O futebolista com mais jogos em toda a história do Sporting, Hilário impunha-se pela regularidade e pela inteligência com que jogava cada bola.
2016-03-19

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1958

O mais credenciado defesa-esquerdo da história do futebol português é aquilo a que pode chamar-se um jogador construído em laboratório. Hilário sempre preferiu o pé direito para jogar futebol e, na juventude, em Moçambique, alinhou em diversas posições, quase sempre à direita ou ao meio. Contudo, chegado a Lisboa para jogar no Sporting, a oportunidade que teve foi para jogar a defesa esquerdo, em substituição de Pacheco. Arregaçou as mangas, meteu em campo a regularidade e a concentração que lhe marcaram a carreira e ganhou o lugar até ao momento em que, década e meia depois, decidiu que chegara a hora de deixar os relvados.

Ainda que, por lesão, tenha falhado a final da Taça das Taças, em 1964, era pouco propenso a magoar-se e quase nunca conhecia quebras de forma, pelo que, ao todo, fez 331 jogos com a camisola do Sporting no campeonato (valor apenas superado, no clube leonino, pelas 332 partidas do guarda-redes Damas), sem no entanto marcar um único golo. A hegemonia do Benfica, onde três anos e meio depois dele chegou o seu grande amigo Eusébio (trataram-se sempre um ao outro por “irmão” até à morte do King), não lhe permitiu ganhar mais do que três campeonatos nacionais, outras tantas Taças de Portugal e uma Taça das Taças, honrarias às quais juntou 39 internacionalizações e a eleição como melhor defesa-esquerdo do Mundo, no rescaldo do Mundial de 1966. Acabou por ser uma viagem longa e muito melhor do que a imaginada por Hilário Rosário da Conceição, um rapazinho pobre nascido no Alto Mahé, na então Lourenço Marques, a 19 de Março de 1939.

As dificuldades passadas pela família não lhe permitiram entrar na escola senão aos 10 anos, altura em que já brilhava nas futeboladas de rua, sempre descalço e a jogar a extremo direito. Corria veloz e chutava bem, pelo que era sempre ali que o queriam. Foi com os amigos de então que formou o FC Arsenal, clube de bairro que pedia meças a qualquer outro grupo de rapazes nas informais peladas da capital moçambicana. E foi por o verem jogar tão bem que os dirigentes do Atlético de Lourenço Marques o convidaram a ingressar no primeiro clube a sério. Não contavam, porém, com um contratempo: pouco habituado a andar calçado, o jovem Hilário, então com 14 anos, não conseguia usar as botas de travessas que marcavam o dia-a-dia dos futebolistas. A solução foi fazer a transição através do basquetebol, habituar o rapaz primeiro às sapatilhas, para depois lhe calçar as botas de jogador. E, dois anos depois, já Hilário era o médio-centro dos juniores do Atlético.

O futebol, contudo, era para Hilário apenas uma paixão. Gostava da bola e do Sporting, mas precisava de trabalhar para ganhar a vida. Por isso, nem olhou para trás quando, tinha ele 17 anos, do Sporting de Lourenço Marques lhe falaram em transferência e lhe prometeram emprego na Companhia das Águas. Aceitou, claro, mesmo sem saber que aquela era a porta que, dois anos mais tarde, mais precisamente no dia 3 de Agosto de 1958, haveria de o trazer a Lisboa. Antes, como médio direito, defesa direito e defesa central, jogou pelo clube e pela selecção da cidade em desafios contra equipas de outras províncias ultramarinas. Foi assim até fazer 19 anos e lhe comunicarem que o Sporting o queria em Lisboa.

A timidez e a modéstia que ainda hoje lhe moldam o carácter não facilitaram a sua imposição imediata, mas depressa Hilário mostrou outros atributos capazes de o conduzir à primeira categoria. Era rápido, correto, tinha um tempo de entrada aos lances imbatível, raramente precisando de cometer faltas, e ainda por cima mantinha sempre inabalável a concentração, o que lhe permitiu fazer épocas inteiras sem erros. Enrique Fernández estreou-o oficialmente a 19 de Outubro de 1958, frente ao Torreense, numa vitória por 4-0 correspondente à sexta jornada do campeonato e depressa o jovem moçambicano se tornou titular absoluto a… defesa-esquerdo. Ainda saiu do onze por um mês e pouco, mas quando regressou, em vésperas de Natal, para um empate contra o Belenenses em Alvalade foi para não mais desaparecer das escolhas. Acabou essa primeira época com 16 jogos, mais oito na Taça de Portugal, sendo totalista na seguinte. Aliás, se limitarmos a análise a jogos do campeonato, Hilário só voltou a ficar fora do onze do Sporting em Março de 1961, numa derrota frente ao Barreirense. Entretanto já estivera na derrota frente ao Belenenses, na final da Taça de Portugal de 1959/60, e vira o Sporting acabar dois campeonatos em segundo lugar, sempre atrás do Benfica. Foi, ainda assim, um dos elementos fundamentais da equipa campeã nacional em 1961/62 – falhou apenas dois jogos, por causa de uma lesão contraída na Luz, contra o Benfica, em Janeiro – e na vitória na Taça de Portugal de 1962/63, com um 4-0 sobre o V. Guimarães na final.

O mais utilizado na equipa do Sporting em 1962/63 (40 jogos, entre campeonato, Taça de Portugal e Taça dos Campeões Europeus), Hilário tornara-se tão importante que se temeu o pior quando, a 10 de Maio de 1964, em jogo da Taça de Portugal, com o V. Setúbal, chocou com José Maria e fraturou a tíbia, dessa forma ficando certo que falharia a final e a finalíssima da Taça das Taças, jogadas a 13 e 15 de Maio, em Bruxelas e Antuérpia. Quando ficou evidente que Hilário não ia à Bélgica, na instalação sonora foi chamado Morais, o reservista que acabou por marcar o golo que permitiu ao Sporting guardar o troféu. E à chegada a Lisboa toda a equipa se deslocou a casa de Hilário, bem perto de Alvalade, para lhe permitir beber também o champanhe da vitória: ele estivera, afinal, em oito dos dez jogos que tinham conduzido o Sporting até ali.

Por essa altura ainda Hilário não era indiscutível na seleção. José Maria Antunes dera-lhe a estreia, num particular contra a França, em Novembro de 1959, mas o moçambicano mantinha com o benfiquista Cruz uma batalha pela sucessão de Ângelo. Só a chegada de Manuel da Luz Afonso, em Novembro de 1964, quando o moçambicano já tinha recuperado da fratura e reassumira a condição de titular do Sporting, fez pender a balança para o seu lado: suportado na sua regularidade no Spoting, Hilário faltou a apenas cinco jogos, quatro deles particulares, até se despedir da seleção, numa derrota contra a Bélgica, em Fevereiro de 1971. Pelo caminho, fez um notável Mundial de 1966, na sequência do seu segundo título de campeão nacional (1965/66) e de uma época em que alinhou em todos os minutos dos 40 jogos oficiais feitos pelo Sporting. Voltaria a ser campeão em 1969/70, ainda que essa época não fosse perfeita, pois os leões perderam a final da Taça de Portugal para o Benfica. Por lesão, Hilário não estaria presente na “vingança”, conseguida pelo Sporting na final de 1970/71, mas os três jogos em que participou nessa campanha deram-lhe o direto a também chamar sua à taça. Já não demorou muito a pendurar as chuteiras: alinhou em todos os jogos do campeonato de 1971/72, estando inclusive na final da Taça de Portugal, perdida após prolongamento para o Benfica, mas no decorrer da época seguinte anunciou que aquela seria a sua última em campo. Despediu-se do campeonato a 22 de Abril de 1973, numa vitória por 3-1 contra o U. Coimbra, em Alvalade, jogando depois disso os derradeiros 10 minutos da decisão da Taça de Portugal, a 17 de Junho, um jogo em que o Sporting venceu o V. Setúbal por 3-2: Hilário ajudou a equipa a aguentar o assalto final dos sadinos, interessados em forçar o prolongamento.

Depois de acabar a carreira, Hilário ainda foi treinador-adjunto no Sporting e técnico principal em clubes de menor dimensão, conseguindo algumas subidas de divisão. Nunca atingiu aos comandos, porém, a projeção que teve nos relvados. Mesmo nunca tendo feito um único golo pelo Sporting, somou ao todo 471 jogos pelos leões, ainda hoje o máximo de um só futebolista na história do clube.