Médio combativo e regular, foi descoberto em França para a equipa nacional que jogou o Mundial de juniores em 1979 e pontificou em Leiria, Setúbal e Guimarães antes de ser campeão no FC Porto.
2016-03-22

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1979

Durante anos, foi um dos indestrutíveis da I Divisão. Regular, forte na marcação, Nascimento era um jogador útil para qualquer treinador que apanhasse pela frente, até por somar a todos esses atributos uma estatura e uma força física invulgares no futebol português do início dos anos 80. E um profissionalismo que, por onde quer que tenha passado, lhe permitiu chegar a capitão de equipa. Sem hipóteses no Benfica, que foi buscá-lo a França, terá atingido o melhor nível nos dois Vitórias, primeiro capitaneando o de Setúbal até ao quinto lugar da Liga, depois terminando uma época em terceiro lugar no de Guimarães. Mas foi no FC Porto que, mesmo sendo menos utilizado, alcançou um título nacional, a porta de entrada para o ocaso como jogador e para a transformação em treinador, que o levou a atravessar o Mundo como adjunto de Manuel Cajuda.

Rui António Cruz Ferreira nasceu em Leiria, mas seguiu a família para França quando esta decidiu ir à procura de uma vida melhor. Formado na academia do FC Sochaux, escolheu um nome diferente: era o Nascimento. A explicação é simples: o pai, o mais velho de cinco irmãos, foi vítima de um erro no registo, em que lhe trocaram a ordem dos apelidos e, mesmo não tendo ficado com o nome de família nos documentos, Rui Ferreira quis prolongá-lo. Foi como Nascimento que, aos 18 anos, foi emprestado ao Saint-Dié des Vosgues, do terceiro escalão francês, o National, que era uma espécie de II Divisão B. Começando a ser falado, pela regularidade e até pelos golos que marcou, foi chamado à seleção nacional de juniores que no Verão de 1979 jogou o Mundial do Japão, marcando até um golo, na vitória portuguesa sobre o Paraguai de Romerito (1-0). E Peres Bandeira, que era selecionador e fazia parte da estrutura do futebol do Benfica, recrutou-o para o clube português. Sem oportunidades na Luz, porém, dois meses depois de voltar do Mundial já o jovem Nascimento estava na sua cidade natal, onde o U. Leiria começava a dar os primeiros passos na I Divisão e viu nele capacidade para ajudar.

Nascimento estreou-se na I Divisão a 11 de Novembro de 1979, lançado por Fernando Peres em vez de Cícero ao intervalo de um jogo em casa com o Beira Mar que acabou empatado a uma bola. Era nessa altura visto como médio ofensivo, porque a sua passada larga lhe permitia chegar depressa a posições de finalização. Semanas depois, a 2 de Dezembro, foi pela primeira vez titular. A ocasião era um jogo da Taça de Portugal, em Leiria, contra o Benfica de Castelo Branco, e Nascimento fez o último golo de um retumbante 7-0, já com a equipa reduzida a dez homens por lesão de Barrinha. Até final da época só falhou quatro partidas, fazendo mais dois golos: num 2-0 ao Varzim, a 20 de Janeiro, e num 1-0 ao Estoril, a 18 de Maio, um resultado que ainda deu esperanças de manutenção à equipa do Lis mas que acabou por ser insuficiente para evitar a Liguilha e a consequente descida à II Divisão. Nascimento, porém, voltaria, tal como a U. Leiria: membro proeminente da equipa que Pedro Gomes conduziu à subida e ao título de campeã nacional da II Divisão logo em 1981, já era titular de pleno direito por alturas do regresso. O ano do regresso, que ficou marcado pela primeira expulsão – Isidro Santos expulsou-o a 12 minutos do fim de um jogo em Braga por protestar a validação do golo que dava vantagem à equipa da casa – e por nova despromoção, desta vez sem margem para dúvidas, pois a U. Leiria foi última classificada. O único golo dessa época fê-lo na Taça de Portugal, numa vitória por 3-1 sobre o Viseu e Benfica.

Manuel de Oliveira, um dos treinadores que passou por Leiria na atribulada época de 1981/82, não deixou que Nascimento caísse de novo na II Divisão, chamando-o para integrar o plantel do V. Setúbal. E em boa hora o fez, porque Nascimento se tornou um jogador fundamental na equipa que fez duas excelentes épocas, com um sétimo lugar em 1983 e um quinto em 1984. Na primeira época, Nascimento não falhou um único minuto de campeonato – a sua única ausência foi na eliminação-surpresa da Taça de Portugal, frente ao Estrela de Portalegre, em Novembro – e foi, com cinco golos, o segundo melhor marcador da equipa. Na segunda, mesmo sendo por vezes substituído, foi titular em todas as partidas do Vitória, sendo mesmo o melhor marcador da equipa, com dez golos, entre os quais três bis (duas vezes ao Estoril e uma ao Rio Ave). Nascimento já era, por esta altura, capitão de equipa, condição na qual ficaria mais um ano em Setúbal, antes de rumar a Norte, assinando pelo V. Guimarães.

Em Guimarães tornou-se igualmente peça fundamental na equipa montada por António Morais, que acabou a época em quarto lugar. Passou a jogar como médio mais recuado, servindo-se do sentido de marcação e da visão de jogo para lançar ataques. Assim se manteve, aliás, em 1986/87, quando à cidade-berço chegou Marinho Peres e o Vitória andou a discutir o título com os três grandes. O terceiro lugar desse campeonato, a estreia nas provas europeias – a 17 de Setembro de 1986, com um empate a uma bola com o Sparta, em Praga – e a caminhada do V. Guimarães até aos quartos-de-final da Taça UEFA e ainda a primeira internacionalização A fizeram dessa época a melhor da carreira de Nascimento. A seleção vivia tempos de convulsão, com o auto-afastamento dos jogadores que tinham estado no Mundial do México. Não causou nenhuma estranheza, portanto, que Ruy Seabra o tivesse chamado e que ele tivesse sido titular na equipa que ganhou em Braga à Bélgica (1-0), a 4 de Fevereiro de 1987. Jogou pela equipa das quinas mais quatro vezes, todas nesse ano de 1987, mas a sua causa não foi em nada ajudada pela decadência que afetou a equipa do Vitória depois do Verão de 1987. A conturbada época de 1987/88, com três treinadores, acabou com um penoso 14º lugar, só se salvando a presença na final da Taça de Portugal, perdida por 1-0 frente ao FC Porto, a 19 de Junho.

Já feito capitão de equipa, Nascimento não quis, no entanto, renovar o contrato que o ligava ao Vitória, acabando por assinar pelo FC Porto, o que levou o presidente vimaranense a acusá-lo de traição à causa. Aos 29 anos, finalmente, Nascimento regressava a um grande. No FC Porto, porém, não jogou muito: fez 13 jogos no campeonato e um na Taça UEFA, marcando um golo em cada competição. Foram dois golos especiais, ainda assim. O primeiro, ao Hamburger, a 6 de Dezembro, permitiu estabelecer o empate numa partida que os dragões acabaram por ganhar por 2-1 e em que Nascimento lembrou velhos tempos, jogando como falso avançado-centro. O segundo, a 13 de Maio, abriu uma vitória dos dragões em Guimarães (2-0), numa altura em que a equipa já era virtual campeã, tal era a vantagem que tinha sobre o segundo classificado. Mesmo com o título de campeão no bolso, porém, Nascimento não conseguiu segurar-se no plantel portista, começando aí a via descendente. Passou a vestir a camisola do Tirsense, num campeonato no qual foi totalista mas somou quase tantas expulsões (três) como golos (cinco). Despediu-se da I Divisão com um golo, a 26 de Maio de 1991, num empate a duas bolas contra o Penafiel, em Santo Tirso. E como desta vez já ninguém o resgatou após a descida de divisão, seguiu com a equipa jesuíta para o escalão secundário. Aí, no entanto, já foi uma sombra de si mesmo na subida, alinhando em apenas sete partidas. Estava já próximo o final da carreira, também vivido sob o signo da escassa utilização: só cinco jogos na equipa do Amora que desceu da II Divisão de Honra à II Divisão B em 1993.

Depois das férias, Rui Nascimento já estava a trabalhar como adjunto de Manuel Cajuda na U. Leiria, o mesmo clube que lhe assinalara o início como futebolista. Os dois entenderam-se tão bem que a parceria durou 20 anos, com passagens por vários clubes portugueses e pelos Emiratos Árabes Unidos, onde Nascimento trabalha neste momento, no Al Sharjah.