Defesa elegante e com boa leitura de jogo, fez uma longuíssima carreira de quase década e meia na I Divisão. Não tem troféus para exibir, mas passou cinco anos no Sporting, dois deles acumulando com a presença na seleção.
2016-03-23

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1988

A forma de correr, harmoniosa, levantando sempre as pernas como se estivesse num concurso de estética, não batia certo com o jogador lutador que era Leal. Esquerdino, fazia todo o corredor com a facilidade de um falso-lento e ainda dava uma ajuda aos centrais, tanto em tarefas defensivas como nas bolas paradas atacantes, o que lhe permitiu chegar aos 29 golos na I Divisão, em pouco mais de 300 presenças. Como chegou tarde ao galarim, já com 23 anos, e o Sporting, que o foi buscar a Viseu, vivia naquela altura tempos difíceis, acabou por encerrar a carreira sem títulos nacionais coletivos, mas com orgulho nas 15 internacionalizações, conseguidas quando a Geração de Ouro de Queiroz começava a dar cartas no futebol nacional.

Nascido em Luanda, Leal seguiu a família a caminho de Viseu ainda como criança. Jogou nas camadas jovens do Repesenses e chegou à equipa do Viseu e Benfica que, juntamente com o Académico de Viseu, conseguiu a subida II Divisão, em 1985, através da Série C da III Divisão. Nesse Verão, porém, Leal mudou de cores, dando ali início a quatro épocas com a camisola do Académico. À terceira, a equipa ganhou a Zona Centro da II Divisão, assegurando a subida ao escalão principal e falhando apenas o título de campeã nacional, batida pelo Famalicão. Leal chegava à I Divisão com 23 anos, subindo a pulso cada degrau do caminho. A estreia, teve-a a 11 de Setembro de 1988, lançado por Carlos Alhinho como defesa-central, ao lado de Alexandre Alhinho, irmão do treinador, num empate a uma bola frente ao Belenenses, no Fontelo. Leal saiu-se tão bem que lhe pertenceu o golo do Académico. Voltaria a marcar mais duas vezes, nos dois jogos com o E. Amadora – curiosamente fez golos a duas equipas que ainda viria a representar – mas a sua qualidade não chegou para evitar o regresso do clube beirão à II Divisão. Leal é que já não desceu, pois o seu futebol não passou despercebido e depois do Verão já ele estava no Sporting.

O salto era grande e maior ainda se tornou quando se percebe que a estreia de Leal com a camisola leonina foi logo num jogo da Taça UEFA, em Alvalade, contra um Napoli que festejava o regresso de Maradona, depois dos problemas com a droga. Manuel José adaptou o novato a defesa-esquerdo e ele respondeu à altura, pois o jogo acabou empatado a zero. Foi mesmo resultado, aliás, dos três primeiros jogos de Leal pelo Sporting, pois seguiu-se um 0-0 em Penafiel, para o campeonato, e novo 0-0 com o Napoli, desta vez em Itália, levando à eliminação dos leões no desempate por grandes penalidades em que Ivkovic ganhou a aposta a Maradona. A primeira época de Leal em Alvalade até ia bem lançada, não fosse uma lesão em Março roubar-lhe dois meses de contacto com a equipa principal. Na segunda já se tornou imprescindível para Marinho Peres, o treinador que o utilizou como defesa-esquerdo na caminhada até às meias-finais da Taça UEFA – dez jogos de Leal, que foi totalista na campanha – e na arrancada fulminante na Liga, com onze vitórias seguidas, uma das quais graças ao primeiro golo de Leal pelos leões: a 29 de Setembro de 1990, um remate de fora da área deu o 2-1 frente ao E. Amadora, na Reboleira.

O destaque que ia ganhando na equipa leonina e a estatura elevada – 1,86m – levaram Leal à seleção nacional. Artur Jorge deu-lhe a primeira internacionalização a 17 de Outubro de 1990, num jogo nas Antas, contra a Holanda, que os portugueses ganharam surpreendentemente (1-0), graças a um golo de Rui Águas. Leal jogou como central pelo lado esquerdo, num esquema de cinco defesas e esteve impecável defensivamente, arrancando ali para uma carreira que em ano e meio teve 15 partidas pela equipa nacional, incluindo um golo a Malta – nos 5-0 de Fevereiro de 1991 –, e se concluiu na digressão pelos Estados Unidos, no Verão de 1992. A questão é que após duas épocas de grande regularidade pelo Sporting, Leal foi perdendo destaque com a chegada de Vujacic e o crescimento de Paulo Torres. E ao fazer apenas cinco jogos pelos leões em 1993/94 acabou por ser normal que lhe fosse mostrada a porta de saída: aos 29 anos, Leal ingressou no Belenenses, onde José Romão o via como central, mas onde João Alves, que depressa chegou para tomar o lugar do técnico alentejano, já olhava para ele como defesa-esquerdo. A expulsão em Aveiro, face ao Beira Mar, numa derrota por 3-2 que, em inícios de Março, deixava os azuis só com um ponto de avanço da linha de água, equivaleu à última partida de Leal pela equipa do Restelo. No final da época, o Belenenses salvou-se por um ponto, e Leal seguiu par Norte, para o Felgueiras, onde Jorge Jesus preferia um esquema de três defesas centrais que encaixava na perfeição nas suas caraterísticas. Leal até marcou na primeira jornada, um empate caseiro com o Chaves – foi dele o primeiro golo de uma equipa de Jesus na I Divisão – e falhou apenas dois desafios em todo o campeonato, mas o Felgueiras acabou por descer.

Foi então altura de voltar ao Sul. Talvez lembrados da regularidade com que este jogador lhes fazia golos, os responsáveis do E. Amadora chamaram-no para fazer parte da equipa de Fernando Santos. Mesmo já com 31 anos, Leal deu então início a mais três épocas muito regulares no escalão principal, as duas primeiras com Santos, a terceira com Jesus, todas elas com classificações tranquilas a meio da tabela. Na segunda dessas temporadas, Leal estabeleceu mesmo o seu máximo de golos marcados num campeonato: seis, incluindo um bis num empate do Estrela na Póvoa, contra o Varzim. A menor utilização em 1999/00 não o levou a deixar o clube imediatamente, mas mesmo tendo feito um golo na única partida que fez para o campeonato no Estrela de Quinito – nos 4-1 ao Paços de Ferreira, em Outubro de 2000 – Leal acabou por baixar um escalão na reabertura de mercado, rumando ao Santa Clara que Manuel Fernandes tentava trazer de volta à I Divisão. Nos Açores, Leal alinhou em todas as partidas de uma segunda volta que conduziu o Santa Clara a campeão da II Liga e de volta ao campeonato principal. Talvez já sem contar muito com isso, o defesa acabou por ter direito a mais uma época de I Divisão, a décima-quarta, quando já tinha feito 36 anos. Despediu-se a 30 de Março de 2002, já com 37 anos, numa derrota do Santa Clara frente ao Varzim (0-1).  E, antes de uma efémera passagem pelos bancos, como treinador, no distrito de Viseu, ainda se sentiu com coragem para fazer mais uma época na II Divisão B, sendo um dos mais utilizados na equipa do Académico de Viseu que acabou a Zona Centro em terceiro lugar.