Duas vezes campeão em seis épocas no FC Porto, Acúrcio acumulava as balizas do futebol com o ataque no hóquei em patins. E nos relvados até fez um golo de baliza a baliza, num jogo que lhe custou uma Taça de Portugal porque depois partiu um braço.
2016-03-16

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1956

Tinha tudo para ser um daqueles heróis de capa e espada tão em voga na década de 50. Era guarda-redes, o mais solitário dos postos de uma equipa de futebol, mas também jogava ao ataque, no hóquei em patins, que foi o seu primeiro e último amor. Internacional nas duas modalidades, Acúrcio Carrelo teve momentos épicos na sua ainda assim curta carreira na baliza do FC Porto e da seleção nacional, como o do golo que marcou de baliza a baliza, a José Pereira, no Restelo, com um braço partido. Foi em Março de 1958 e três anos depois, aos 30, decidiu deixar as redes para voltar a Moçambique, onde o profissionalismo futebolístico ainda não lhe impunha que largasse os patins que lhe tinham marcado o crescimento.

Nascido em Oeiras, numa rua que se chamava das Antas, o jovem Acúrcio começou por se dedicar ao hóquei. Ainda adolescente, trabalhou no rinque da cidade, onde começaram a patinar muitos dos que mais tarde vieram a fazer as noites de glória do hóquei em patins português. Entre eles, os dois irmãos Carrelo, Acúrcio, o mais velho, e Manuel. A entrada na idade adulta, os dois Carrelo fizeram-na em Moçambique, para onde emigraram à procura de uma vida melhor. E ali começaram a destacar-se também no desporto. Acúrcio, que era alto e forte, jogava à baliza no futebol e ao ataque no hóquei em patins, com a camisola do Ferroviário de Lourenço Marques, hoje Maputo. E foi o hóquei que primeiro o chamou a defender as cores pátrias, pois foi chamado para a seleção que esteve no Mundial de Barcelona, em 1954. Atentos à sua polivalência e querendo lançar uma forte equipa de hóquei em patins, os responsáveis do FC Porto foram buscá-lo no ano seguinte: Acúrcio ainda tardou a impor-se na baliza do futebol, onde Dorival Yustrich preferia Pinho, mas foi o primeiro internacional de hóquei em patins dos dragões.

A estreia na I Divisão, Acúrcio fê-la a 1 de Janeiro de 1956, numa vitória por 3-1 sobre o Sporting. Esse foi, de resto, o único jogo que fez nesse campeonato, ganho pelo FC Porto, a interromper três anos de jejum. Na Taça de Portugal também só esteve na primeira eliminatória, um esclarecedor 13-1 ao Portimonense, ocupando-se Pinho das redes até à final, que os dragões também venceram, batendo o Torreense por 2-0. Yustrich foi-se embora e o brasileiro Flávio Costa, que veio substituí-lo, escolheu Acúrcio para titular na baliza. Para tal muito terão contribuído as exibições magistrais do guarda-redes na digressão sul-americana que os dragões fizeram em Julho, com destaque para uma vitória por 1-0 sobra a Roma em que ele defendeu tudo. Acúrcio começou, assim, a Liga como titular, mas nem ele ficou satisfeito com o frango que deu, semanas depois, na estreia portista na recém-criada Taça dos Campeões Europeus. O golo de Gainza, o primeiro dos dois com que o Athletic Bilbau ganhou por 2-1 no Porto, ficou-lhe atravessado. A ele e a Flávio Costa, que depois da primeira derrota no campeonato (2-3 com o Benfica) deu a baliza a Pinho até final de uma Liga que o FC Porto terminou em segundo lugar, a um ponto do Benfica.

A titularidade absoluta na baliza, Acúrcio só a conseguiu a partir de Setembro de 1957. Desta vez foi Pinho quem começou a temporada na baliza, mas a estreia com derrota frente ao Sporting (0-3) levou o treinador a mudar. Acúrcio defendeu na série de 13 vitórias consecutivas que culminou com os 2-1 ao Sporting nas Antas e a ascensão ao primeiro lugar. FC Porto e Sporting andaram sempre a par até à última jornada, na qual entraram com o mesmo número de pontos, mas com vantagem leonina no desempate. Os verde-brancos recebiam o Caldas e bastava-lhes ganhar, o que fizeram, por 3-0, assegurando o título, de nada valendo ao FC Porto a vitória sobre o Belenenses no Restelo (3-1). Essa tarde de 23 de Março de 1958 ficou na história de Acúrcio pelas melhores e piores razões. Porque aos 12 minutos de jogo marcou a José Pereira um fantástico golo de baliza a baliza, mas também porque pouco depois do terceiro golo portista, partiu um braço num choque com Matateu. Aguentou até final na baliza, mas teve depois de ser imobilizado, não alinhando em nenhum dos sete jogos que o FC Porto fez na Taça de Portugal, culminando com a vitória sobre o Benfica na final, por 1-0.

A lesão de Acúrcio levou a que Otto Bumbel mantivesse Pinho nas redes portistas após o Verão de 1958, sendo que na sombra começava a aparecer o jovem Américo. Mesmo assim, quando chegou Bela Gutmann, a meio dessa temporada que culminou com novo título de campeão para os dragões, Acúrcio foi chamado à titularidade. Ainda fez nove jogos nesse campeonato, incluindo o dramático 3-0 em Torres Vedras que deu o título e incluiu a espera, sentados no pelado, por notícias acerca do Benfica-CUF, o tal que se tinha atrasado e em que os encarnados ficaram a um golo do objetivo. Depois, Acúrcio fez ainda toda a campanha portista na Taça de Portugal – derrota contra o Benfica na final, por 1-0 – e, pelo meio, estreou-se na seleção nacional: foi a 21 de Maio de 1959 que, depois de experimentar Carlos Gomes contra a Inglaterra e Dinis Vital frente à Suíça, José Maria Antunes fez jogar Acúrcio na derrota por 2-0 com a Suécia em Gotemburgo. Acúrcio terá agradado, tanto que fez como titular os sete jogos seguintes da seleção, só cedendo o lugar a Costa Pereira em Março de 1961, quando houve troca de selecionador no arranque da qualificação para o Mundial do Chile, em 1962.

Por essa altura, fruto da saída de Pinho para Guimarães, Acúrcio era titular indiscutível na baliza do FC Porto. Só falhou dois jogos em 1959/60, época na qual voltou a estar na baliza portista nas duas partidas da Taça dos Campeões – duas derrotas, mais uma vez, agora com o Ruda Hzvezda – e apenas devido a uma lesão contra o Leixões, em Janeiro de 1961, viu Américo tonar-lhe o lugar durante dois meses dessa temporada. Mesmo assim, foi ele o guarda-redes na fase decisiva dessa Taça de Portugal: esteve na eliminação do Sporting nas meias-finais e depois na histórica derrota contra o Leixões na final, que nesse ano foi disputada nas Antas. Esse 2-0, a 9 de Julho de 1961, foi o último jogo oficial que Acúrcio fez na baliza do FC Porto. Nesse Verão regressou a Moçambique, onde voltou a defender as redes do Ferroviário e abraçou a tarefa de treinador de hóquei em patins que chegou a desempenhar em Portugal, na AD Oeiras, depois de regressar.