Tomou parte na saga dos Magriços, em 1966, onde se mostrou um defesa central de classe. Mas a vida de Alexandre Batista teve sempre outras prioridades, o que levou a que a carreira de futebolista ficasse para segundo plano.
2016-02-17

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1964

Os que andam na casa dos 40/50 anos, que já não viram o Mundial de 1966 mas ouviram contar histórias, sabem bem quem é Alexandre Batista. Defesa central de classe pura, que jogava limpo e aproveitava a estatura para impor o seu futebol, esteve ao lado de José Carlos, Morais e Hilário no quarteto mais recuado que valeu ao Sporting o título nacional nesse ano e ajudou a seleção nacional a chegar às meias-finais do Campeonato do Mundo. E no entanto, se se aprofunda a pesquisa, vê-se que a carreira deste barreirense que representou sempre o Sporting não chegou sequer à centena de partidas na I Divisão. Razão? As prioridades dele sempre foram outras. Como o curso de economia, que finalizou enquanto ainda jogava futebol e que lhe permitiu depois sucesso fora dos relvados. Porque, como hoje lembra, "vinha de uma terra [Barreiro] onde os jogadores passavam mal quando acabavam para o futebol".

Nem enquanto adolescente Alexandre Batista se dedicou a 100 por cento ao futebol. Por essa altura, ele que tinha entrado no Sporting ainda como juvenil, jogava ao mesmo tempo ténis, basquetebol, voleibol e ténis de mesa, modalidade na qual chegou a ganhar títulos nacionais. Tinha tudo para se um atleta de eleição, como terá compreendido o argentino Alfredo González, que a 26 de Fevereiro de 1961, dias depois de ele ter completado 20 anos, o fez alinhar pela primeira vez na equipa do Sporting. Jogou a defesa-central frente ao Atlético, em jogo da Taça de Portugal que os leões ganharam por 2-0. Nessa época haveria de fazer mais um jogo na Taça, também em casa, contra o Sp. Braga (vitória por 9-0), já com a equipa a cargo de Otto Glória, mas estranhamente ficou fora do onze em toda a temporada seguinte, marcada pela conquista do título de campeão nacional. E na outra, quando eclodiu no onze José Carlos, e em que o Sporting ganhou a Taça de Portugal.

Por esta altura, já com 22 anos, ninguém diria que Alexandre Batista poderia chegar onde chegou. A 4 de Setembro de 1963, no arranque oficial de mais uma época, feito em Bergamo, num jogo contra a Atalanta, o brasileiro Gentil Cardoso fê-lo jogar a meio-campo. O Sporting perdeu por 2-0, mas o jovem Alexandre manteve-se no onze e, duas semanas e meia depois – os calendários eram assim… - até marcou um golo na vitória por 5-3 no terreno do Alhandra, na primeira eliminatória da Taça de Portugal. A estreia no campeonato, porém, teve de esperar mais uns tempos: chegou apenas a 1 de Dezembro, em Alvalade, numa derrota por 2-1 face ao V. Setúbal. Só em Fevereiro de 1964, ao que se diz a pedido dos colegas, é que Alexandre Batista se assumiu como titular do Sporting. Ainda esteve em nove das dez últimas jornadas do campeonato e, acima de tudo, na fase decisiva da Taça das Taças, alinhando nos dois jogos contra o Manchester United, nos três com o Lyon e na final dupla que a equipa leonina ganhou aos húngaros do MTK Budapeste.

O sucesso europeu parecia lançar Alexandre Batista para mais altos voos. Em Junho de 1964, chegou à seleção nacional, convocado por José Maria Antunes para as partidas da Copa Independência, no Brasil, contra a Inglaterra (empate a um golo) e o Brasil (derrota por 4-1). A época que se seguiu, porém, voltou a ser de escassa utilização. O preferido do treinador francês Jean Luciano, que viera da Suíça para substituir Anselmo Fernández, foi sempre o veterano Morato e, mesmo quando a falta de resultados levou à demissão do treinador e ao regresso do arquiteto que tinha estado na conquista europeia, quem entrou no onze foi Alfredo, um central que o Sporting recrutara no V. Setúbal. Ao todo, Alexandre Batista fez apenas quatro jogos no campeonato, mais sete na Taça de Portugal. Terá colocado outra vez a carreira de futebolista em stand-by. Só em 1965/66 regressou em grande, formando dupla de enorme sucesso com José Carlos, que levou o Sporting a ganhar o campeonato ao super-Benfica de Eusébio. Com 34 jogos pelo Sporting (21 no campeonato, oito na Taça de Portugal e cinco na Taça das Feiras), Alexandre Batista viveu a sua época de maior utilização, a única em que, na verdade, foi opção firme do treinador.

E voltou a ser opção para a seleção nacional: mesmo não tendo entrado em nenhum dos jogos de qualificação, foi convocado para a fase final do Mundial, no qual Manuel da Luz Afonso e Oto Glória optaram por utilizar a defesa do Sporting (reforçada por Vicente) e o ataque do Benfica. O cocktail funcionou às mil maravilhas: Portugal chegou às meias-finais e Alexandre Batista só não esteve no segundo jogo da campanha (jogou Germano). Desta vez parecia que a carreira de Alexandre Batista ia mesmo arrancar, mas apesar de ter começado a nova época como titular do Sporting e da seleção nacional, só manteve o posto por três meses. Depois de uma derrota em Guimarães, em finais de Novembro, só voltou a jogar em finais de Abril, num empate frente ao Atlético. O lugar ao lado de José Carlos foi ocupado por Armando Manhiça e o Sporting acabou a época num modesto quarto lugar. Até final da carreira, esta foi sempre a história de Alexandre Batista: onze jogos no campeonato de 1967/68 (mais cinco na Taça de Portugal e dois na Taça das Feiras); 14 em 1968/69 (mais sete na Taça de Portugal e um na Taça das Feiras); e 13 em 1969/70, ainda assim uma época especial, porque o Sporting voltou a ser campeão e Alexandre Batista marcou os seus primeiros (e únicos) golos no campeonato. Estreou-se a marcar a 12 de Abril de 1969, frente ao Boavista, num jogo em Alvalade que estava complicado para os leões – que já eram matematicamente campeões. Alexandre Batista fez o primeiro golo, numa recarga a um remate de Nelson, já a meio da segunda parte, e os leões acabaram por ganhar por 3-0. Uma semana depois, num remate de longe, repetiu a graça nos 5-2 ao Leixões com que o Sporting se despediu desse campeonato.

Alexandre Batista fez o último dos seus 93 jogos no campeonato entrando para o lugar de Tomé, a 7 de Fevereiro de 1971, num empate a zero com a Académica, em Coimbra. Ainda não tinha 30 anos. Foi nessa altura chamado para o curso de capitães do exército, o que somado à ponta final do curso de economia – que acabou nesse mesmo ano – lhe tirou o tempo para treinar. Viria ainda a fazer mais uma partida pelo Sporting, a 16 de Maio, quando jogou em vez de Hilário na segunda parte de uma vitória por 8-0 frente ao Oriental, em Marvila, no arranque da caminhada que daria a vitória na Taça de Portugal aos leões. Já não esteve na final, contra o Benfica. Aliás, Alexandre Batista abandonou o futebol no final dessa época, valendo-se dos estudos para ser nomeado diretor dos Serviços Provinciais de Economia de Angola. Veio ainda a ser vice-presidente do Sporting, na direção liderada por João Rocha, e a participar em comissões comemorativas da história do clube, mas nunca mais exerceu funções ligadas ao futebol. Que, na vida de Alexandre Batista, foi sempre um extra.