Foi campeão no Boavista e terceiro melhor marcador de uma Liga com a camisola do Campomaiorense. Era em equipas pequenas que melhor impunha o seu futebol, mais feito de pujança e força física.
2016-03-18

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1994

Do Brasil já vieram para Portugal muitos géneros de futebolistas. Uns eram super-habilidosos mas pouco competitivos, outros um problema de adaptação. Demétrios Montanini, um atacante que o Campomaiorense foi buscar ao Bahia em 1997, não se enquadrava no estereótipo do jogador brasileiro: era robusto, fisicamente possante, atacante típico de equipa pequena, daqueles que se aguentava sozinho até os companheiros chegarem à frente. Ainda chegou ao Boavista, onde fez parte da histórica equipa que ganhou o campeonato nacional em 2001, mas era a batalhar sozinho contra o Mundo que se sentia melhor, razão pela qual as suas melhores épocas as fez em Campo Maior e, depois, em Moreira de Cónegos.

Nascido em São Paulo, Demétrios teve um início promissor no Botafogo paulista, onde fez a formação. Chegou à equipa principal e foi-se destacando com golos, a ponto de chamar a atenção do Santos, que na altura vivia uma fase má, sem títulos, mas procurava o regresso à glória. Na estreia de camisola branca, contra o Rio Branco, fez dois golos, enchendo de alegria o pai, que era santista de coração. Só que não se impôs e, depois de cinco jogos sem golos no Brasileirão de 1994, optou por sair por empréstimo para o Remo, que tinha sido campeão do Pará e jogava a segundona. Demétrios ainda voltou à Série A, com as camisolas do Fluminense e do Bahia, mas aos 26 anos, sem grandes perspetivas de sucesso, aceitou o convite para viajar para Portugal, onde assinou pelo Campomaiorense, que acabara de subir à I Divisão. A adaptação não foi fácil: Bernardino Pedroto deu-lhe a estreia a 5 de Outubro de 1997, colocando-o em campo no lugar de Isaías a 18 minutos do fim de um jogo em que os raianos ganharam por 2-0 ao E. Amadora, e foi despedido duas semanas depois, após a derrota em Leça. Com João Alves, Demétrios continuou a ser suplente com alguma utilização, sendo nessa condição que fez o primeiro golo: foi no Restelo, no último minuto de um jogo em que o Campomaiorense ganhou por 1-0 ao Belenenses. Só em Abril, à 28ª jornada, o brasileiro foi titular pela primeira vez. E à segunda, rebentou: um hat-trick em 42 minutos contra o Sporting só não fez mais sensação porque na segunda parte os leões viraram de 3-1 para 3-5 e a proeza do brasileiro acabou secundada.

Titular nas últimas sete jornadas do campeonato, Demétrios encerrou a prova com sete golos. Correr-lhe-ia melhor a segunda época, que já começou como primeira escolha para João Alves. Um golo ao Alverca no arranque e um hat-trick à Académica na segunda jornada asseguraram-lhe o topo da lista dos marcadores no final de Agosto. Até final da época fez mais dois hat-tricks, ao Farense e ao Chaves, encerrando o campeonato com 16 golos e um extraordinário terceiro lugar na tabela dos goleadores, apenas atrás de Jardel e Nuno Gomes. Nada mau para uma equipa que acabou a Liga em 13º lugar e que, mesmo assim, chegou à final da Taça de Portugal. Demétrios jogou-a, no Jamor, contra o Beira Mar, a quem tinha feito três golos nos dois jogos de campeonato, mas ficou em branco e os aveirenses levaram a Taça, fruto de uma vitória por 1-0. A verdade é que o robusto atacante brasileiro começava a fazer falar de si e nem um fraco início de campeonato em 1999/00 o impediu de se transferir para o Boavista em Janeiro de 2000. Raramente foi titular nesta primeira meia-época no Bessa, mas ainda contribuiu com alguns golos decisivos para o quarto lugar final da equipa de Jaime Pacheco: fez os golos do empate no Restelo (1-1) e em Braga (2-2) e assegurou em nome próprio as vitórias contra V. Setúbal, Farense e E. Amadora (todas por 2-1). Ganhou assim um lugar no plantel de 2000/01, aquele que viria a ser campeão nacional.

Mesmo pouco utilizado nessa época de ouro para o futebol do Boavista, Demétrios ainda fez dois golos, num 6-1 ao Freamunde, na Taça de Portugal, prova em que os axadrezados se ficaram pelas meias-finais, nas quais foram batidos pelo Marítimo, em casa. Além disso, estreou-se nas competições europeias, entrando ainda na primeira parte para o lugar de Frechaut numa vitória por 2-1 frente ao Vorskla Poltava, no Bessa, a 28 de Setembro de 2000, que contou para a primeira eliminatória da Taça UEFA. Terminada a temporada, contudo, o brasileiro teve de somar a alegria do título de campeão à tarefa de procurar outro clube. Passou um ano no Beira Mar – cinco golos no campeonato e um na Taça de Portugal – de onde transitou para o Moreirense, onde voltou a encontrar o acerto que revelara em Campo Maior. Na primeira época na equipa de Manuel Machado voltou ao duplo dígito, com dez golos, entre os quais um ao Benfica e um ao FC Porto, em jogos que a sua equipa perdeu. Já não foi o que aconteceu em Fevereiro de 2004, quando um golo de cabeça de Demétrios, a quatro minutos do fim, valeu ao Moreirense um saboroso empate na Luz contra o Benfica, num jogo em que ainda teve tempo para ser expulso, por acumulação de cartões amarelos.

Foi a última de quatro expulsões de Demétrios em Portugal. E só não foi o último golo porque a 9 de Abril de 2004 ainda marcou na vitória por 2-1 do Moreirense sobre o Boavista. Demétrios ainda ficou mais um ano no Moreirense, mas já sem o fulgor físico das suas melhores temporadas, já não fez um único golo nos oito jogos em que alinhou. Despediu-se do campeonato português no Bessa, lançado por Jorge Jesus na última meia-hora de uma partida contra o Boavista que os cónegos perdiam por 1-0 e na qual ajudou a equipa verde-branca a chegar ao empate, marcado por Lito. NO final da época, porém, regressou ao Brasil. Ainda jogou no Comercial, de Ribeirão Preto, e no Mineiros alagoense antes de passar a agenciar jogadores, tarefa que desempenha neste momento e que o levou a trazer alguns futebolistas brasileiros para Portugal.