Protagonista da primeira transferência paga do futebol português - 15 contos para se mudar do HC Lisboa para o Benfica -, Vítor Silva foi um dos maiores veículos de propaganda das águias nos anos 30, só ao nível do ciclista José Maria Nicolau.
2016-02-20

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1928

Foi para o Benfica um dos maiores veículos de promoção da chama imensa, justificando todos os tostões dos 15 contos que o clube pagou para o ter, inaugurando a era das transferências pagas em Portugal. Nos anos 30, quem era do Benfica, devia-o principalmente ao ciclista José Maria Nicolau ou ao futebolista Vítor Silva, avançado-centro de recursos raros, como a intuição a que um dia Cândido de Oliveira chamou “prodigiosa” ou a elasticidade que o levou a vulgarizar o salto-de-peixe. Marcava golos como respirava: com naturalidade. Foi o que fez na seleção nacional, tanto nos Jogos Olímpicos de 1928, como no apuramento para o Mundial de 1934. E podia ter feito durante mais tempo, não tivesse sido forçado a abandonar a carreira tão cedo, por causa de varizes.

Vítor Silva começou a jogar futebol no Hóquei Clube de Portugal, agremiação modesta de Sete Rios. Destacava-se a tal ponto que, em 1927, do Carcavelinhos veio um pedido de empréstimo do jovem avançado-centro com vista ao Torneio Promoção da Associação de Futebol de Lisboa. Na prova participavam os três grandes da capital, Belenenses, Benfica e Sporting, e a verdade é que Vítor Silva já não pôde voltar ao seu clube de origem: os dirigentes do Benfica ficaram de tal forma maravilhados com ele que deram 15 contos pela sua transferência. Algo até então nunca visto no futebol em Portugal – Vítor Silva foi o protagonista da primeira transferência paga no país. Mas o rapaz tinha só 18 anos, pelo que a sua entrada na equipa de honra foi, ainda assim, gradual. Foi fazendo alguns jogos particulares, que na altura eram programa habitual, face à falta de torneios nacionais, e só se estreou oficialmente pela mão de Ribeiro dos Reis, na finalíssima do campeonato de Lisboa de 1927/28. Benfica e Sporting tinham acabado com os mesmos pontos e Vítor Silva era a surpresa do treinador para o jogo de desempate, a 8 de Abril de 1928. Jogou como interior direito e o Benfica perdeu por claros 3-0.

Por essa altura já era internacional. Antes mesmo de se estrear na equipa de honra do Benfica, o jovem avançado foi chamado por Cândido de Oliveira para um amigável contra a Espanha, que Portugal empatou a duas bolas, em Lisboa, a 8 de Janeiro de 1928. O primeiro golo pela equipa nacional fê-lo a 15 de Abril, uma semana depois da estreia oficial pelo Benfica, numa vitória por 4-1 frente à Itália, no Campo do Ameal, no Porto. O selecionador não teve, dessa forma, grandes dúvidas em levá-lo aos Jogos Olímpicos de Amesterdão, que decorriam em Maio e Junho. E Vítor Silva correspondeu com um golo em cada jogo: reduziu para 1-2 no jogo frente ao Chile que os portugueses acabaram por vencer por 4-2; abriu o marcador nos 2-1 à Jugoslávia; e fez o golo de honra português na eliminação frente ao Egito (1-2). De regresso da Holanda, Vítor Silva teve entrada direta na equipa do Benfica que foi eliminada do Campeonato de Portugal, nas meias-finais, frente ao Carcavelinhos (mais uma derrota por 3-0), mas só em 1928/29 se tornou a referência do ataque encarnado.

Foi o melhor marcador do Benfica no campeonato de Lisboa (onze golos em dez jogos, com um hat-trick ao Palhavã) de 1928/29, mas os encarnados terminaram a prova a dois pontos do Belenenses, que se sagrou campeão. O mesmo Belenenses afastou as águias do campeonato de Portugal, logo nos oitavos-de-final, deixando Vítor Silva em branco na competição. Na época seguinte, mais onze golos (desta vez em outros tantos jogos) e nova distinção de melhor goleador do Benfica na competição não valeram a Vítor Silva mais do que outro segundo lugar no campeonato regional, outra vez atrás do Belenenses. Outro galo cantaria no Campeonato de Portugal, que o Benfica acabaria por vencer, derrotando na final o Barreirense, por 3-1, após prolongamento. Vítor Silva, porém, não estaria na fase decisiva da competição, forçado a retirar-se, por doença, a partir de Abril de 1930. Ainda fez três golos nos 8-1 ao União Operário, em Santarém, no arranque da prova, e esteve nas duas partidas frente ao Casa Pia, nos oitavos-de-final, mas a partir daí cedeu o lugar de avançado-centro a Jorge Tavares. Vítor Silva só voltaria a competir dez meses depois, em Fevereiro de 1931, contribuindo com quatro golos para o modesto quinto lugar do Benfica no campeonato de Lisboa, desta vez ganho pelo Sporting. Já ninguém o parou, contudo, na campanha que deu aos encarnados o bi-campeonato de Portugal: Vítor Silva marcou onze golos em oito jogos, incluindo um bis na final, ganha por 3-0 ao FC Porto, e outro na segunda mão das meias-finais, contra o V. Setúbal.

Os golos seguiam ao ritmo natural: nove no campeonato de Lisboa e três no campeonato de Portugal em 1931/32; onze na vitória benfiquista no campeonato de Lisboa de 1932/33, mais seis no campeonato de Portugal dessa época. Mas nem assim Vítor Silva foi escalado por Ribeiro dos Reis para a estreia portuguesa na qualificação de um campeonato do Mundo. A 11 de Março de 1934, o selecionador preferiu inserir o portista Acácio Mesquita entre os seus colegas de clube Valdemar Mota e Pinga no jogo em Chamartín frente à Espanha. O resultado foi amplo. Portugal perdeu por 9-0, no jogo que teve substituição de guarda-redes (Soares dos Reis por Augusto Amaro) e levou à célebre rábula do “Ponga-los-dos!”, com que os espanhóis gozavam os portugueses, mas a diferença de golos não era determinante, pelo que o selecionador sabia que lhe bastava ganhar o jogo de retribuição para forçar um desempate. Ribeiro dos Reis fez três alterações para o segundo jogo, uma delas a chamada de Vítor Silva ao onze, mas nem o golo do avançado benfiquista – o primeiro de Portugal na qualificação para o Mundial – chegou para a equipa nacional alcançar os seus objetivos. A derrota por 2-1, no Lumiar, levou à eliminação nacional do Mundial de Itália e à constituição de um grupo de reflexão para se ver o que se fazia mal por cá. Decidiu-se que o futebol português precisava de mais competição e foi então criado o campeonato da Liga, a primeira prova por jornadas a nível nacional, que devia começar em Janeiro de 1935.

Vítor Silva não esteve na primeira equipa que o Benfica apresentou nessa competição e que ganhou em casa ao V. Setúbal, por 3-1. Estreou-se na competição uma semana depois, a 19 de Janeiro, marcando o primeiro golo benfiquista no empate frente ao U. Lisboa (2-2). Fechou a primeira Liga com sete golos, abaixo dos totais de Valadas e Torres, vindo depois a marcar mais seis no campeonato de Portugal. Desses, três foram ao Boavista, num jogo em que o guardião axadrezado Janos Biri (que mais tarde veio a ser treinador do Benfica) chocou contra um poste, fraturando a clavícula, e que gerou um clima de animosidade na partida de retribuição. Vítor Silva foi forçado a sair de campo na segunda mão, por causa de uma entrada mais rude, e em resultado disso falhou algumas partidas na vitória encarnada nessa edição do campeonato de Portugal. Foi o caso da final, ganha ao Sporting (2-1) em Junho, mas com Torres a jogar como avançado-centro.

A debater-se já com problemas nas pernas – varizes – Vítor Silva ainda fez mais uma época no Benfica. Marcou mais sete golos no campeonato, os últimos a 5 de Abril de 1936, num vitória por 5-1 frente ao FC Porto na qual bisou. A 27 de Fevereiro desse mesmo ano despedira-se da seleção nacional com mais um golo, na derrota por 3-1 frente à Alemanha, em Lisboa. Depois disso, a 19 de Abril, ainda teve uma experiência diferente, quando teve de jogar à baliza desde o segundo minuto de um jogo com a Académica por lesão de Cândido Tavares. A vitória por 3-1 permitiu ao Benfica manter a liderança do campeonato, a par do Sporting, numa Liga que se decidiu uma semana depois: os encarnados venceram os leões por 3-1 e fizeram a festa a uma jornada do fim. Vítor Silva ainda esteve no empate frente ao Boavista (2-2), na última jornada, marcando mais quatro golos na campanha que levou o Benfica às meias-finais do campeonato de Portugal. O seu último jogo oficial foi precisamente o da eliminação, frente ao Belenenses (1-2), a 28 de Junho de 1936. Três meses depois, teve direito a uma festa de homenagem, em amigável frente ao Sporting, passando a desempenhar, aos 27 anos, funções diretivas no clube pelo qual fez 94 golos em 130 jogos oficiais.