Falar de Cavém é falar de polivalência. O algarvio que despontou na Covilhã chegou ao Benfica como extremo, recuou para meio-campo e acabou na defesa. Foi em papéis defensivos que ganhou duas Taças dos Campeões.
2015-12-21

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1954

Falar de Cavém é falar de polivalência. Primeiro, nas cores, pois este algarvio que vestiu a camisola verde-e-branca do Sporting da Covilhã deixou marcas no futebol português sobretudo pelos 14 anos que passou no Benfica, nos quais ganhou 15 troféus. Depois, fundamentalmente,  nas funções, pois espalhou classe em posições tão diferentes como extremo, médio defensivo ou defesa lateral. Esteve nas duas finais da Taça dos Campeões ganhas pelos encarnados, mas também nas primeiras duas que a equipa perdeu. “Fiz a barba e perdemos”, contou depois. É que, supersticioso ou apenas brincalhão, Cavém também ficou famoso pela história com sonhos premonitórios antes das decisões de 1961 e 1962.

Domiciano Cavém nasceu numa família de futebol. O pai, Norberto, tinha jogado o velhinho campeonato de Portugal com as camisolas do Lusitano de Vila Real de Santo António e do Olhanense, tendo-se tornado depois treinador dos filhos no clube da terra natal. O irmão Amílcar, dois anos mais velho, acompanhou-o no início da aventura futebolística, primeiro no Lusitano, que então militava na II Divisão, e depois no Sp. Covilhã, para onde foi um ano antes, como que a preparar caminho. No Verão de 1953, já estavam os dois juntos a respirar o ar da serra. Domiciano estreou-se no campeonato a 4 de Outubro, logo na jornada inaugural, a perder em casa com o FC Porto, por 2-0. Duas semanas depois, contra o Sporting, a primeira alegria, com um empate a duas bolas. E a 1 de Novembro marcou o primeiro golo, a pontuar a vitória por 4-0 sobre o Lusitano de Évora. Ao todo, na época de estreia, fez nove golos em 25 jogos – só falhou a receção ao Atlético – e foi o segundo melhor marcador da equipa. Melhorou na segunda época, na qual não só foi o melhor goleador dos serranos (14 golos, incluindo um ao Sporting e outro ao FC Porto, a valerem empates em casa), como garantiu a transferência para o Benfica.

Na chegada a Lisboa, Cavém entrava num grupo que tinha sido campeão nacional e ganhara a Taça de Portugal. A afirmação tardou, naturalmente. O primeiro jogo a sério só o fez a 4 de Dezembro, por ausência de Palmeiro, e os encarnados empataram em casa com o modesto Torreense. Mesmo assim, Otto Glória – que depois se tornou seu padrinho de casamento – voltou a apostar nele a seguir ao Ano Novo: titular contra o Atlético, a 7 de Janeiro, fez um golo na vitória encarnada por 3-0 e passou a ser escolha regular. O balanço da primeira época no Benfica acabou por ser positivo e incluiu até a estreia internacional, na Taça Latina, onde ajudou o Benfica a obter o terceiro lugar, com um golo ao Nice no primeiro de dois prolongamentos, quando a equipa perdia por 1-0.

Os primeiros troféus, no entanto, tiveram de esperar pela segunda temporada, na qual já foi titular a tempo quase inteiro. O Benfica celebrou o título de campeão com uma vitória em casa contra a Académica (2-0), a 31 de Março de 1957, uma semana depois de Cavém ter conquistado a primeira de 18 internacionalizações, pela mão de Tavares da Silva, num amigável frente à França, no Jamor. Apesar de estar a viver um momento único, a felicidade de Cavém não terá sido total pois, no mesmo dia em que festejava o título, nem a vitória por 3-0 frente ao Barreirense impediu que o Sp. Covilhã onde ainda jogava o mano Amílcar descesse de divisão. A reação dos serranos foi de tal forma que, na Taça de Portugal – que se jogava após o fim do campeonato – foram até à final, afastando o FC Porto. O primeiro encontro dos irmãos Cavém ficou marcado para 2 de Junho, no Estádio Nacional. Ganhou o Benfica, por 3-1, o que lhe serviu para garantir mais uma dobradinha, mas Domiciano não marcou.

Cavém era já uma figura do futebol nacional e o seu nome surgia naturalmente quando se fazia a linha do Benfica. Nessa altura ainda como extremo-esquerdo, posição a partir da qual obteve, em 1957/58, o primeiro “hat-trick” (nos 6-1 ao V. Setúbal, a 8 de Setembro) e o primeiro póquer (nos 9-1 ao Salgueiros, a 2 de Dezembro). Uma lesão frente ao Barreirense, na meia-final, tirou-lhe no entanto a hipótese de voltar a jogar a final da Taça de Portugal, que os encarnados perderam para o FC Porto. E a avidez terá sido tanta que o extremo algarvio se vingou na época seguinte com o golo mais rápido da história das finais: Benfica e FC Porto – que se sagrara campeão nacional – voltaram a encontrar-se no Jamor em Julho de 1959 e os encarnados impuseram-se por 1-0, com golo de Cavém aos 15 segundos. Curiosamente, foi após a época em que mais golos marcou em toda a sua carreira (21 no campeonato e cinco na Taça de Portugal) que a carreira de Cavém começou a virar. É que após a final, Bela Guttman, treinador húngaro que levara o FC Porto ao título, mudou-se para o Benfica.

Guttman começou por manter Cavém como extremo, mas fazia-o derivar algumas vezes para interior. E, como tinha a sagacidade tática para colocar tudo em causa, na segunda vitória na Taça dos Campeões, três anos depois, já Cavém estava a jogar como médio-defensivo, com a missão de anular Di Stefano, a maior figura do Real Madrid. Foi também com Gutmann que o Benfica iniciou o período de domínio no futebol nacional: ganhou o campeonato em 1960 e 1961, ano em que conquistou também a Taça dos Campeões Europeus, batendo na final o Barcelona por 3-2. Na sequência da final de Berna, Cavém lançou a lenda do velho careca: “Apareceu-me em sonhos um homem simpático, meio careca e de bigode, a dizer-me que se queria ganhar ao Barcelona não podia cortar a barba”. Já com Eusébio, um ano depois, nova Taça dos Campeões, desta vez contra o Real Madrid e Cavém a jogar a meio-campo. Fez um golo nos 5-3, mas destacou-se sobretudo pela forma como anulou Di Stefano: “O velho voltou a aparecer-me e ensinou-me como marcar Di Stefano”. A sério ou a brincar, a verdade é que o Benfica não voltou a ganhar a mais importante competição europeia: em 1963, já com Cavém a defesa-direito, foi o Milan quem levou a melhor. “Ainda tive a ideia de jogar outra vez de barba, mas não surgiu um dia apropriado para a deixar crescer e perdemos”, comentou no final o algarvio.

Em Portugal, no entanto, as vitórias continuavam a ser comuns. Em 1961/62, também com um golo de Cavém na final, contra o V. Setúbal (3-0), o Benfica juntou a Taça de Portugal à Taça dos Campeões. No campeonato, porém, fruto da nova posição em campo, via a produção goleadora diminuir: fez apenas três golos. Em 1962/63, já com Fernando Riera aos comandos, voltou a ser campeão nacional – e como defesa lateral. Marcou o último golo no campeonato a 28 de Outubro de 1962, numa vitória por 5-1 frente à Académica, na Luz. Até final da carreira, em mais seis temporadas, só voltou a marcar por uma vez, na final da Taça de Portugal de 1965, em que fez o golo do Benfica na derrota (1-3) com o V. Setúbal. Cavém fazia então valer as suas qualidades defensivas e tornava-se mesmo assim imprescindível: em 1963/64, ano de mais uma dobradinha benfiquista, com Lajos Czeiler a treinar, fez todos os jogos do campeonato e da Taça dos Campeões, só faltando a três desafios da Taça de Portugal por lesão. Czeiler deu o lugar a Elek Schwartz, mas o Benfica continuou a ganhar em 1964/65, época em que foi campeão nacional e só perdeu a Taça de Portugal e a Taça dos Campeões Europeus na final, com o V. Setúbal e o Inter de Milão (0-1, no jogo que ficou famoso pelo frango de Costa Pereira e a lesão que levou Germano para a baliza).

As duas derrotas nas finais da Taça dos Campeões terão levado o Benfica a recuperar Guttman. Só que, reza a lenda, ninguém é feliz duas vezes no mesmo sítio. Com o feiticeiro húngaro, os encarnados não ganharam nada em 1965/66, mas Cavém arrancou para duas épocas de grande utilidade. Quando fez 35 anos, em Dezembro de 1967, começou a pensar na retirada. Fernando Cabrita, que tinha sido seu colega nos tempos da Covilhã, deu-lhe a última titularidade no campeonato, a 7 de Janeiro de 1968. Já com Otto Glória de regresso, na primavera seguinte, ainda contribuiu para a chegada do Benfica às meias-finais da Taça de Portugal, mas o tempo era de dar o lugar aos novos. O padrinho deu-lhe a oportunidade da despedida em Setembro de 1968, na época de estreia das substituições: entrou para o lugar do ainda jovem Simões nos jogos com o Valur (0-0, na Islândia, no dia 18) e na receção ao V. Setúbal (2-1, com expulsão de Eusébio, a 22). Já não jogou um minuto que fosse nessa Taça de Portugal cuja final o Benfica ganhou à Académica no meio da crise estudantil. Acabou por deixar o Benfica nessa altura, jogando ainda no Nazarenos e no Ac. Viseu, na III Divisão, quase até aos 40 anos. Ficou depois pelo centro do país, vindo a falecer em Alcobaça em 2005.