Caiado começou por ser avançado goleador no Boavista, mas foi quando recuou no terreno e pôs em campo as virtudes de organizador que o levaram mais tarde a ser treinador que mais se notabilizou, tanto no Boavista como no Benfica.
2016-03-02

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1946

Era bom, com a bola nos pés, rápido e habilidoso, o que fez dele candidato natural a uma das posições na linha avançada. Mas era melhor ainda quando decidia levantar a cabeça, ver a equipa em campo e exercer funções de organizador. Foram essas as caraterísticas que transformaram Caiado num médio de seleção, quando ainda jogava no então modesto Boavista, e o levaram depois para o Benfica. Ou que, no momento em que este leceiro decidiu pendurar as chuteiras, conduziram Bela Guttman a convidá-lo para adjunto, abrindo logo ali uma longa carreira de treinador na qual chegou, por exemplo, a dirigir o Sporting.

Caiado destacou-se como avançado-centro numa equipa que jogava os campeonatos da Mocidade Portuguesa, no Porto. Treinava no Bessa e, ao vê-lo, um dirigente boavisteiro não descansou enquanto não o mostrou ao treinador dos juniores. Assinou a primeira ficha com 15 anos e foi de imediato integrado na equipa de juniores, que aproveitou a sua boa técnica e faro para o golo. Caiado não tinha, porém, a morfologia de um avançado-centro. Faltavam-lhe quilos e centímetros, o que, associado à velocidade e ao poder de drible, fez com que os treinadores o convertessem, primeiro, em extremo, e depois em interior, uma espécie de segundo avançado. Foi por aí que chegou à equipa principal do Boavista, onde já estavam os irmãos António e José, mais velhos mas menos talentosos. E que a 9 de Dezembro de 1945 se estreou na I Divisão, com uma derrota por 6-3 no terreno de O Elvas. Uma semana depois, porém, faria o golo com o que o Boavista venceu surpreendentemente o Sporting (1-0), dando assim início com notoriedade a uma época em que foi titular em todos os jogos do Boavista, marcando por três vezes ao Benfica, nas duas derrotas axadrezadas por 4-2.

Apesar do penúltimo lugar do Boavista na tabela, não espantou, por isso, que no final da época Tavares da Silva se lembrasse dele para a seleção nacional. Caiado foi escalado como interior esquerdo para um jogo com a Rep. Irlanda, no Estádio Nacional, a 16 de Junho de 1946. Portugal ganhou por 3-1, Caiado não se terá saído mal, mas nem a época retumbante que fez em 1946/47 (mais uma vez totalista no campeonato, com 21 golos em 26 jogos) lhe permitiu voltar a vestir a camisola das quinas. É que o seu concorrente era o sportinguista Travaços, na altura uma autêntica instituição no futebol nacional. Mas Caiado estava a subir a escada que o levaria lá. Entre os 21 golos que fez na Liga de 1946/47 conta-se um póquer ao Elvas (ganhou o Boavista por 4-1), mas também golos nos dois jogos com o Benfica ou o Belenenses. O Boavista acabou a época em nono lugar, o mesmo que obteve em 1947/48, mais uma vez com Caiado como totalista. Aliás, tendo chegado à I Divisão em Dezembro de 1945, Caiado só falhou um jogo a 10 de Abril de 1949 quando, desde logo condenado de forma inapelável ao último lugar e à descida de divisão, o treinador o deixou de fora da deslocação a Setúbal, na última jornada desse campeonato. O Boavista perdeu por 5-0, sem o que já a sua estrela, e teve de amargar um ano na II Divisão.

Mesmo aí, Caiado continuou a chamar a atenção. O Boavista foi campeão nacional do segundo escalão de forma retumbante – ganhou todos os jogos da fase final, por exemplo – e Caiado voltou à seleção nacional, chamado por Salvador do Carmo para jogar com a Espanha o acesso ao Mundial de 1950, no Brasil. Os portugueses perderam por 5-1 em Chamartín e, uma semana depois, no Jamor, já foi Travaços a ocupar o lugar no empate a duas bolas, que deixava a seleção fora do certame brasileiro. Caiado estava, contudo, de regresso à I Divisão. E só passaria mais dois anos no Boavista. Ambos como totalista, o que é notável, pois em seis épocas de xadrez na I Divisão jogou todos os jogos menos um. O quinto lugar dos boavisteiros em 1952, porém, já com Caiado a meio-campo, somado à frequência com já era titular na seleção nacional, tornou impossível que por lá ficasse mais tempo. No Verão de 1952, entre FC Porto e Benfica, Caiado escolheu mudar-se para Lisboa e assinou pelos encarnados, que precisavam de recompor o meio-campo após o fim de carreira de Francisco Ferreira.

No Benfica, Caiado tornou-se imprescindível. Titular desde a primeira jornada do campeonato, fez mesmo um golo na primeira vez que defrontou o Boavista, abrindo mesmo o ativo numa vitória do Benfica por 4-1, a 18 de Janeiro de 1953, no Campo Grande. A época de abertura em Lisboa também foi a do primeiro troféu, a Taça de Portugal, ainda que Caiado não tenha estado na final, em que o Benfica goleou o FC Porto por 5-0. Participou, ainda assim, nos três primeiros jogos da campanha, dois com o V. Setúbal e um com o Barreirense, o que lhe deu o direito de reclamar a taça como sua também. Poderia parecer tarde para se começar a ganhar – tinha 28 anos – mas bem pode dizer-se que o futebol de Caiado ganhava com o tempo. Perdia vigor físico, é certo, começava a ver algumas lesões tirar-lhe a possibilidade de ser sempre titular, como lhe acontecia no Boavista, mas toda a experiência que acumulava permitia-lhe superar as adversidades e tomar muitas vezes as melhores decisões. E a época de 1954/55, aquela em que chegou aos 30 anos, foi, nesse aspeto, exemplo paradigmático: o médio leceiro tornou-se a extensão de Otto Glória em campo, participando em 31 dos 32 jogos que levaram à conquista da dobradinha campeonato-Taça de Portugal. Pôde mesmo jogar a sua primeira final, ajudando a vencer o Sporting, por 2-1. E após dois anos de ausência regressou à seleção para mais oito internacionalizações, encerrando a carreira de quinas ao peito a 9 de Junho de 1956, com um empate a duas bolas frente à Hungria, no Jamor.

Até final da carreira, Caiado ainda jogou mais duas épocas a meio-gás, ganhando mesmo assim mais uma dobradinha em 1956/57. Ainda que não tenha jogado a final da Taça, marcou um golo na meia-final ao Bareirense. E um mês depois estava a jogar outra final, a da Taça Latina, que o Benfica perdeu por 1-0 frente ao Real Madrid no Santiago Bernabéu. Alinhou outra vez como interior esquerdo, a mesma posição que ocuparia na estreia do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, uma derrota por 3-1 frente ao Sevilha, na Andaluzia, a 19 de Setembro de 1957. Os 18 jogos em que participou na campanha de 1957/58 (divididos entre campeonato, Taça de Portugal e Taça dos Campeões Europeus) eram já o prenúncio da retirada, que aconteceria na temporada seguinte: Caiado vestiu pela última vez a camisola do Benfica a 28 de Setembro de 1958, numa vitória por 5-0 frente à Académica na Luz. Já não alinhou sequer em nenhum dos jogos da Taça de Portugal, que o Benfica ganhou, batendo na final do FC Porto de Bela Guttman, vingando assim a vitória portista no campeonato. Nas férias, Guttman trocou as Antas pela Luz e convidou Caiado para ser adjunto, abrindo logo ali uma carreira de treinador que o levou a servir debaixo do comando de Fernando Riera, Elek Schwartz, Lajos Czeiler ou Otto Glória – com quem formou a equipa técnica da seleção no Mundial de 1966 – e a emancipar-se depois, dirigindo o Sp. Braga a seguir a esse Mundial. Foi ainda treinador do Sporting, V. Guimarães, CUF ou Boavista, antes de voltar à Luz, com adjunto do húngaro Lajos Barotti, em 1980. A meio da década de 80, retirou-se para perto da família, vindo a falecer em 2006, no Porto.