Titular e capitão precoce, Barbosa viu-se compelido a abdicar da influência no Boavista devido aos excessos revolucionários de 1974. Mas continua a ser quem mais vezes jogou pelo Boavista na I Divisão.
2016-02-26

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1970

No xadrez da afirmação do Boavista na I Divisão, Barbosa foi mais do que um peão. Aquele que ainda hoje é o futebolista que mais vezes exibiu a camisola quadriculada na competição e que abandonou a carreira de jogador para, como treinador, conduzir a equipa a uma das mais memoráveis recuperações de que há memória – do 15º ao quinto lugar, em dez jornadas – fez de tudo no clube. Começou como defesa central, passou grande parte da carreira como médio, alinhou na lateral direita e envergou a braçadeira de capitão até dela abdicar na sequência dos excessos da revolução de 1974. Esse será, provavelmente, o seu grande arrependimento: por causa disso não pôde erguer nenhuma das três Taças de Portugal que o Boavista conquistou na segunda metade da década de 70.

Dizer que Barbosa nunca passou por dificuldades enquanto crescia pode parecer um eufemismo. A família de onde vinha era muito abastada, devido às plantações de café que tinha em Angola, e o rapaz podia jogar futebol por mero divertimento. Gostava do Boavista e foi lá que fez a primeira inscrição, aos 15 anos. Colocaram-no a defesa-central e, quando jogava nos juniores, viu a equipa principal subir da III para a II Divisão, em 1968. No último ano de júnior, mesmo afetado por uma suspensão de seis meses, originada no facto de ter assinado pela Académica quando os seus direitos desportivos pertenciam aos boavisteiros, foi chamado por António Gama a participar em alguns jogos na ponta final da que foi a segunda subida consecutiva, com a vitória na Zona Norte, um ponto à frente do Famalicão. E a 7 de Setembro de 1969, com 18 anos, estava ao lado de Mário João no centro da defesa que o mesmo Gama fez alinhar na primeira jornada do campeonato, saldada por um empate (2-2) com o V. Setúbal no Bessa. Era a primeira de mais de 300 presenças, que fazem hoje de Barbosa o jogador que mais vezes representou o Boavista na prova.

Na primeira época, a luta para não descer foi árdua e coroada de sucesso apenas na última jornada, num escaldante Boavista-Sp. Braga. Com Barbosa a titular – só falhou um jogo nesse campeonato, que foi o empate a zero com a CUF – o Boavista bateu os arsenalistas por 2-0, em casa, e saltou do 13º para o 12º lugar, condenando a equipa minhota à despromoção. Fundamental foi a capacidade dos axadrezados para transformarem o Bessa num feudo inexpugnável: durante toda a época, só o Varzim ali ganhou, tendo o Sporting e o Benfica empatado e o FC Porto perdido. A chegada de Fernando Caiado, antiga glória do clube, para dirigir a equipa, em 1970, lançou as bases para uma segunda temporada mais conseguida. Barbosa, que subiu para o meio-campo, esteve três meses de fora, entre Novembro e Fevereiro, mas ainda voltou a tempo de participar na vitória sobre o Sporting (1-0, em Março). E na confusão que foi a época de 1971/72, com a incorporação no serviço militar, ainda conseguiu fazer o primeiro golo como sénior: foi um dia depois do Natal de 1971, a passe de Perrichon, mas nem assim impediu o Boavista de perder, por 3-1, em casa, com o Leixões. Joaquim Meirim foi demitido após esse jogo, dando início a um carrossel alucinante, com cinco treinadores a sucederem uns aos outros até ao 11º lugar final, evitando a incerteza que seria a Liguilha por um ponto apenas.

Apesar da juventude, Barbosa chegou por esta altura a capitão de equipa. Aimoré Moreira, o treinador brasileiro que chegou para liderar o Boavista em 1972, confiava na leitura de jogo do rapaz e fez dele uma espécie de seu representante em campo. E Barbosa não falhou um único jogo nos dois anos que este ex-campeão mundial (em 1962, no Mundial do Chile) fez no clube, antes de se mudar para o FC Porto. Em 1972/73, dos grandes, só o Benfica passou no Bessa – o Sporting perdeu por 3-2 e o FC Porto por 1-0. Mas em 1973/74, época em que o Boavista baixou do sétimo para o nono lugar na Liga, começaram os problemas para o capitão. Nos excessos revolucionários, contestou-se a autoridade e até a titularidade de um homem que já passara a centena de jogos pelo clube na Liga, só porque era rico e originário de uma família de proprietários. Barbosa fez o que a consciência mandou e, para acabar com a contestação, abdicou da braçadeira de capitão. Apesar de a família ter perdido tudo o que tinha em Angola e de já não se colocarem as razões que tinham levado à contestação em primeiro lugar. E ainda hoje Barbosa lembra com alguma tristeza essa decisão, que o impediu de erguer os troféus que o clube passou a ganhar a partir daí, pois nesse mesmo Verão chegou ao Bessa Pedroto, o homem que começou a mudar o clube.

Pedroto decidiu confiar em Celso (ex-FC Porto) e Alves (ex-Montijo) para formar a dupla de médios. Barbosa baixou para lateral-direito, mas nem por isso deixou de ser influente, só perdendo a vaga na equipa em meados de Fevereiro, quando no onze passou a figurar Taí, e passando a saltar com frequência do banco já com os jogos em curso. Foi, aliás, como suplente utilizado que ganhou a sua primeira final da Taça de Portugal: entrou a três minutos do fim para o lugar de Acácio Casimiro, ajudando a segurar a vitória por 2-1 sobre o Benfica que valeu o troféu aos axadrezados. Na melhor época do Boavista até essa altura (segundo lugar e nova vitória na Taça da Portugal), Pedroto voltou a chamar Barbosa para o meio-campo, posição na qual teve a estreia europeia, a 17 de Setembro, num empate a zero em Trnava, contra o Spartak. Regra geral, ao longo da temporada, o jogador, que deixara crescer barba a condizer com a era que se vivia, correspondeu, assegurando a fiabilidade defensiva da equipa a partir dali. Era o primeiro sacrificado quando as coisas corriam mal, porém. Foi o que sucedeu logo no primeiro jogo da segunda volta, a quem muitos chamaram “jogo do título”. O Boavista, que tinha sido “campeão de inverno”, recebia o campeão da época anterior, o Benfica, que o seguia a um ponto de distância. Uma vitória seria a afirmação da candidatura boavisteira, mas o Benfica adiantou-se, por Jordão. Barbosa fez ele mesmo o golo do empate, mas Moinhos voltou a marcar para os encarnados. A perder por 2-1, ao intervalo, Pedroto fez entrar Mané, um avançado, saindo Barbosa. E os 4-1 finais deram um sinal de que a equipa mais forte da Liga era mesmo o Benfica.

O Boavista acabou esse campeonato em segundo lugar, mas ganhou nova Taça de Portugal, batendo desta vez o V. Guimarães. Barbosa foi titular nesta final, mas não ficou até ao fim, voltando a dar o lugar a Mané durante o intervalo. Desta vez com bons resultados, pois o Boavista ganhou por 2-1. No fim da época, Pedroto seguiu para o FC Porto e levou Celso com ele, chegando Mário Wilson ao Bessa. Por lá deixou de estar também Alves, que assinou pelo Salamanca, de Espanha, pelo que Barbosa reassumiu o estatuto de titular inamovível a meio-campo. Só falhou um jogo no percurso até ao quarto lugar de 1977 e mais três – dois deles por castigo, na sequência da sua primeira expulsão, por causa de uma agressão mútua em que se envolveu com o bracarense Chico Faria – na caminhada até à sétima posição de 1978. E em 1978/79, já com Jimmy Hagan como treinador, não só voltou a ser preponderante na direita da defesa como pôde finalmente jogar uma final da Taça de Portugal por inteiro. Aliás, teve direito a dose dupla, uma vez que a prova só se decidiu ao segundo jogo. Barbosa esteve nos 120 minutos da final contra o Sporting, que acabou empatada a uma bola, e depois nos 90 da finalíssima, ganha com um golo de Júlio (1-0). Foi a forma de o Boavista compensar mais uma época abaixo daquilo a que a equipa vinha habituando os seus adeptos, pois o nono lugar final era algo a que estes já não estavam habituados.

O regresso ao quarto lugar – foram dois, em 1979/80 e 1980/81 – deu-se quando, chegados os 30 anos, Barbosa começou a figurar mais vezes fora das escolhas os treinadores. Ainda jogou, apesar de tudo, na primeira Supertaça, ganha pelo Boavista ao FC Porto (2-1), a 17 de Agosto de 1979. E até foi expulso no último minuto de uma partida que o Boavista acabou com nove, segurando mesmo assim a vantagem. A época de 1981/82 foi fraca a nível coletivo e a seguinte ameaçava tornar-se ainda pior. À 20ª jornada (das quais Barbosa tinha jogado em 15), após perder por 6-0 com o FC Porto no dérbi da cidade, o Boavista despediu o treinador, o austríaco Smetana – que já tinha sucedido a Herman Stessl e Joaquim Meirim. No dia a seguir ao jogo, Valentim Loureiro chamou Barbosa ao gabinete e disse-lhe que decidira entregar-lhe o comando da equipa. Dois dias depois de fazer 32 anos, a 28 de Fevereiro de 1983, Barbosa acabava assim a carreira de futebolista – o seu último jogo foi esse triste 6-0 no dérbi, no dia 27. E começava a de treinador, com uma tarefa muito difícil pela frente: a dez jornadas do fim, o Boavista era penúltimo (15º), a um ponto da linha de água. Até final da época, porém, os axadrezados ganharam oito jogos em dez (só foram batidos em Setúbal e em Portimão, ganhando ao Sporting no Bessa), terminando a prova em quinto lugar, a dois pontos de um lugar europeu que sorriu ao V. Guimarães.

Manuel Barbosa, mesmo assim, não viu o lugar confirmado: passou a adjunto de Henrique Calisto e só voltou a treinar no final da época, quando lhe coube treinar o Penafiel na Liguilha. Evitou a descida de divisão, começou a época seguinte, mas só ficou meio campeonato em Penafiel. Veio ainda a ocupar-se de Boavista, Chaves, Leixões, Oliveirense, Ac. Viseu, Aves e dos chineses do Shandong Luneng, com os quais chegou à final da Taça da China em 2011, perdendo para o Tianjin Teda. No Boavista, depois, foi administrador e coordenador dos escalões de formação, nunca deixando de ser adepto fervoroso e uma das maiores referências da história do clube.