Não era alto, mas compensava a falta de estatura com uma garra incomum, que o levou a ser seis vezes campeão no Benfica. Ficaram célebres os duelos que travava, muitas vezes para além das regras do cavalheirismo, com Peyroteo.
2016-02-27

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1936

Terá ficado na história como o primeiro dos muitos defesas intratáveis que o futebol português já conheceu. Os duelos que travou com Peyroteo, muitas vezes para lá dos limites físicos e verbais, acabaram com o goleador do Sporting a esmurrá-lo e a ser expulso pela única vez em toda a carreira, levando a que os dois nunca mais se tivessem falado depois disso, nem mesmo fora dos campos. Mas o arreganho de Gaspar Pinto era um exemplo para os adeptos do Benfica, que exultavam com cada desarme conseguido por este que, com seis campeonatos ganhos em doze anos, foi um dos primeiros tricampeões do futebol nacional.

Uma das grandes figuras dos primeiros campeonatos nacionais do Benfica, Gaspar Pinto ainda chegou à seleção nacional quando representava o Carcavelinhos. O clube alcantarense fez um belo campeonato de Lisboa, em 1934, acabou-o em segundo lugar, apenas atrás do Sporting, e quando Ribeiro dos Reis fez a equipa que, a 11 de Março, ia discutir com a Espanha a presença na fase final do Mundial de Itália, lembrou-se deste defesa-esquerdo que compensava a falta de centímetros com uma garra fora do comum. O jogo correu muito mal, Portugal perdeu 9-0, mas ele não terá sido dos piores – prova disso é que uma semana depois se manteve entre os que jogaram a segunda mão, também ganha pelos espanhóis, mas agora por um muito mais aceitável 2-1. No final dessa época, Gaspar Pinto estava a defrontar o Benfica no Campeonato de Portugal. Os encarnados ganharam por claros 5-1, mas o defesa continuava a agradar aos responsáveis do clube, que acabaram mesmo por recrutá-lo em inícios de 1935. O Benfica tinha sido segundo no campeonato de Lisboa, atrás do Sporting, e à terceira jornada do primeiro campeonato da Liga, criado na sequência da goleada sofrida pela seleção em Espanha, estreou o seu novo defesa: foi a 3 de Fevereiro de 1935, mas nem assim a equipa liderada por Vítor Gonçalves evitou a derrota com o FC Porto (1-2), no Lima.

O terceiro lugar na Liga, com Gaspar Pinto como titular fixo a partir da sexta jornada – outra derrota, contra o Belenenses – e a fazer o seu primeiro golo nos 3-0 da retribuição ao FC Porto, a 24 de Março, acabou por ser visto como dececionante, mas o Benfica acabou por ganhar o Campeonato de Portugal, prova a eliminar que foi a antecessora da atual Taça de Portugal, com a qual se acabava a época. Gaspar Pinto falhou apenas dois jogos em toda a caminhada e esteve presente na final, ganha por 2-1 ao Sporting, no Lumiar. Era o ponto de partida para três anos de sucesso. Comandado pelo treinador húngaro Lipo Hertzka, mesmo ficando sempre atrás do Sporting no campeonato de Lisboa, o Benfica ganhou por três vezes a Liga. No primeiro ano, o habitual arreganho de Gaspar Pinto teve consequências: um braço partido, num jogo com o Carcavelinhos, custou-lhe um mês de ausência. No segundo falhou apenas duas partidas e no tricampeonato até foi totalista, marcando igualmente presença na equipa que perdeu a final do Campeonato de Portugal, com o Sporting, por 3-1.

Outra vez com Gaspar Pinto a jogar todas as partidas – e a marcar mais dois golos, um deles ao FC Porto – o Benfica não foi além do terceiro lugar no campeonato nacional, a prova que em 1938/39 sucedeu ao campeonato da Liga. Jogou, além disso, a final da primeira Taça de Portugal, que o Benfica perdeu para a Académica (3-4), o que somado ao terceiro lugar no campeonato de Lisboa levou ao primeiro ano sem títulos do defesa desde que chegara ao clube. A substituição de Hertzka pelo seu compatriota Janos Biri, porém, devolveu o clube ao caminho do sucesso: em 1939/40, vieram as vitórias no campeonato de Lisboa – Gaspar Pinto foi totalista – e na Taça de Portugal, com o defesa a jogar no 3-1 ao Belenenses com que a equipa arrematou a final. E se 1940/41 foi outra vez vazio em termos de troféus, a equipa benfiquista conseguiu depois mais dois títulos nacionais consecutivos, juntando ao segundo a conquista da Taça de Portugal. Em 1941/42, Biri só abdicou de Gaspar Pinto na última jornada, um 5-2 ao Leça já com o título matematicamente garantido. E em 1942/43 voltou a ser totalista, tanto no campeonato como na Taça de Portugal, em cuja final os encarnados bateram o V. Setúbal por 5-1. Uma época em contraciclo com a de 1943/44, na qual Gaspar Pinto participou em apenas um jogo, a derrota por 3-1 frente ao Atlético. Não jogou depois um único minuto na campanha que levou os encarnados a repetirem a vitória na Taça de Portugal, desta vez com um retumbante 8-0 ao Estoril na final.

Gaspar Pinto ainda voltaria à equipa principal, porém, para mais uma temporada em cheio. Fez todos os jogos no campeonato de 1944/45, que o Benfica voltou a ganhar, e a 24 de Junho de 1945 conseguiu levar Peyroteo a perder a cabeça. Conta-se que num dérbi anterior com o Sporting, além de uma marcação implacável – Gaspar Pinto já derivara da esquerda para o centro da defesa – o defesa benfiquista insultara o avançado do Sporting. Este, pelo menos, escreveu uma carta à sua direção, queixando-se desse facto, que hoje pode ser banal mas na altura era altamente invulgar. Os dois zangaram-se, mas em Dezembro de 1944, na sua festa de despedida, o benfiquista Valadas conseguiu que os jogadores desavindos apertassem as mãos antes do pontapé de saída. Tudo resolvido? Não. Na segunda mão da meia-final da Taça de Portugal de 1944/45, Gaspar Pinto terá ido ainda mais longe, alargando os insultos que usava para desestabilizar os adversários à mãe do avançado-centro leonino. Este perdeu a cabeça e esmurrou o capitão benfiquista, recebendo ordem de expulsão do árbitro, Vieira da Costa.

Peyroteo já não jogou mais nessa época, falhando a final da Taça de Portugal, que os leões ganharam, por castigo. Gaspar Pinto também não, porque o Benfica acabou por ser eliminado. Voltou para uma última época, já feita a meio-gás. Despediu-se do campeonato a 20 de Janeiro de 1946, quando estava prestes a completar 34 anos, num dérbi com o Sporting que os leões ganharam por 4-3, com bis de Peyroteu, que desde a cena do soco nunca mais falou a Gaspar Pinto. O último jogo deste pelo Benfica foi a eliminação da Taça de Portugal, rente ao Atlético (derrota por 3-2); a 9 de Junho. Em Setembro, contra o Olhanense, teve direito à festa de despedida.