Capitaneou a equipa do Marítimo que subiu pela primeira vez à I Divisão, em 1977, numa saga histórica para o reconhecimento da Madeira no desporto nacional. E foi dos mais influentes depois, nas sucessivas lutas pela permanência.
2016-02-24

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1977

A história de Eduardinho confunde-se, em larga escala, com a história da Madeira e do Marítimo na década de 70. É uma história de luta simultânea pela autonomia e pela afirmação no plano nacional. O futebol foi um dos palcos onde essa luta teve lugar e o capitão do Marítimo um dos protagonistas que permitiu que ela tivesse sucesso. Quarto futebolista com mais presenças em campo em toda a história maritimista, Eduardinho é um daqueles a quem os madeirenses devem hoje o facto de a ilha ter tanta representatividade no panorama do futebol nacional.

José Eduardo Gonçalves, que desde petiz teve Eduardinho como “petit-nom”, entrou no Marítimo com 14 anos, depois de curtas passagens pelo Braga de São Roque e pelo Marítimo de São Roque. Influente nas equipas jovens em que se ia sagrando inevitavelmente campeão regional, chamou a atenção dos olheiros do Sp. Braga e, em 1969, viajou para o continente, de forma a prestar provas frente ao treinador Frederico Passos. Agradou e os dois clubes já iam começar a conversar para tratar da transferência, quando Eduardinho deixou que as saudades de casa falassem mais alto: voltou para a Madeira e para a triste realidade que era a do Marítimo naquela altura: só podia jogar o campeonato regional, porque não havia verba que assegurasse as viagens regulares entre o Funchal e o continente, tanto dos clubes madeirenses como dos seus adversários.

Eduardinho dividia-se então entre os treinos e os jogos pelo Marítimo e o emprego na Junta Nacional dos Produtos Pecuários. Até que chegou o serviço militar: em 1972 foi colocado nas Caldas da Rainha. Ali passou nove meses no curso de sargentos, até o transferirem para Vendas Novas, onde o Estrela local resolveu aproveitar para o inscrever. Jogou parte dessa época na Série D da III Divisão, ajudando a impedir a descida do Estrela aos regionais, mas ainda a acabou com as cores do Marítimo, que entretanto se sagrara campeão regional pela última vez e, por decisão ministerial, podia disputar uma Liguilha com o 13º e 14º do segundo escalão e os segundos classificados das séries mais a sul do terceiro, de forma a decidir quem teria assento na II Divisão do ano seguinte. O Marítimo garantiu uma das vagas em disputa, mas Eduardinho foi destacado para a Guiné, onde ainda decorria a guerra colonial. Ali, viu a guerra bem de perto, tendo também chegado a jogar pela União Desportiva e Internacional de Bissau, ao lado do ex-portista Lemos.

De regresso de África, não demorou a voltar a vestir a camisola maritimista. Duas épocas e meia na II Divisão, sempre a cheirar os postos cimeiros, acabaram na epopeia de 1976/77, na qual a equipa liderada por Pedro Gomes conseguiu mesmo ganhar a Zona Sul. A festa da subida, em luta com a CUF, não se fez senão na última jornada, quando os verde-rubros ganharam em casa ao Olhanense por 4-0, lançando a festa em toda a ilha. Eduardinho assegurava a honra de ser o capitão da primeira equipa da Madeira a ascender ao campeonato nacional da I Divisão. E a 4 de Setembro de 1977, foi também o autor do primeiro golo maritimista no campeonato: estavam decorridos 36 minutos da primeira jornada, quando o médio acorreu a um passe de Tininho e marcou na baliza de Ferro, o guarda-redes do Estoril (que viria a ser seu colega no Marítimo nas épocas seguintes). O Marítimo empatou esse jogo a um golo (marcou Salvado a 5’ do fim), mas houve tempo para vitórias. Na primeira, face ao Feirense, em Outubro, Eduardinho não esteve, porque se lesionara com gravidade uma semana antes, em Espinho. Essa lesão, que o afastou até meados de Janeiro, tê-lo-á impedido de ser totalista nessa época, que terminou com três golos marcados: fez ainda um golo ao FC Porto e outro ao Portimonense.

Uma vitória frente ao Varzim (2-0), na última jornada, assegurou a manutenção, condenando o Potimonense. E durante mais três anos os verde-rubros foram presença habitual nas árduas lutas para evitar a descida. Ao 12º lugar de 1977/78 juntou-se o 10º de 1978/79 e o 11º em 1979/80. Na primeira destas épocas, Eduardinho só falhou um jogo, frente ao Beira Mar, voltando a marcar na primeira jornada, desta vez ao Famalicão, e estando na histórica vitória sobre o Benfica, a 4 de Março de 1979. Na segunda esteve em todas as partidas, incluindo as oito da longa caminhada até às meias-finais da Taça de Portugal, prova da qual os madeirenses só foram afastados pelo FC Porto, nas Antas (3-0, com Eduardinho a sair a oito minutos do final, por lesão, deixando a equipa só com dez homens). A quarta época, contudo, correu mal, tanto individual como coletivamente. Marcou a queda do Marítimo na II Divisão e foi marcada por dois longos períodos de ausência por lesão do capitão Eduardinho. A três jornadas do fim, após uma derrota frente ao Amora, em desespero, a direção demitiu o treinador, António Medeiros, substituindo-o por Ângelo Gomes, uma antiga glória do clube. Eduardinho fez a sua parte, marcando na semana seguinte um dos golos da vitória (3-1) sobre a Académica, mas nem o empate frente ao FC Porto (1-1) nas Antas e nova vitória no último dia (5-3 ao Ac. Viseu) impediram a descida.

Aos 30 anos, Eduardinho voltava a ter de comandar a equipa no segundo escalão. E, mais uma vez, celebrou a subida de divisão, assegurando o regresso em 1982. Essa era, porém, a época em que o Marítimo fazia o trajeto do iô-iô: descia e subia, descia e subia… A época de 1982/83 foi a última do capitão no ativo. Voltou a ser totalista, mas o Marítimo voltou a descer. Eduardinho fez o último golo na I Divisão a 22 de Maio de 1983, numa vitória por 2-1 no terreno do Amora. A vitória por 3-0 sobre o Ginásio de Alcobaça, na penúltima jornada, ainda deixou a equipa liderada por Mário Lino em zona de salvação, mas o último dia foi triste. A 5 de Junho, Eduardinho fazia o seu último jogo na I Divisão, vendo o seu Marítimo de todas as horas perder por 3-0 em Portimão, enquanto que, à mesma hora, o Sp. Espinho ganhava ao Estoril e assegurava a entrada na Liguilha. Eduardinho parou ali. Fez durante alguns anos parte das equipas técnicas do Marítimo, antes de José Peseiro o levar com ele para o arqui-rival dos verde-rubros, o Nacional. Ali começou uma parceria que o fez andar com Peseiro um pouco por todo o Mundo, do Sporting ao Sp. Braga, com passagens pela Grécia, pla Roménia ou pelo Golfo Pérsico. A parceria só foi interrompida quando Peseiro seguiu para o Egito, tendo Eduardinho passado para a equipa técnica de Pedro Caixinha, no Al-Gharafa, do Qatar.