Foi o jogador mais caro de Portugal no seu tempo e justificou cada escudo gasto na sua contratação. Ao melhor peruano de sempre só faltou ser campeão de Portugal.
2016-03-08

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1966

Chegou ao FC Porto como um Messias, destinado a levantar a moral de uma equipa que, naquele Janeiro de 1974, começava a acreditar que não tinha de estar destinada a um papel secundário, de clube de província. Ao contratar Teofilo Cubillas, o jogador mais caro do país e, por aqueles tempos, melhor futebolista da América do Sul, o FC Porto mostrava uma vitalidade que quatro anos depois o conduziram à interrupção do jejum de títulos. Já sem o seu astro peruano, que funcionou apenas como salva de foguetes inicial, a anunciar o despertar do FC Porto.

Quando vestiu pela primeira vez a camisola do FC Porto, Cubillas tinha só 24 anos mas uma carreira longa atrás dele. E à frente, também. Estreou-se na equipa principal do Alianza Lima com 16 anos, foi melhor marcador do campeonato peruano aos 17, estrela da sua seleção num Mundial aos 21, prova do seu talento precoce. Mas, mesmo depois de ter regressado ao Peru, patrocinado pelo governo para ajudar a desenvolver a Liga nacional e a preparar a seleção para o Mundial de 1978, na Argentina, ainda defendeu por cinco épocas as cores dos Fort Lauderdale Strikers, na NASL norte-americana, jogou o seu último Mundial com 33 anos e saiu da reforma para voltar a jogar pelo seu Alianza Lima aos 36, na sequência do desastre de aviação que matou quase toda a equipa alvi-negra. O melhor jogador peruano de todos os tempos foi também estrela do campeonato português, onde deixou saudades.

Nascido em Puente Piedra, a norte da capital, o jovem Teofilo jogava nos Huracan Boys quando um olheiro do Alianza Lima o viu e insistiu para que ele se mudasse. “El Nene”, como desde logo lhe chamaram, por causa do seu talento precoce, teve uma entrada de rompante na equipa: no seu primeiro campeonato, aos 17 anos, foi logo o melhor marcador. E no Verão de 1967, com 18 anos, estreou-se na seleção, marcando dois golos num jogo não-oficial contra o Independiente, da Argentina. Waldir Pereira, o popular Didi, o brasileiro a quem muitos creditam o remate em “folha seca”, foi o seu primeiro selecionador, o treinador a quem Cubillas toda a vida atribuiu muitos dos seus méritos na marcação de livres. E foi também o selecionador que não hesitou em fazer de Cubillas a estrela da seleção peruana que eliminou a Argentina da fase final do Mundial do México, em 1970. No Mundial, Cubillas marcou em todos os jogos até aos quartos-de-final, fase da prova em que os peruanos foram eliminados pelo Brasil de Pelé, Jairzinho e Tostão, a super-equipa que viria a ser campeã do Mundo.

Foi nessa altura que começou a falar-se em Cubillas em Portugal. Os jornais falavam do interesse do Sporting, que no entanto terá recuado face ao dinheiro que o Alianza Lima pedia: 5500 contos, o que ao câmbio atual seriam cerca de 27500 euros. Os leões avançaram antes para Yazalde e “El Nene” continuou a maravilhar na América do Sul, sagrando-se jogador continental do ano em 1972, à frente, por exemplo, de Pelé. Foi por isso normal que tenha sido incluído numa seleção sul-americana que, em 1973, defrontou uma congénere europeia, em Barcelona. Rudi Reisdorf, que era presidente da UNICEF, conseguiu então aquilo que parecia impossível: pagou 300 mil dólares e levou Cubillas para o Basileia, que que era adepto fervoroso. Só que o futebol suíço não era o que é hoje e Cubillas não se sentiu bem numa equipa onde muitos jogadores ainda eram apenas jogadores em part-time. Ao mesmo tempo, com muitos anos sem ganhar títulos, o FC Porto precisava de dar um sinal de vitalidade. Soube-se nas Antas que Cubillas queria deixar a Suíça e de imediato se lançou uma mega-operação para o contratar: o Fundo para a Aquisição de Cubillas, com títulos a 500 escudos cada, ainda angariou uma verba considerável, permitindo que Jorge Vieira, dirigente portista, fosse até Basileia contratar o astro peruano. O FC Porto pagou 400 mil dólares, cerca de 5600 contos, e em Janeiro já Cubillas vestia de azul e branco.

Logo na estreia, num particular contra a Portuguesa dos Desportos, Cubillas maravilhou. Otto Glória, treinador com história no futebol português, que naquela altura dirigia os brasileiros, sentenciou: “Vai desequilibrar como Eusébio”. A estreia oficial, a 10 de Fevereiro de 1974, não correu bem, com um empate a zero no Lavradio contra a CUF a impedir que o FC Porto aproveitasse a derrota cedida nesse mesmo dia pelo Sporting ante o Belenenses para igualar o líder. A 24 de Fevereiro, Cubillas fez o primeiro golo, num remate de longe, a abrir o marcador numa vitória do FC Porto no terreno do Beira Mar (2-1, e o peruano assistiu Júlio para o golo da vitória). A 10 de Março, no seu primeiro clássico, fez o golo da vitória portista (2-1) frente ao Benfica, resultado que devolvia os dragões à segunda posição e os deixava a dois pontos do líder, que era o Sporting. A derrota em Alvalade, na jornada seguinte, acabou com as esperanças do FC Porto, mas a primeira meia-época acabou por ser positiva para Cubillas, que começou a adaptar-se ao futebol português, com cinco golos no campeonato (incluindo um bis ao Boavista) e dois na Taça da Portugal.

Pedia-se mais, ainda assim. E a segunda época já mostrou o que podia fazer El Nene. Totalista no campeonato, contribuiu com nove golos para o campeonato do FC Porto, ainda que com a nuance de oito deles terem chegado nas primeiras 13 jornadas. Nesse período, além de dois golos nos dois jogos com o Wolverhampton, na primeira eliminatória da Taça UEFA, marcou ainda no empate em Alvalade com o Sporting (1-1, com um remate de longe) e na vitória sobre o Benfica na Luz (1-0, de penalti), deixando o FC Porto no topo da classificação em meados de Dezembro. Só que depois a fonte goleadora do peruano esgotou-se: nas últimas 17 jornadas, marcou só mais uma vez, num 3-0 ao U. Tomar e, já sem Aimoré Moreira, demitido após derrotas sucessivas com Benfica e V. Guimarães, em Fevereiro, o FC Porto acabou a Liga em segundo lugar. A aproximação aos primeiros era notória e, apesar de um incidente desagradável com o treinador, o jugoslavo Branko Stankovic – que não gostou que o peruano se ausentasse sem autorização para representar a seleção peruana, em Outubro de 1975, na meia-final da Copa América, contra o Brasil, falhando por isso uma partida em casa com o Sp. Braga –, Cubillas fez uma temporada de 1975/76 absolutamente notável. Foram 28 golos em 29 jogos, incluindo o seu primeiro hat-trick com a camisola portista no campeonato, num 5-0 ao U. Tomar, a 11 de Janeiro de 1976 (antes já tinha feito o mesmo aos luxemburgueses do Avenir Beggen, na primeira ronda da Taça UEFA). O resto da equipa, porém, não correspondia, e acabou a Liga em quarto lugar, outra vez com chicotada psicológica a meio: Stankovic deu o lugar a Monteiro da Costa, antes do regresso de José Maria Pedroto.

Com Pedroto, o FC Porto voltou aos títulos, ganhando a Taça de Portugal de 1976/77. Cubillas já não esteve para a final, em que os dragões bateram o Sp. Braga, mas contribuiu com dois golos nas duas primeiras eliminatórias, em que a equipa levou de vencida o Ac. Viseu e o Alba. No campeonato ainda fez mais sete golos, o último dos quais numa vitória em Setúbal, a 19 de Dezembro de 1976(1-0). Despediu-se da competição a 16 de Janeiro de 1977, com uma derrota frente ao Benfica, nas Antas (0-1). Não chegou aos 100 jogos pelos portistas no campeonato, mas tem a seu favor o facto de, entre a estreia e o regresso ao Peru, só ter falhado um desafio, o tal jogo com o Sp. Braga que perdeu para poder defender a sua seleção. Multado por tê-lo feito, foi impedido pelo clube de jogar a final da prova: quando os seus colegas de seleção discutiam a Copa América com a Colômbia estava Cubillas a defender o FC Porto no célebre clássico do nevoeiro contra o Sporting, nas Antas. Como os colombianos ganharam um jogo e os peruanos o outro, houve finalíssima e aí “El Nene” já não resistiu: acabou um jogo contra o Boavista, no Bessa, meteu-se num avião e foi a Caracas ganhar a Copa América; no fim, em vez de festejar, apanhou o avião de regresso a tempo de bisar contra o Leixões, nas Antas. Talvez por lhe reconhecerem esse profissionalismo à prova de bala os colegas que o tinham eleito democraticamente capitão de equipa lhe tenham oferecido uma salva de prata na despedida, celebrada num restaurante de António Oliveira, em Rio Tinto.

Cubillas, que até tinha renovado contrato com o FC Porto em Agosto de 1976, voltou ao Peru valorizado. Jogou no Alianza Lima, foi bicampeão nacional, voltou a brilhar no Mundial de 1978 (mais cinco golos, tal como em 1970) e assinou um contrato milionário com o Fort Lauderdale Strikers, da então tão em voga NASL norte-americana. Ali, em cinco épocas, ainda fez três acima dos dez golos, atingindo duas meias-finais e jogando por uma vez a final da prova, o Soccerbowl de 1980 (que os Strikers perderam para o Cosmos). Retirou-se em Setembro de 1983, porque a franchise ia mudar-se para Minesotta e a família Cubillas estava demasiado habituada à Florida. Ainda jogou em mais equipas da zona, bem como pelo Alianza Lima, que voltou a defender em 1988, depois de um desastre de aviação, em Dezembro de 1987, ter resultado na morte de todos os jogadores a bordo. Na Florida, onde vive atualmente, Cubillas comanda um projeto de escolas de futebol juntamente com os filhos e representa FIFA em várias ações de divulgação da modalidade.