O início promissor, no Olhanense e no V. Guimarães, não resistiu a 18 meses de paragem devido a lesão e a dois anos com pouca competição no Benfica. Rui Lopes não foi o jogador de seleção que prometia, mas ainda fez carreira valorosa na I Divisão.
2016-03-17

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1974

Dono de uma excelente técnica individual, Rui Lopes destacava-se sobretudo por ser um avançado moderno, daqueles que não estava mas aparecia. Forte nos corredores laterais, fazia uso da sua velocidade e da mobilidade para ser a muleta indispensável ao tradicional avançado-centro, razão que levava Manuel de Oliveira, um treinador que gostava de pensar à frente do seu tempo, a querê-lo nas suas equipas. Uma lesão gravíssima aos 22 anos e a fortíssima concorrência que enfrentou nas duas épocas seguintes, que passou no Benfica, ter-lhe-ão custado a estagnação e a não-confirmação do potencial que levou a que estivesse na seleção nacional de esperanças, quando brilhou no ataque do Olhanense e depois do V. Guimarães. Ainda assim, foi sempre um jogador útil em todas as equipas que foi representando.

Alfacinha de gema, Rui Lopes só começou a jogar futebol a sério aos 17 anos, no SL Águias, de Campo de Ourique. Destacou-se e logo o recrutaram para a equipa de juniores do Benfica, de onde o passo para a seleção nacional da categoria pareceu bastante menos difícil. Internacional sub19 nesse ano de 1973, foi integrado no plantel que Jimmy Hagan orientava na tentativa de conquistar o tetra-campeonato, mas não só não chegou a jogar um único minuto, face à concorrência de Jordão, Nené, Eusébio, Vítor Batista, Artur Jorge e Moinhos, como o treinador inglês acabou por se demitir logo em Setembro, acabando o Benfica de Fernando Cabrita por ficar atrás do Sporting. Com a chegada de Milorad Pavic para comandar as águias foi entendido que o melhor para o rapaz era rodar e Rui Lopes foi cedido por empréstimo ao Olhanense, onde encontrou pela primeira vez Manuel de Oliveira, o treinador que lhe marcou a carreira, e Jorge Jesus, de quem foi variadíssimas vezes colega e mais tarde adjunto em várias equipas técnicas. A estreia na Liga fê-la logo na primeira jornada, a ganhar ao Sporting, campeão nacional (1-0, a 8 de Setembro de 1974). Ao segundo jogo, a 15 de Setembro, não só veio o primeiro golo como apareceu logo o primeiro bis, numa derrota por 6-4 contra o Belenenses no Restelo. Rui Lopes acabou a época com oito golos, foi internacional esperança por Portugal, alinhando num jogo contra a Inglaterra, e, apesar da descida de divisão do Olhanense, conseguiu ficar na I Divisão, sendo cedido ao V. Guimarães, que procurava colmatar as saídas de Romeu e Jeremias.

Fernando Caiado fez de Rui Lopes o principal apoio de Tito, o goleador principal dos minhotos, e o jovem lisboeta respondeu à altura. Marcou nove golos no campeonato, entre eles dois que deram que falar, por terem valido um empate com o FC Porto nas Antas (1-1) e uma vitória frente ao mesmo FC Porto no D. Afonso Henriques (2-1). O Vitória acabou a época em sexto lugar e, sobretudo, chegou à final da Taça de Portugal, prova na qual o jovem atacante lisboeta fez mais seis golos. O destaque, aqui, foi para um hat-trick ao Belenenses – o primeiro da sua carreira, num 3-1 a 24 de Abril -, para mais um ao FC Porto – na vitória por 2-1 em Guimarães, que valeu o acesso às meias-finais – e para o golo que marcou na final, perdida contra o Boavista, por 2-1, a 12 de Junho. Esta ponta final de época teve correspondência no início da temporada seguinte, na qual Rui Lopes fez dois golos nas duas primeiras jornadas de campeonato (ao Atlético e ao Sporting). Porém, a 12 de Setembro de 1976, uma rotura no adutor da perna direita, contraída em Guimarães frente aos leões, custou-lhe o resto da temporada no estaleiro. Rui Lopes ainda foi convocado para a seleção nacional que ia defrontar a Polónia, no arranque da qualificação para o Mundial da Argentina, mas não pôde naturalmente dar o seu contributo. Foi o primeiro revés da sua ainda curta carreira, que no entanto em 1977/78 parecia ir ter um incremento: a recuperar, ficou no plantel do Benfica que John Mortimore procurava conduzir ao tricampeonato, estreando-se com a camisola das águias a 12 de Março de 1978, 18 meses depois de se ter magoado. Ainda assim, depois de um 0-0 contra o Varzim, na Póvoa, repetiu a titularidade em Anfield Road (1-4 contra o Liverpool, três dias depois), mantendo-se na equipa até marcar em Espinho, a 26 de Março, o seu primeiro golo pelos seniores do Benfica.

Até final da época ainda fez mais dois golos – um bis ao Riopele, na última jornada – o que, apesar do segundo lugar dos encarnados no campeonato, contribuiu para que ganhasse direito a mais um ano de águia ao peito. Como ainda por cima, depois de substituir Shéu, fez o golo da vitória sobre o Barreirense, na primeira jornada do campeonato de 1978/79 (1-0, numa recarga a Chalana, a 25 de Agosto), admitia-se que estivesse lançado. Não foi assim. A última vez que Mortimore recorreu a Rui Lopes foi a 18 de Outubro: chamou-o nos últimos 19 minutos para o lugar de Eurico, numa substituição com a qual tentava desfazer o 0-0 na partida em casa com o Borussia M’Gladbach. E Rui Lopes só voltou a jogar oficialmente depois do Verão de 1979, quando Manuel de Oliveira o seduziu a trocar a Luz pelo Funchal e a vestir a camisola do Marítimo. Os quase três anos que passou com tão pouca competição, porém, terão tido alguma interferência no futebol do avançado lisboeta, que nunca mostrou no Marítimo aquilo que tinha exibido em Guimarães. Quatro golos na primeira época (com mais um na Taça de Portugal, prova na qual os insulares chegaram às meias-finais) e só um na segunda culminaram com a descida de divisão a equipa já então orientada por António Medeiros e na passagem de Rui Lopes para outro projeto. Em 1981 assinou pelo Penafiel, que tinha sido a equipa sensação da última Liga. Cinco golos no campeonato – mais três na Taça de Portugal – ainda lhe chegaram para ser o melhor marcador da equipa, mas o Penafiel acabou por cair para a segunda divisão, depois do 13º lugar final.

Aos 28 anos, Rui Lopes ainda ficou na I Divisão, assinando pelo V. Setúbal, de onde o chamava Manuel de Oliveira, ainda crente nas suas capacidades. E, apesar de começar a temporada como suplente, acabou por se impor como segundo avançado, no apoio a Fernando Cruz. Ainda fez três golos – o primeiro valeu um empate a uma bola com o Benfica, na Luz – na caminhada do Vitória até ao sétimo lugar, mas já foi desaparecendo das escolhas do treinador na segunda época, que os sadinos terminaram na quinta posição, e na qual marcou apenas uma vez, na Taça de Portugal, face ao Vilanovense. Era altura de descer um patamar, o que Rui Lopes fez ao assinar pelo Farense. Em Faro, com Fernando Mendes aos comandos, ainda fez uma época muito razoável: sete golos, os últimos dos quais marcados num 3-1 ao V. Setúbal, a 28 de Abril de 1985. Esse bis ainda manteve o Farense em 11º lugar, que chegava para a manutenção, mas a equipa conseguiu apenas um ponto nos últimos quatro jogos e acabou por sentenciar a descida com uma derrota em Vidal Pinheiro, contra o Salgueiros (1-3), a 31 de Maio. Esse foi o último dos 194 jogos de Rui Lopes na I Divisão. Passou ainda três épocas no Estrela da Amadora, sempre a cheirar a subida que a equipa veio a conseguir em 1988. Rui Lopes, porém, não regressou: assinou pelo Sacavenense, onde terminou a carreira de jogador, em 1989, com 35 anos. Fez-se treinador, vindo a estar com Jorge Jesus em várias equipas técnicas (Amora, Felgueiras, U. Madeira, E. Amadora e V. Setúbal) e a trabalhar com José Garrido no médio oriente, além de ser treinador principal nos escalões secundários, por exemplo no Olivais e no Alcanenense.