Chegou do Vasco da Gama ainda adolescente para brilhar no Sp. Braga. Fê-lo a ponto de ser apresentado no Benfica como substituto de Chalana, mas só resistiu quatro anos na Luz, antes de encerrar o périplo português ao serviço de V. Setúbal e Marítimo
2016-03-13

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1982

Teve a infelicidade de chegar ao Benfica, vindo de Braga, como substituto do jogador que os adeptos não queriam ver partir por nada deste Mundo: Chalana. Wando, um brasileiro bem disposto, veloz e capaz de driblar em progressão, fazia golos, assistia os colegas, mas não tinha a qualidade do “Pequeno Genial”, cuja sombra lhe prejudicou a afirmação na Luz. Ainda foi campeão nacional e jogou uma final da Taça dos Campeões Europeus antes de rumar ao V. Setúbal e ao Marítimo e de um fim de carreira precoce, com passagem mal sucedida e efémera pela Turquia.

Carioca de nascimento, Wando chegou aos escalões de formação do Vasco da Gama, mas daí nunca chegou à equipa principal, até porque aos 19 anos já estava a fazer a viagem para Portugal, onde veio representar o Sp. Braga. Estreou-se a 17 de Outubro de 1982, como titular numa vitória por 1-0 em Alcobaça, frente ao Ginásio local, mas já não estava em campo – cedeu o lugar a Serra – quando Dito fez o golo do triunfo minhoto. Era a forma de Juca, o treinador, ir compatibilizando o futebol habilidoso de Wando com a equipa, porque a verdade é que o treinador não mais abdicou dele. O primeiro golo, Wando fê-lo ao Sporting, numa derrota por 6-2 em Alvalade, a 30 de Outubro. Nessa primeira época, que encerrou com cinco golos no campeonato (mais um na Taça de Portugal, ao Vizela), ainda bisou ao Salgueiros e voltou a marcar ao seu adversário predileto, o Sporting, num 3-0 em Braga, já com Fernando Palmeira aos comandos, após a demissão de Juca.

O regresso de Quinito a Braga, em 1983, foi bom para Wando, que com o novo treinador esteve nos 30 jogos da Liga, saindo apenas uma vez do banco, como suplente utilizado. Fez mais cinco golos, o último dos quais, a quem havia de ser?, ao Sporting, na vitória bracarense por 2-1, a 29 de Abril de 1984. O Sp. Braga acabou esse campeonato em quarto lugar e, na sequência da transferência de Chalana para o Bordéus, o Benfica interessou-se no canhoto brasileiro que bailava à frente dos defesas antes de cruzar. O negócio fez-se, mas aquilo com que Wando não contava era com a reação hostil dos adeptos do seu novo clube: irados pela venda de Chalana, assobiaram-no na primeira vez que subiu ao relvado da Luz, a 2 de Setembro de 1984, numa vitória por 2-0 frente ao Sp. Braga. Ainda assim, o húngaro Pal Csernai manteve a confiança nele, que respondeu com mais seis golos, aos quais juntou mais cinco na Taça de Portugal, em cuja final, ganha ao FC Porto por 3-1, entrou a 17 minutos do fim, para o lugar de Carlos Manuel. Pela primeira vez não marcou ao Sporting, mas no seu registo ficou a estreia nas competições europeias: foi titular nos quatro jogos que o Benfica fez na Taça dos Campeões.

As pazes com os adeptos foram sendo feitas aos poucos, ainda que não facilitadas pelos resultados: apesar da Taça de Portugal conquistada, o terceiro lugar final na Liga custou o lugar a Csernai, regressando o inglês John Mortimore para o substituir. Wando, que só convenceu o novo técnico a partir do meio de Dezembro, teve o campeonato menos produtivo de sempre em termos de golos – só um – ainda que tenha compensado na Taça de Portugal. Voltou a jogar a final, desta vez como titular, na vitória por 2-0 sobre o Belenenses, e de caminho obteve o primeiro hat-trick em Portugal (nos 5-0 ao Olivais) e bisou ao Sporting (nos 5-0 dos quartos-de-final). A tendência para fazer golos ao Sporting manteve-a, até, nas horas más, como a derrota por 7-1 em Alvalade, a 14 de Dezembro de 1986: foi dele o golo do Benfica nessa tarde que marcou o arranque do Benfica para o título, pois até final os encarnados não perderam mais nenhum jogo. E foi igualmente contra o Sporting que o Benfica conquistou a terceira Taça de Portugal consecutiva: na final, ganha por 2-1 na tarde mágica de Diamantino, Wando entrou pouco antes do intervalo para o lugar de Chiquinho.

À época da dobradinha sucedeu-se a da confusão. O Benfica ainda sonhava com um novo Eriksson e, apesar de ter ganho campeonato e Taça de Portugal, Mortimore não tinha o estilo do sueco. Para o substituir chegou o dinamarquês Ebbe Skovdhal, que no entanto não chegou a aquecer o lugar, pois em Novembro já estava a ceder o lugar a Toni. Mesmo frequentemente lesionado, Chalana estava de volta de França, Pacheco aparecia como extremo-esquerdo do futuro, o que significava que o brasileiro ia perdendo espaço no onze. Ainda fez 25 jogos na Liga, muitos como suplente utilizado, a mesma condição em que jogou a final da Taça dos Campeões Europeus, a 25 de Maio de 1988. Nesse final de tarde, em Estugarda, entrou para o lugar de Rui Águas aos 63 minutos, mas não foi capaz de ajudar a equipa a desfazer o 0-0 que implicou o recurso às grandes penalidades. Não bateu nenhuma, mas percebeu que estava do lado dos perdedores quando viu Veloso permitir a defesa a Van Breukelen e a taça seguir para o PSV Eindhoven. Ainda foi titular nas três últimas rondas de campeonato, vestindo a camisola do Benfica pela última vez a 10 de Junho de 1988, na meia-final da Taça de Portugal que os encarnados perderam frente ao FC Porto, nas Antas, por 1-0 (golo de Rui Barros). No fim do Verão estava em Setúbal.

No Vitória comandado por Manuel Fernandes, Wando voltou a ganhar preponderância. E aquela equipa, cheia de veteranos de enorme qualidade (Meszaros, Zezinho, Eurico, Jordão…) fez um excelente campeonato, que concluiu em quinto lugar. Wando lesionou-se com gravidade a 2 de Outubro, na receção ao Boavista, e foi expulso pela primeira vez no campeonato português, em Faro, a 27 de Novembro, mas ainda jogou 30 partidas pelo Vitória (uma delas a eliminação da Taça de Portugal, aos pés do Benfica) antes de assinar pelo Marítimo, onde Quinito o quis para lembrar as tardes de glória em Braga. E, mesmo tendo o treinador sido demitido após a derrota com o Sporting, em meados de Novembro, Wando só falhou dois jogos em toda a época, fruto do castigo que se sucedeu à sua expulsão frente ao FC Porto, em Março de 1990. Ainda fez mais uma época nos Barreiros, já sem golos, despedindo-se do campeonato português a 19 de Maio de 1991, quando Paulo Autuori o fez entrar a meia-hora do fim de um jogo com o Benfica que os insulares perderam por 2-0.

Aos 28 anos, Wando acabou ali para o futebol de alta competição. Ainda apareceu, em 1992/93, no Konyaspor, equipa pela qual fez apenas quatro jogos na Liga turca. Pelo meio, há informações de que foi inscrito, em 1991/92, pelo FC Calheta, dos Açores, embora isso careça de confirmação. Acabou a carreira antes dos 30 anos, a jogar pelo XV de Jaú, no Brasil, onde vive atualmente.