A carreira de Kenedy fica marcada pela forma como foi forçado a falhar os Mundiais de juniores em 1993 e de seniores em 2002. Ainda assim, foi campeão por Benfica e FC Porto e jogou no Paris St. Germain.
2016-02-18

1 de 12
1993

Há dois momentos marcantes na carreira de Kenedy, dois momentos que ajudam a explicar a razão pela qual não atingiu o patamar que a qualidade do seu pé esquerdo justificava. O primeiro é a lesão no joelho que sofreu em inícios de 1993 e que o impediu de assumir o comando da sua geração na defesa dos dois títulos mundiais de juniores que Portugal conquistara em 1989 e 1991. O segundo foi o momento em que o acordaram, em Macau, para lhe dizer que um medicamento que tomara para emagrecer tinha gerado um positivo num controlo anti-doping, levando ao seu afastamento da seleção nacional que se preparava para jogar o Mundial 2002. Aos 28 anos, com uma época inteira de paragem pela frente, pouco mais restava ao jogador de ascendência guineense do que imaginar o que podia ter sido uma carreira que, mesmo assim, encerrou com dois títulos de campeão nacional, duas meias-finais europeias e um quarto lugar nos Jogos Olímpicos

Daniel, que tem como segundo nome próprio Kenedy, assim mesmo, só com um n, numa homenagem que os pais quiseram fazer ao falecido presidente americano John Kennedy, nasceu em Bissau mas veio muito jovem para Portugal. Aos 6 anos já jogava no Cultural da Pontinha, aos 11 estava no Benfica. Tornou-se a estrela da sua equipa de juvenis e depois de juniores, a ponto de Eriksson o ter chamado para um jogo no Funchal, contra o Marítimo, em Fevereiro de 1992, tinha ele acabado de completar 18 anos. Ficou no banco, só para ver como se jogava na I Divisão. E viu Rui Costa, o ídolo que seguia nas camadas jovens, a estrela da equipa anterior à dele, fazer dois golos numa vitória por 4-0. Kenedy ainda teve de esperar quase um ano pelo primeiro jogo: chegou a 9 de Janeiro de 1993, quando Toni o colocou em campo no último quarto-de-hora de uma vitória do Benfica em Paços de Ferreira (2-0). Ainda viu por dentro Isaías marcar o segundo golo encarnado. Um mês depois, mais 15 minutos em campo, desta vez em partida da Taça de Portugal, contra o Amora, a justificar o primeiro troféu da sua carreira senior, pois o Benfica acabaria por ganhar essa Taça de Portugal.

Só que nessa altura apareceu a primeira contrariedade. Uma lesão no joelho impediu Kenedy de seguir viagem com os colegas para a Austrália, onde em Março a seleção nacional de sub20 ia defender os títulos mundiais de 1989 e 1991. A equipa era mais fraca do que as antecessoras – tinha Costinha, Litos, Pedro Henriques, Porfírio ou Poejo como figuras – e saiu do Mundial com três derrotas em outros tantos jogos. Kenedy não voltou a jogar nessa época, mas acabou por ser um elemento importante no Benfica de 1993/94, aquele que se seguiu às deserções de Paulo Sousa e Pacheco para o Sporting. Titular logo à segunda jornada, um empate em casa com o Estoril (1-1), entrou de forma regular na equipa na segunda metade da época, acabando por marcar presença no épico 6-3 frente ao Sporting em Alvalade, que praticamente assegurava aos encarnados o título de campeões nacionais. Antes, Toni já lhe tinha dado a estreia europeia, na meia-final da Taça das Taças perdida para o Parma pela regra dos golos fora (2-1 na Luz e 0-1 em Itália).

Seguiram-se dois anos de afirmação plena, nos quais Kenedy marcou o primeiro golo como sénior do Benfica – nos 5-0 ao Chaves, a 23 de Outubro de 1994 – e ganhou, no relvado, a final da Taça de Portugal de 1996. A vitória sobre o Sporting, por 3-1, no jogo que ficou tragicamente marcado pela morte de um adepto leonino na sequência do disparo de um very-light, acabou por ser o último jogo de Kenedy pelo Benfica. Sem acordo para renovar contrato – o Benfica quis aumentar-lhe o vencimento original em 10 por cento e o jogador achou pouco – acabou por aproveitar a liberdade que a Lei Bosman trouxera e assinou pelo Paris St. Germain, onde o novo treinador era Ricardo Gomes, seu antigo colega na linha defensiva encarnada. Antes da mudança, porém, Kenedy esteve presenta na vingança da geração do Mundial da Austrália: convocado por Nelo Vingada para o torneio olímpico de Atlanta, ajudou a equipa portuguesa a chegar a um quarto lugar um pouco ensombrado pelos dois últimos resultados: 0-2 com a Argentina de Zanetti, Crespo e Simeone nas meias-finais e 0-5 com o Brasil de Roberto Carlos, Bebeto e Ronaldo no jogo que dava a medalha de bronze.

Em Paris, Kenedy fez uma época preenchida, com um segundo lugar na Liga francesa, apenas atrás do Mónaco, e uma meia-final da Taça das Taças, desta vez ganha ao Liverpool. Kenedy, porém, não jogou a final, que os parisienses perderam para o Barcelona. E finalizada a época, optou por corresponder ao convite do FC Porto e regressar a Portugal. Da passagem pelas Antas, no entanto, não guardou excelentes memórias, pois nunca foi escolha fixa para António Oliveira. É verdade que somou mais um título nacional ao palmarés e que ganhou a segunda Taça de Portugal (3-1 na final ao Sp. Braga), mas teve de voltar à Luz, para defrontar o Benfica, e acabou por deixar o relvado após 33 minutos de uma derrota por 3-0 que serviu aos encarnados como uma espécie de vingança para uma temporada falhada. Dispensado do FC Porto, Kenedy teve de baixar um patamar para jogar. Tentou o Albacete, na II Liga espanhola, mas não se deu bem e no mercado de inverno estava de volta a Portugal, para representar o E. Amadora. Começava ali, com Jorge Jesus, a segunda vida do esquerdino: ainda ajudou a consolidar o oitavo lugar de 1998/99, partindo depois para mais uma boa temporada no tricolor da Reboleira. Em Fevereiro de 2000, exorcizou o fantasma benfiquista, marcando ao seu clube de origem numa vitória clara por 3-0. E quando o Estrela desceu, em 2001, ele teve a oportunidade de continuar entre os grandes, assinando pelo Marítimo.

Na Madeira, viveu a melhor época da sua carreira. Nelo Vingada, que o conhecia das seleções jovens, colocou-o de forma mais regular a meio-campo e Kenedy não só respondeu com seis golos na Liga como foi preponderante na caminhada dos insulares até à meia-final da Taça de Portugal, eliminando de caminho o Benfica. Na última jornada desse campeonato, marcou em mais uma vitória frente aos encarnados (3-2), vindo a saber depois que estava convocado para a fase final do Mundial. Com 28 anos e zero internacionalizações A, Kenedy via-se à beira de um momento definidor. Mas depressa a subida ao céu foi interrompida: no estágio em Macau com que a equipa preparou (?) a fase final da competição, o jogador soube que um medicamento que tomara para emagrecer tinha gerado um controlo anti-doping positivo. A forma como a informação transpirou para o exterior e o modo como o jogador saiu, sozinho, do hotel ficarão para a história como uma das maiores faltas de senso na história da seleção nacional. Certo é que apareceram mais controlos positivos, esses oficiais, e Kenedy foi suspenso, perdendo toda a época de 2002/03. Ainda jogou por Marítimo e Sp. Braga (uma meia-final da Taça de Portugal) antes de Nelo Vingada voltar a chamá-lo, desta vez para representar a Académica. Despediu-se da I Divisão a 22 de Maio de 2005, com um empate frente ao FC Porto (1-1) no Dragão.

Aos 31 anos, Kenedy voltou a emigrar. Jogou no APOEL, em Chipre, mas foi na Grécia que ficou mais tempo, ajudando o Ergotelis a subir de divisão e encetando depois por lá a carreira de treinador em equipas de menor dimensão. De volta a Portugal há uns anos, é neste momento treinador do Coruchense, disputando a fase de manutenção do Campeonato Nacional de Seniores.