O Zé da Europa, como ficou conhecido depois de ser o primeiro português chamado para uma seleção europeia, era a alma dos Cinco Violinos. Uma das maiores figuras da história do Sporting, ganhou oito títulos de campeão nacional.
2016-02-22

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1949

O nascimento marcou o destino de José Travaços. Veio ao Mundo numa casa modesta, entre dois campos de futebol, o do Lumiar e o do Campo Grande, pelo que só podia mesmo ser futebolista. O local onde começou as brincadeiras de miúdo, a quinta onde veio a ser construído o Estádio José Alvalade, também lhe motivou a inclinação pelo Sporting: mesmo depois de, ainda garoto, ter sido rejeitado pelos leões, inventou um ardil que o impediu de ir para o FC Porto, onde o queriam a todo o custo, levando-o antes a vestir de verde e branco, como ansiava. O resto foi conseguido pelo inegável talento daquele que veio a ser o maestro, o cérebro criativo dos “Cinco Violinos”. Travaços foi um dos mais brilhantes futebolistas da história do Sporting, clube que serviu por 13 épocas, ganhando oito vezes o campeonato nacional, e que nunca deixou, apesar dos cantos de sereia vindos de Espanha e Inglaterra e mesmo tendo sido o primeiro português a representar a selecção da Europa.

O seu futebol era, de resto, pouco lusitano, o que sem dúvida lhe facilitaria a imposição num país estrangeiro e ao mesmo tempo o tornava tão contrastante entre nós. Velocíssimo, era mestre no uso dos dois pés. Dele diziam os colegas que estes mais pareciam tabelas de bilhar, tal a precisão com que lhes entregava a bola. Mas Travaços fazia mais do que isso, pois a sua extraordinária visão de jogo permitia-lhe escolher quase sempre a melhor solução e colocar ao serviço da equipa o seu vasto manancial de recursos. Além da certeza no passe, tinha uma finta própria, que aperfeiçoava antes das sessões de trabalho conjuntas, e um poder de remate invulgar, que lhe permitia fazer frequentemente golos de fora da área. Inteligente a definir o ritmo e criterioso a escolher o caminho, era para ele que a equipa olhava no momento de delinear cada ataque. E, apesar das lesões que o obrigaram a retirar três meniscos, ele foi sempre respondendo até se deixar de futebóis.

José António Barreto Travaços nasceu a 22 de Fevereiro de 1926, em Lisboa. O pai era rendeiro de uma quinta fronteira à Alameda das Linhas de Torres, entre os campos do Lumiar e do Campo Grande, e a família Travaços vivia na Vila Rosa, um aglomerado de casas pobres que existia no local onde anos mais tarde veio a ser construída a bancada nova do Estádio José Alvalade. Num meio tão futebolístico, os rapazes do bairro pediam frequentemente bolas ao guarda do campo do Sporting, para se divertirem num baldio a que chamavam Estádio do Lima. Era nisso que o pequeno José passava os dias até começar a trabalhar, aos 13 anos, como aprendiz de torneiro. Quis então tentar a sorte nas captações do Sporting, mas Josef Szabó olhou para ele, mediu-o de alto a baixo, viu-o assim tão franzino e mandou-o embora: “Vai mas é comer batatas com bacalhau!”. E a Travaços pouco mais restou do que jogar pelos juniores e depois pela equipa principal da CUF, em cujos estaleiros começara entretanto a trabalhar, matando a sede de sportinguismo ao representar o leão no atletismo. Tornou-se até um velocista afamado, capaz de correr os 100 metros em 11 segundos.

No final da Primavera de 1946, o FC Porto interessou-se por ele e convidou-o a mudar de cores. Travaços pediu 20 contos de luvas e casa montada no Porto, mas nem isso demoveu os nortenhos, que o tinham visto na II Divisão. O negócio ia mesmo fazer-se até que, para ganhar tempo, o Sporting mandou o velocista para um estágio em Torres Vedras, só o deixando sair para participar nuns campeonatos de atletismo. Sucede que, atentos, os portistas aproveitaram a ocasião para pegar nele e o levar para o Norte. Instalaram-no primeiro num hotel da cidade e depois em casa de um sócio, na aldeia minhota de Escaramão. Com tempo para pensar, Travaços decidiu que queria jogar no Sporting, o que o levou a escrever ao irmão, sugerindo-lhe a forma de o “salvar”. E assim foi: combinado com dirigentes leoninos, o irmão enviou um telegrama a informá-lo que devia voltar imediatamente a Lisboa, para ir à inspecção militar. Os portistas ainda tentaram fazê-lo assinar a ficha, mas Travaços alegou que não o faria sem a autorização dos pais. Chegado a Lisboa, foi em casa de família que assinou, sim, mas pelo Sporting. Recebeu os mesmos 20 contos de luvas e 700 escudos de ordenado, que era o que ganhava o maior ás do ataque leonino, Peyroteo.

Uma vez no Sporting, Travaços escalou num ápice os degraus que o levaram ao estrelato. A 8 de Setembro de 1946 estreou-se, tal como o seu inseparável amigo Vasques, num particular contra o V. Setúbal. Uma semana depois já estava no onze titular que abriu o campeonato de Lisboa, frente ao Atlético. Na primeira época ganhou logo os campeonatos regional e nacional, no qual se estreou com um golo a 22 de Novembro de 1946, numa vitória por 9-5 contra o Famalicão que marcou também a primeira reunião, na I Divisão, da linha avançada que ficou conhecida como “Cinco Violinos”: Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travaços e Albano. Entre as duas provas, o interior esquerdo marcou 18 golos, três dos quais num famoso 6-1 ao Benfica, em Fevereiro de 1947. Por essa altura já Travaços se estreara na selecção (fê-lo a 5 de Janeiro, frente à Suíça, lançado por Tavares da Silva), tendo até marcado dois golos na primeira vitória oficial sobre a Espanha, logo à segunda internacionalização. Aliás, pela selecção o interior leonino foi um caso raro de regularidade, tendo participado em todos os jogos desde a estreia, em 1947, até se lesionar pela primeira vez com gravidade, em Novembro de 1952. Encerrou a carreira de jogador de selecção em Maio de 1958, em Londres, frente à Inglaterra, com 35 internacionalizações que eram recorde nacional e só foram batidas pelo defesa portista Virgílio, um ano depois.

Mas muito antes disso, havia troféus a ganhar em Portugal. À segunda época, ajudou o Sporting a conquistar mais uma dobradinha, desta vez entre campeonato (15 golos) e Taça de Portugal (mais um), em cuja final alinhou com os outros quatro violinos, contribuindo para a vitória por 3-1 frente ao Belenenses. Mais 16 golos no terceiro campeonato – o do primeiro tri da história leonina – não apagaram, ainda assim, a vergonha que foi a eliminação da Taça de Portugal logo à primeira eliminatória, às mãos do Tirsense, da II Divisão. Travaços, Peyroteo e Jesus Correia não estiveram nesse jogo, mas compensaram depois com a participação na Taça Latina, recém-criada, e na qual os leões chegaram à final, perdida por 2-1 com o Barcelona, em Madrid, depois de eliminarem o Torino (3-1). O abandono de Peyroteo, a troca de Cândido de Oliveira pelo húngaro Sandor Peics no comando da equipa e a primeira lesão grave de Travaços num joelho levaram a um ano sem títulos para o Sporting: Travaços só se estreou no campeonato na véspera de Natal, à 12ª jornada, mas já não foi a tempo de ajudar a tirar a equipa do segundo lugar, atrás do Benfica. Mas em 1950, com a chegada do inglês Randolph Galloway, os leões partiram para mais um ciclo vitorioso, com a conquista de quatro títulos nacionais consecuitivos.

Em Novembro de 1950, falou-se com insistência na possibilidade de Travaços trocar o Sporting pelo Real Madrid. Para não o perderem, os leões, que já lhe tinham arranjado emprego na Frigidaire assim que ele, saindo da CUF, ficara desempregado, financiaram a fundação da Cofril, uma empresa de construção e reparação de frigoríficos onde Travaços era sócio de Vasques, à altura cobiçado pelo Benfica. Mas nem a memória de mais dois títulos ganhos, em 1951 e 1952, compensou a amargura da primeira lesão grave: Travaços esteve sem jogar de Novembro a Abril e, embora tivesse sido de novo campeão em 1953, passou a sentir o carácter finito da carreira. Até 1956 fez mais duas fracturas meniscais, sempre com necessidade de extracção da cartilagem e de longos períodos de recuperação. Esteve, ainda assim, na equipa do Sporting que deu o pontapé de saída na primeira edição da Taça dos Campeões Europeus, com um empate a três bolas frente ao Partizan, no Estádio Nacional, a 4 de Setembro de 1955. Um mês anos, tinha sido o primeiro português a ser chamado a uma selecção europeia. Sucedeu-lhe quando se preparava para ir de férias e acabou por trocar o areal da Caparica pela relva de Alvalade, onde se treinou com afinco para as Bodas de Diamante da Federação Inglesa. De volta de Belfast, tinha uma multidão a acolhê-lo no aeroporto, sinal do país pequeno que Portugal era na altura. Certo é que, desde então, passou a responder pela alcunha de “Zé da Europa”.

Até abandonar o futebol, Travaços ainda foi campeão nacional em 1954 e 1958, ganhando a Taça de Portugal na primeira dessas duas épocas. Fez, ao todo, 249 jogos pelo Sporting no campeonato, com 103 golos em seu nome. Ironicamente, ele, que sempre foi um vencedor, saiu da equipa com uma derrota: 3-1 em Coimbra, contra a Académica, na Taça de Portugal, a 24 de Maio de 1959, revertidos já sem ele em campo, na segunda mão, quatro dias depois. NO campeonato também se tinha despedido a perder: 1-2 com o Belenenses, a 22 de Março de 1959, numa época triste, que o Sporting acabava a dez pontos do campeão. Travaços retirava-se com 33 anos, passando a dedicar-se à caça e à mulher, que conhecera um dia depois do primeiro “hat-trick” ao Benfica. Foi quando ela morreu que o estado de saúde de Travaços se agravou, redundando na sua morte, no Alvor, a 12 de Fevereiro de 2002.