Presença constante a meio-campo na super-Académica da segunda metade dos anos 60, Vítor Campos formou-se em medicina e incorporou como poucos os valores da Briosa
2016-03-11

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1965

Uma das referências máximas do que é ser “Briosa”, Vítor Campos vestiu por 13 épocas a camisola da Académica, clube onde veio mais tarde a desempenhar funções diretivas e cuja filosofia soube assimilar até à última gota. Foi para Coimbra, tal como o irmão, Mário, que é três anos mais novo, por opção do pai, que queria vê-los singrar na vida para além do futebol. Ambos chegaram à seleção nacional e, ainda que não tenham troféus coletivos no palmarés, podem reivindicar outros, como o facto de se terem formado em medicina ou de incorporarem na perfeição o sentir de um clube que já não é o que era.

Figura da equipa de juniores do Torreense, Vítor esteve na seleção nacional de juniores que em 1962 foi à Roménia defender o título europeu da categoria, ganho um ano antes em solo português. Nessa altura, acenaram-lhe com a possibilidade de assinar pelo Benfica, mas o pai optou por Coimbra, onde além de jogar na Académica o rapaz podia cursar medicina. Em Coimbra encontrou José Maria Pedroto, ex-selecionador nacional de juniores, que a 6 de Outubro de 1963, meses antes de ele completar 20 anos, o lançou na equipa principal, por ocasião de uma partida da Taça de Portugal, na Póvoa de Varzim. A derrota por 1-0 com o Varzim e a eliminação na sequência do 0-0 na segunda mão, em casa, retardaram a imposição do miúdo no onze. Só regressou à sétima jornada do campeonato, a 1 de Dezembro de 1963: titular no empate com o FC Porto (1-1), nas Antas, ficou na equipa até final da época, concluída pela Académica no nono lugar.

A subida de Mário Wilson ao lugar de Pedroto, em 1964, começou por ser má para Vítor Campos, que passou a dividir o lugar ao lado de Rocha no meio-campo com outro jovem, Vasco Gervásio. Mesmo jogando menos, porém, Vítor Campos descobriu o golo: fez seis nesse campeonato, o primeiro dos quais a ajudar numa vitória em Setúbal (2-1), a 6 de Dezembro de 1964. Entre Janeiro e Fevereiro marcou mesmo em três jornadas seguidas, culminando tudo com um golo nos 3-0 ao Sporting, a 4 de Maio, na penúltima jornada de uma Liga que a Briosa acabou em quarto lugar, dois pontos à frente dos leões. Estava a nascer a grande equipa da Académica da segunda metade dos anos 60 e nem o sexto lugar de 1965/66 (com mais seis golos de Campos, entre os quais um hat-trick ao V. Guimarães, a 6 de Fevereiro de 1966) travou a dinâmica daquela equipa. Vítor Campos, que nessa época passou a ter a companhia do irmão Mário (fez um jogo, curiosamente em vez de Vítor, contra o Varzim), foi hipótese para estar na fase final do Mundial, mas acabou preterido em favor de jogadores de clubes mais poderosos.

A única internacionalização A de Vítor Campos aconteceria em Março de 1967, em Roma, num jogo particular em que Portugal empatou a uma bola com a Itália e em que Gomes da Silva o fez entrar para o lugar de Coluna, a sete minutos do fim. Foi um dos dois representantes da Académica nesse jogo – o outro foi Artur Jorge –, numa altura em que a Briosa lutava pelo título nacional. Por essa altura, porém, o epílogo da batalha já se adivinhava. A nove jornadas do fim, os estudantes seguiam a par do Benfica no topo da tabela, tendo perdido a oportunidade de se isolarem ao empatarem am casa com o FC Porto (0-0). Vítor Campos, que jogara pela primeira vez uma partida oficial no mesmo onze do irmão na primeira ronda desse campeonato – 2-0 ao Atlético, a 18 de Setembro de 1966 – era figura de um meio-campo agora formado a três, com Rocha e Gervásio. A 5 de Março de 1967, dois dias depois de o Benfica ter ganho ao Atlético, a Briosa perdeu surpreendentemente no terreno da última classificada, a Sanjoanense. O 1-0 final deixou os jogadores de Coimbra a queixarem-se de um golo anulado a Artur Jorge, mas à frente deles estava a oportunidade de redenção imediata, pois a 12 de Março o Benfica visitava Coimbra. Com um estádio cheio, a Académica deu excelente réplica até ao momento em que Curado se lesionou, deixando a equipa reduzida a dez homens – pois as substituições ainda não eram regulamentares. O Benfica ganhou por 1-0, graças a um golo de Nelson, e o título de campeão passou a ser uma miragem. Esfumou-se, tal como a Taça de Portugal, perdida na final contra o V. Setúbal, ao segundo prolongamento de 30 minutos, com Vítor Campos a jogar na esquerda do ataque, depois de os estudantes terem eliminado o Benfica, nos quartos-de-final.

A Académica voltaria à final da Taça de Portugal em 1969, após uma época em que Vítor Campos teve direito à estreia europeia: jogou a 2 de Outubro de 1968 na primeira partida da Briosa na UEFA, uma derrota por 1-0 frente ao Lyon, em França, depois revertida em Coimbra graças a um golo de Manuel António e, face ao prolongamento sem golos, perdida por moeda ao ar. Os prolongamentos, de facto, não eram amigos dos estudantes, que perderam essa final da Taça de Portugal da mesma forma. Enfrentaram o Benfica sem alguns titulares, devido a manobras governamentais que se destinavam a impedir que a crise estudantil tivesse grande repercussão no Jamor – e ainda assim teve – e colocaram-se à frente do marcador, com um golo de Manuel António, a 10 minutos do fim. Aos 85’, em recarga a um remate de Eusébio, Simões fez o empate e ditou a necessidade de um prolongamento. João Maló, o ex-guarda-redes que substituíra Mário Wilson como treinador a meio da época, trocou então Vítor Campos por Rocha, mas acabou por ser o Benfica a ganhar, com um golo de Eusébio, no último minuto do prolongamento. Enquanto Vítor Campos jogou, nunca mais a Académica esteve tão perto de um título.

Apesar da presença nos quartos-de-final da Taça das Taças em 1969/70 ou do quinto lugar final no campeonato de 1970/71, a equipa estava a perder qualidade e acabou por descer de divisão em 1972, devido a uma derrota por 2-0 com o Boavista, no Bessa, na penúltima jornada. Vítor Campos tirou coisas boas deste período, pois foi nesta altura que concluiu a licenciatura em medicina, que até serviu para provar que não correspondiam à verdade as críticas segundo as quais a Académica estaria a descaraterizar-se, albergando cada vez mais profissionais e menos estudantes. Isso viria a ser mais importante anos depois. É que, vencedora da Zona Norte da II Divisão em 1973 – e campeã nacional desse escalão após a vitória sobre na final contra o Olhanense – a Briosa voltou em 1973/74, apenas para se ver envolta na crise que se seguiu ao 25 de Abril. O futebol passou a ser visto pelas elites como fator de alienação e não era bem visto que a Académica andasse metida nele. Já no ocaso da sua carreira, Vítor Campos foi um dos jogadores que mais se empenhou na luta para que o Académico – que sucedeu à Académica, para evitar ligações da universidade ao futebol – fosse reconhecido pelas autoridades do futebol em vez de ter de começar o percurso, entrando pelos distritais.

Vítor Campos ainda jogou, por isso, mais duas épocas na I Divisão. Ambas sem grande fulgor nem resultados espetaculares. O último golo já o tinha feito a 9 de Dezembro de 1973, numa vitoria da Académica sobre o Benfica (2-0). Mês e meio antes, a 21 de Outubro, viu o único cartão vermelho nos seus 249 jogos na Liga: mostrou-lho José Luís Tavares, ainda na primeira parte de uma vitória da Académica sobre o Oriental, em Coimbra, por 3-0. A despedida da I Divisão fê-la a 30 de Maio de 1976, rendendo Gregório Freixo a 11 minutos do fim de um empate a três golos com o Vitória em Guimarães. Além de notável anestesista nos Hospitais da Universidade de Coimbra, veio a ser dirigente da Académica, o clube que lhe ficou no coração.