e com a própria Académica. Resultado: dois meses de suspensão, aplicados depois de um início de época em que ainda fez o golo da primeira vitória dos viseenses na I Divisão, um 1-0 à Académica de Coimbra, a 17 de Setembro. A época foi infeliz, pois acabou em despromoção, mas Joaquim Rocha, que assinou mais nove golos (cinco no campeonato e quatro na Taça de Portugal) não seguiu o caminho do escalão secundário, assinando em vez disso um contrato com o V. Guimarães. No Minho, Mário Imbelloni colocava-o como segundo avançado, no apoio a Mundinho, e só quando o treinador argentino deu o lugar ao adjunto, Cassiano Gouveia, Joaquim Rocha começou a marcar golos: fez seis nas derradeiras seis jornadas, a somar a três nas primeiras 24. E garantiu a continuidade na equipa que a meio da temporada seguinte viu chegar José Maria Pedroto. Com o “Zé do Boné” aos comandos, Rocha viveu a melhor época de sempre ao virar dos 30 anos. Foram 17 golos em 1981/82 (mais um na Taça de Portugal), incluindo bis ao Sp. Espinho, Belenenses e V. Setúbal e um golo que ficou na história, pela beleza técnica da finalização e por ter valido uma vitória por 1-0 contra o FC Porto.

Apesar do quarto lugar final, a presença do Sp. Braga na final da Taça de Portugal impediu o V. Guimarães de aceder às competições da UEFA. Isso só viria a ser conseguido em 1982/83, através de mais uma quarta posição final, já com Manuel José a dirigir a equipa. Depois de um grande arranque – cinco golos nas primeiras cinco jornadas – Joaquim Rocha foi vendo a fonte goleadora secar. Os últimos que marcou com a camisola do Vitória foram a 9 de Janeiro, num 4-1 ao Sporting para o campeonato, e a 16 de Fevereiro, na eliminação da Taça de Portugal frente à Académica (2-3). A seca nos últimos meses de temporada significou que era altura de mudar de clube e Joaquim Rocha seguiu o seu caminho, assinando pelo Penafiel. Em Penafiel foi totalista, melhor marcador da equipa e contribuiu de forma decisiva para a permanência da equipa na I Divisão, com golos em quatro das seis jornadas que teve a Liguilha, mas acabou por não ficar. Marcou o último golo na I Divisão a 29 de Abril de 1984, numa derrota dos penafidelenses em Vidal Pinheiro, contra o Salgueiros (1-3) e despediu-se da competição a 13 de Maio, com uma derrota em Guimarães (1-0), que empurrava os durienses para o 13º lugar e a tal Liguilha, com os segundos classificados das três zonas da II Divisão. Ali, Rocha fez mais quatro golos, um deles na vitória por 3-0 sobre o Chaves que, a uma jornada do fim, assegurava a manutenção.

Aos 33 anos, porém, Joaquim Rocha passou a ser jogador de II Divisão. Alinhou por uma temporada no Felgueiras e outra no Vizela até que decidiu aceitar a oportunidade que lhe era dada pela Torralta, que lhe ofereceu emprego no Hotel Meia Praia, em Lagos, a acumular com as tarefas de ajudar a equipa na Série F da III Divisão. Ainda treinou várias equipas algarvias até ao trágico acidente que o vitimou num dia de Novembro de 2003: saiu para pescar e deu duas quedas de 30 metros, vindo a ser encontrado sem vida num fundo de uma falésia, no sítio da Biscaia, no cabo de São Vicente.