Zé Beto era um homem irreverente e destemido, que punha a partir da baliza alguma dose de loucura no FC Porto científico de Artur Jorge. Foi campeão nacional e europeu, disputou as redes com Mlynarczik e só as perdeu para Baía, um ano antes de morrer.
2016-02-21

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1979

Zé Beto era um homem de excessos. Quando defendia bem, defendia muito bem, fruto do seu feitio destemido e irreverente. Quando perdia a cabeça, também o fazia com estilo. Foi o que sucedeu na final da Taça das Taças que jogou, pelo FC Porto, em 1984, na sequência do seu primeiro ano de verdadeira afirmação na baliza dos dragões. Defendeu muito bem e perdeu a cabeça nos protestos com o bandeirinha, no final do jogo, o que levou à sua suspensão de toda a atividade internacional por um ano. Artur Jorge, que chegou ao clube depois, começou por manter a confiança nele, mas dois anos depois o polaco Mlynarczik veio reduzir-lhe o espaço de afirmação no FC Porto, que tanto tempo lhe custara a conquistar. Depois, apareceu Vítor Baía. Quando morreu, ainda antes dos 30 anos, na sequência de um acidente automóvel, Zé Beto vivia momentos de angústia profissional.

Nascido numa família de pescadores, em Matosinhos, Zé Beto teve uma infância difícil. A escola não era para ele, que até chegou a reprovar por faltas. Tentou fazer-se serralheiro, mas do que gostava mesmo era do futebol, que experimentou no Pasteleira, a partir dos juvenis. O que fazia entre os postes chamou a atenção do FC Porto, que depressa o foi recrutar e o elevou a outro patamar: Zé Beto passou então a acumular internacionalizações nas seleções jovens, sendo, por exemplo, o guarda-redes português no Mundial de juniores de 1979, no Japão. Por essa altura já ele treinava com a equipa sénior do FC Porto, uma vez que Pedroto lhe adivinhava grande futuro. A 19 de Novembro de 1978, aos 18 anos, face à indisponibilidade de Joaquim Torres, o mestre levou-o pela primeira vez para o banco, onde fez de suplente de Fonseca numa partida em casa contra o V. Guimarães. Até final da época repetiu a experiência mais quatro vezes (uma delas na Taça de Portugal), mas não chegou a entrar em campo, não fazendo por isso parte do lote oficial de campeões nacionais.

Mas Pedroto acreditava tanto nele que quis vê-lo em ação. Zé Beto foi, por isso, emprestado ao Beira Mar na sua primeira época de sénior. Em Aveiro, Fernando Cabrita ainda começou a época alternando entre Freitas e Peres na baliza, mas após quatro derrotas nos quatro primeiros jogos chamou o ex-júnior portista. Zé Beto estreou-se no campeonato a 23 de Setembro de 1979 e desde logo contribuiu para o primeiro ponto (e a primeira baliza virgem) do Beira Mar nessa época, pois o seu primeiro jogo saldou-se por um empate a zero no Bonfim, frente ao V. Setúbal. Depois de um 2-0 ao Rio Ave no segundo jogo, sofreu o primeiro golo ao fim de 195 minutos, no Estádio das Antas: marcou-o Albertino, a dar início a uma vitória do FC Porto por 3-0 frente aos aveirenses. Até final da época, Zé Beto só falhou três jogos: um 3-3 em casa com o V. Guimarães, o 0-5 na Luz frente ao Benfica e um 3-2 contra a U. Leiria, na Taça de Portugal. Prova na qual o Beira Mar, já dirigido por Rodrigues Dias, só foi eliminado nos quartos-de-final, pelo FC Porto, graças a um golo marcado por Gomes a Zé Beto (1-0).

Apesar da descida de divisão do Beira Mar – foi penúltimo – Zé Beto terá passado no teste e voltou às Antas após as férias. Só que encontrou um FC Porto em convulsão. Pedroto e Pinto da Costa tinham ido embora, o treinador era agora o austríaco Herman Stessl, que em duas épocas não deu um minuto de jogo ao guarda-redes de Matosinhos. Em 1980/81, Zé Beto foi doze vezes para o banco na Liga, mais três na Taça de Portugal e uma na Taça UEFA, mas a baliza portista foi sempre entregue a Fonseca ou Tibi. E em 1981/82 foi 13 vezes suplente de Fonseca na Liga, duas na Supertaça ganha ao Benfica e quatro na Taça das Taças. A estreia oficial na baliza do FC Porto, Zé Beto só a fez depois do regresso de Pedroto, a 23 de Janeiro de 1983, numa vitória por 5-0 frente ao Famalicão, na Taça de Portugal. O jovem guarda-redes até tinha sido titular nessa pré-época, mas uma lesão grave impedira-o de assumir a baliza no campeonato até então, levando Pedroto a começar com Amaral ou Fonseca. Uma semana depois da estreia na Taça, Zé Beto passou a ir para o banco, como suplente de Amaral. Até que na sequência de uma derrota em Setúbal, por 3-1, em inícios de Março, se deu a troca: Zé Beto assumiu-se titular à 22ª jornada, nos 5-1 em casa ao Salgueiros e, com ele a jogar, o FC Porto só perdeu mais três pontos (empates com Estoril, Benfica e V. Guimarães, dois deles a zero) e só sofreu três golos em nove jornadas.

Depois de entrar na equipa, em Março de 1983, Zé Beto fez 80 jornadas seguidas na baliza do FC Porto, até ser forçado a sair, por lesão, em Dezembro de 1985. Foi o melhor período da sua carreira, que incluiu o título de campeão nacional em 1984/85, ambos como totalista. A primeira época como titular de pleno direito parecia um sonho. Ainda que tivesse perdido a final da Taça de Portugal de 1983 (disputada só em Agosto, por causa de um conflito à conta do estádio onde se jogaria), Zé Beto foi líder da defesa menos batida do campeonato (nove golos em 30 jornadas), ganhou a Taça de Portugal (substituído aos 73 minutos da final, contra o Rio Ave), a Supertaça (0-0 e 2-1 ao Benfica) e fez todos os minutos da caminhada portista até à final da Taça das Taças. Aí, com 1-1 no marcador, não ficou convencido acerca da regularidade do segundo golo da Juventus, marcado por Boniek numa jogada em que os portistas reclamaram ter havido um empurrão a João Pinto. Terminado o jogo, com 2-1 a favor dos italianos, disparou em direção ao árbitro. Intrometeu-se o fiscal-de-linha, que depois o acusou de agressão. E de nada valeu a Zé Beto a defesa, segundo a qual tinha sido o árbitro auxiliar a espetar-lhe a bandeirola na barriga: o veredicto foi célere – um ano de suspensão das provas da UEFA – e impediu-o de estar com a seleção na fase final do Euro’84.

Artur Jorge, ainda assim, decidiu manter a confiança em Zé Beto nas provas nacionais, gerando a situação estranha que foi ver o jugoslavo Borota defender as redes portistas na Taça das Taças e dar-se mal, por evidente falta de ritmo, logo na primeira eliminatória, em que o FC Porto foi escandalosamente afastado pelo Wrexham. Zé Beto fez todos os outros jogos da temporada, incluindo os 30 que permitiram ao FC Porto ser campeão nacional (só uma derrota, frente ao Boavista, dois empates com o Sporting e outro com o Vizela, todos sem golos), ganhar a Supertaça ao Benfica e atingir a final da Taça de Portugal, perdida para o mesmo Benfica, por 3-1. Só uma lesão, em Dezembro de 1985, tirou a Zé Beto a baliza dos dragões. Artur Jorge começou por fazer confiança no suplente, Matos, mas no Natal teve um presente: chegou do Bastia o internacional polaco Joszef Mlynarczyk, que acabou por ser fundamental no bi-campeonato. Quando Zé Beto se recompôs, ainda lutou com o polaco pela titularidade: voltou a ser dono das balizas em Setembro de 1986, sendo ele a jogar nas primeiras duas eliminatórias da Taça dos Campeões Europeus que culminou com a vitória sobre o Bayern, na final de Viena. Nessa altura, aproveitando a deserção dos jogadores que tinham estado no Mundial do México, na sequência do caso Saltillo, foi o primeiro guarda-redes chamado por Ruy Seabra para a seleção que atacou a qualificação para o Europeu de 1988: teve a primeira internacionalização a 12 de Outubro de 1986, num empate em casa frente à Suécia (1-1).

A baliza da seleção foi dele por mais dois jogos (acabaram sempre 1-1), até perder outra vez a titularidade do FC Porto para Mlynarczik, em Março de 1987. Zé Beto ainda esteve na dobradinha de 1987/88, jogando três vezes no campeonato e duas na Taça de Portugal (esteve nos primeiros dois jogos dos portistas, sem sofrer golos) e até aproveitou uma lesão do polaco para voltar a impor-se, a partir de Setembro de 1988. Só que aí já tinha no banco, à espera de vez, o promissor Vítor Baía que a partir de Fevereiro de 1989 pediu escusa do Mundial de juniores e não deu mais hipótese a ninguém, relegando Zé Beto para o banco. O guarda-redes de Matosinhos despediu-se do campeonato a 4 de Fevereiro de 1989, com um empate a uma bola em Portimão. Veio a falecer exatamente um ano depois, na sequência de um acidente automóvel: horas depois de um Paredes-FC Porto (0-5, com Baía à baliza), para o qual não tinha sido convocado, o seu Volkswagen Golf Cabriolet bateu violentamente no rail junto à saída da A1 para Santa Maria da Feira.