Foi gozado pelos colegas por ter beijado o emblema depois de um par de golos quando ainda só tinha um par de meses de Salgueiros. Carlos Ferreira mal sabia que lhe estava reservado o papel de último capitão antes da quebra do clube.
2016-03-21

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1998

Lisboeta de gema, Carlos Ferreira só fez quatro épocas na I Divisão, e todas a Norte, no Salgueiros. Era um médio regular, depois transformado em defesa-lateral, que trazia no currículo a seriedade que quem viveu na pele as condições difíceis dos escalões secundários, onde chegou a ser parceiro de Costinha, tanto no Oriental como na subida que trouxe o Nacional à II Divisão de Honra. Chegou ao Salgueiros, que defendeu no meio da crise, sendo mesmo o último capitão da equipa de Vidal Pinheiro antes da tragicomédia em que se transformou a época de 2004/05 e que acabou por conduzir à extinção e refundação do clube.

Formado na Sanjoanense, de São João da Talha, começou a fazer carreira na zona oriental da cidade de Lisboa, primeiro no Águias de Camarate, ainda no distrital, depois no Oriental, onde cresceu a jogar na III Divisão, ajudando na promoção à II Divisão B, em 1993. Ali andou por mais três épocas, sempre a meio da tabela, antes de rumar ao Nacional da Madeira, em 1996. No Funchal voltou a encontrar Costinha, que é três anos mais novo e que Carlos tinha visto nascer para o futebol, em Marvila. Com uma equipa muito forte para o escalão, na qual estavam também Fernando Aguiar, Ivo Vieira ou Rui Miguel, o Nacional subiu à II Divisão de Honra, o que acabou por atrasar a vida de Carlos Ferreira, que nessa época alinhara sobretudo como defesa-direito. É que passando a ser profissional, o Nacional via-se na obrigação de pagar a indemnização por formação e, não querendo fazê-lo, acabou por libertá-lo de volta. Carlos Ferreira voltou, assim, a jogar a II Divisão B, subindo de novo, desta vez com os grenás de Marvila. E as duas subidas seguidas chamaram a atenção dos olheiros de I Liga, acabando o jogador por assinar pelo Salgueiros.

Dito deu-lhe a estreia na Liga a 23 de Agosto de 1998, chamando-o aos 58 minutos para o lugar de Schuster, que estava a atuar como médio-direito, na vitória do Salgueiros sobre o Farense (4-2), em Vidal Pinheiro. Não se impôs de imediato, mas depois de o fazer, em inícios de Outubro, foi difícil vê-lo fora da equipa: titular pela primeira vez numa antecipação da 13ª jornada, em Coimbra, contra a Académica, foi um regular médio-esquerdo na vitória do Salgueiros (1-0). Foi ainda à esquerda do meio-campo que visitou as Antas, para o seu primeiro dérbi portuense (4-1 para o FC Porto, a 31 de Outubro), mas já foi como defesa-direito num esquema de três centrais que sacou pela primeira vez pontos a um grande (1-1 com o Benfica, na Maia, para permitir a transmissão televisiva). Na vitória sobre o Sporting (2-1, outra vez na Maia, a 4 de Dezembro) já jogou como médio-centro, a mesma posição da qual partiu para aquele que ainda hoje recorda como o melhor jogo da sua carreira: os 5-1 ao Rio Ave, a 20 de Dezembro de 1998, desafio no qual fez os dois primeiros golos na Liga portuguesa.

Carlos Ferreira impunha-se pela polivalência, pois entre a defesa e o meio-campo só não jogava como defesa-central. Mas isso nem sempre vale muito para um treinador. Na segunda época, Dito só o levou para o banco em meados de Outubro e só lhe deu os primeiros minutos lá mais para o fim do mês, numa partida em casa contra o Gil Vicente que os salgueiristas perderam por 2-1. E mesmo aí, foi o primeiro a sair, ainda antes do intervalo. Quando, à 10ª jornada, uma derrota com o Alverca levou à troca de treinador e à entrada de Vítor Manuel, Carlos Ferreira passou a ser uma aposta segura, só saindo da equipa durante algumas semanas em Abril, por lesão. Com Vítor Manuel voltou a ser uma espécie de tapa-buracos, alternando entre médio-centro, médio-direito, lateral direito ou até lateral-esquerdo, lugar que ocupou na última jornada da Liga, num desafio contra o Sporting que o Salgueiros perdeu por 4-0. Com essa vitória, o Sporting foi campeão, ao passo que com a derrota o Salgueiros só evitou a descida porque, ao mesmo tempo, o V. Setúbal não foi além de um empate caseiro com a U. Leiria. Uma terceira época regular e sem grandes problemas de classificação veio, porém, dar lugar a uma quarta com menor utilização e que culminou com a descida de divisão. A 14 de Abril de 2002, Carlos Ferreira fez o último dos seus 86 jogos na I Divisão, saindo lesionado, logo aos 17 minutos, para dar entrada ao brasileiro Delson, numa partida que os salgueiristas perderam em casa com a U. Leiria (0-1), ocupando o 16º lugar que, mesmo ganhando ao Varzim no último dia, lhes ditou a despromoção.

Às quatro épocas com o Salgueiros na I Liga, sucederam-se mais duas na II Divisão de Honra, a segunda das quais um verdadeiro milagre, pois apesar das dificuldades financeiras a equipa dirigida por Luís Norton de Matos acabou a prova em sexto lugar. Capitão dessa equipa, Carlos Ferreira já não ficou para 2004/05, época que os salgueiristas tiveram de abordar na II Divisão B, devido à sua incapacidade para pagar as dívidas à Liga. Um ano a jogar com juniores – e só com uma vitória – redundou na extinção do clube, mas Carlos Ferreira já estava no Dragões Sandinenses, equipa em que foi uma espécie de extensão em campo do treinador, Filipe Moreira. O mesmo treinador que, dois anos depois, tendo Carlos Ferreira acabado a sua carreira de jogador no Odivelas, o levou para o Casa Pia, como seu adjunto. Carlos Ferreira começava ali a vida de técnico, que o levou às camadas jovens do ADCEO, evidentemente sem o destaque que chegou a ter dentro dos relvados.