Alfredo Herlein era defesa central e argentino, o que no final da década de 70 queria dizer que não fazia flores com a bola. Mas os treinadores levavam-no com eles quando mudavam de clube.
2015-12-22

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1981

Há jogadores geniais e há jogadores úteis. O argentino Alfredo pertencia a esta segunda classe e até se ri quando se lhe pergunta qual foi o melhor jogo da sua carreira. Jogava a defesa-central, numa altura em que a tradição de centrais argentinos era a de homens duros, daqueles que não tinham de fazer grandes flores com a bola. Mas a utilidade em campo provava-a a cada domingo, a ponto de ser um daqueles jogadores que os treinadores levam sempre para onde vão. Isso aconteceu várias vezes no périplo de Alfredo Herlein por vários clubes modestos do futebol português.

Foi treinado por Jorge Jesus ou Fernando Santos, mas aponta José Moniz ou Mário Lino como os treinadores mais marcantes da sua carreira. Foi Mário Morais quem deu o OK à sua contratação, corria o ano de 1978, a Argentina acabara de se sagrar campeã do Mundo e Alfredo chegava do Velez Sarsfield para uma experiência no Académico de Viseu. Eram tempos em que não era fácil ser estrangeiro no futebol português: havia limitação à utilização de quem vinha de fora e os treinadores preferiam utilizar quem resolvesse no ataque, pelo que Alfredo só se estreou a 10 de Dezembro, à 12ª jornada, no jogo que marcou a entrada em funções como treinador de Gustavo Silva. O aregentino entrou ao intervalo de um jogo contra o V. Setúbal, no Fontelo, que o Académico acabou por vencer por 2-1. Manteve a titularidade contra o Barreirense e… nova vitória, desta vez por 1-0. Em dois jogos, o novo treinador tinha tantas vitórias como o anterior obtivera nos onze primeiros. Só que a seguir vinha a deslocação às Antas e os 6-1 encaixados contra o FC Porto (hat-trick de Gomes) trouxeram um choque com a realidade. Até final da época, o argentino fez apenas mais três jogos, um deles na Taça de Portugal.

O Académico desceu e, não ficando no clube, Alfredo também. Passou uma época na II Divisão, ao serviço do Juventude de Évora, regressando a Viseu para nova tentativa, em 1980. José Moniz fez dele titular logo à primeira jornada (derrota por 2-0 em Guimarães), só o utilizou mais uma vez até sair (três minutos no empate em casa com o Portimonense), a meio da época, mas nem assim hesitou em chamá-lo para o Amora na temporada seguinte. E na margem sul do Tejo Alfredo começou a ter continuidade em campo, tornando-se mesmo capitão de equipa. Logo na primeira época, fez 21 jogos, incluindo uma vitória sobre o Benfica (1-0, com golo de Amadeu), aos quais somou mais três na Taça de Portugal. O 11º lugar final permitiu a manutenção e, na segunda época, Alfredo fez mais 20 jogos na Liga, incluindo uma vitória sobre o FC Porto na Medideira (2-1, marcaram Baltasar e José Rafael, antes de Gomes reduzir, a dois minutos do fim). A certeza da despromoção aconteceu a três jornadas do fim e a despedida da Liga o argentino fê-la nas Antas, a 29 de Maio de 1983, numa derrota por 4-0 com o FC Porto (mais um hat-trick de Gomes).

José Moniz, que saíra do Amora a meio da época, levou-o então para o Funchal, onde jogou dois anos no U. Madeira, com um terceiro lugar e um segundo na Zona Sul da II Divisão. Já dirigido por Mário Morais, o União só falhou a subida na Liguilla de 1984/85, a mesma sorte que Alfredo veio a conhecer em 1985/86, quando já jogava a trinco, no Recreio de Águeda de Mário Lino e terminou a Zona Centro da II Divisão em mais um segundo lugar. Lino levou-o então para o Beira Mar, mas o argentino nunca mais esteve tão perto da I Divisão. Nem em Aveiro, nem depois no Estoril (dirigido por Fernando Santos, em 1987/88) ou nas três épocas que passou a jogar no Amora antes de pendurar as chuteiras, em 1991, e se tornar adjunto de Jorge Jesus. Razão pela qual, sendo adepto do Velez na Argentina, Alfredo não consegue escolher um grande de Portugal. “No Amora foi onde deixei mais amigos. Dos grandes torço por aquele onde estiver Jesus”, diz.

Em 1992, aos 35 anos, regressou a Buenos Aires, onde começou a trabalhar numa empresa de saúde. A história futebolística dos Herlein, porém, continuou em Portugal: o filho de Alfredo, Miguel Herlein, fez a formação no Amora e no Benfica, antes de jogar em Chipre, Espanha, Índia ou Estados Unidos.